A coluna volta depois de uma pausa não programada durante o período eleitoral de 2022, marcado por medo e delírio, tensão e alívio. No primeiro turno, Lula (PT) obteve 48,43% dos votos válidos, deixando Bolsonaro (PL) em segundo lugar com 43,20%. Poucos dias depois, e já no espírito acirrado do segundo turno, a sensação de estarmos vivenciando um plebiscito pela manutenção do estado democrático de direito se acentuou, e acelerou também a amplitude da frente contra Bolsonaro – que passou a contar até com Miguel Reale Júnior, Alexandre Frota e Ciro Gomes, que não foi pra Paris. Protagonizada por Lula, essa frente única contra o tomara-que-caia autoritário felizmente venceu, e em 30 de outubro de 2022 Luiz Inácio foi eleito presidente do Brasil, pela terceira vez, e com número recorde de votos (60.345.999, para ser exata). O amor venceu? Talvez, mas não só. Firmamos o forte desejo democrático da maioria, nos regozijamos no belo funcionamento das urnas eletrônicas e no pulso firme de Alexandre de Moraes à frente do Tribunal Superior Eleitoral, profissionais e amadores batalhamos juntos em incansáveis movimentos de disputa online e de ruas, e muito colaborou com este resultado um aceno visível da tal mão do mercado. Foi suado, mas compensou, e como sintetizou a grande Sueli Carneiro em seu Twitter: “Enfim saímos do pesadelo. Podemos voltar a sonhar.”

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O pleito histórico entre a razão e a surrealpolitik (vide notas) acabou com a apuração das urnas; todavia, enquanto finalizo esta coluna, chega em seu quinto dia a série de protestos, em frente a quartéis militares em cidades do país, e sob a forma de bloqueios ilegais em rodovias estaduais e federais, causados por bolsonaristas indignados com a derrota. Em 21 de outubro deste ano escrevi em meu perfil de Facebook, em relação às eleições, que quando tudo isso acabasse, seria só o começo. E realmente, pelo menos até o final da primeira semana de novembro de 2022 seguimos lidando com desdobramentos vexatórios – e aterrorizantes – do resultado do pleito que fez de Bolsonaro o primeiro presidente não reeleito do Brasil. Numa ironia perversa e característica do ethos bolsonarista, cidadãos brasileiros que tanto defendem o direito à liberdade, o livre mercado e a pátria livre, por vários dias impediram pessoas de ir e vir, atravancaram a economia, e continuam pedindo por interferência no resultado das eleições, em nome da democracia. Grupos emocionados com intervenções militar ou divina, e desinformados por um emaranhado de conteúdo falacioso que os faz desconfiar até de Bolsonaro nos colocam sob o risco de que o pior do bolsonarismo ainda esteja por vir, por ter se desencarnado da figura do futuro ex-presidente, para estabelecer casa como diretriz nazi-fascista e fundamentalista cristã de um delirante e pulsante imaginário coletivo ressentido, e com desejos de vingança por aniquilação. 

As notas abaixo aparecem em ordem cronológica, e dão conta do intervalo de tempo entre 08 de julho e 03 de novembro de 2022. O que mais marcou você nestas #eleições2022? 

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O pleito histórico entre a razão e a surrealpolitik (vide notas) acabou com a apuração das urnas; todavia, enquanto finalizo esta coluna, chega em seu quinto dia a série de protestos, em frente a quartéis militares em cidades do país, e sob a forma de bloqueios ilegais em rodovias estaduais e federais, causados por bolsonaristas indignados com a derrota. Em 21 de outubro deste ano escrevi em meu perfil de Facebook, em relação às eleições, que quando tudo isso acabasse, seria só o começo. E realmente, pelo menos até o final da primeira semana de novembro de 2022 seguimos lidando com desdobramentos vexatórios – e aterrorizantes – do resultado do pleito que fez de Bolsonaro o primeiro presidente não reeleito do Brasil. Numa ironia perversa e característica do ethos bolsonarista, cidadãos brasileiros que tanto defendem o direito à liberdade, o livre mercado e a pátria livre, por vários dias impediram pessoas de ir e vir, atravancaram a economia, e continuam pedindo por interferência no resultado das eleições, em nome da democracia. Grupos emocionados com intervenções militar ou divina, e desinformados por um emaranhado de conteúdo falacioso que os faz desconfiar até de Bolsonaro, nos colocam sob o risco de que o pior do bolsonarismo ainda esteja por vir, por ter se desencarnado da figura do futuro ex-presidente, para estabelecer casa como diretriz nazifascista e fundamentalista cristã de um delirante e pulsante imaginário coletivo ressentido, e com desejos de vingança por aniquilação. 

As notas abaixo aparecem em ordem cronológica, e dão conta do intervalo de tempo entre 8 de julho e 3 de novembro de 2022. O que mais marcou você nestas #eleições2022? 

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MICHEL TEMER 

O patriarcado é um sistema multifacetado de dispositivos de proteção de homens cis, e eles frequentemente se arvoram transformar a própria dificuldade de entendimento concreto da realidade em problema comunicativo das mulheres. A gente precisa de feminismo por muitos motivos, e um dos mais fundamentais e basilares é o fato de que são mulheres feministas quem costuma articular pensamentos como este: o que quer que qualquer mulher pense e diga para qualquer homem cis (qualquer um, não importa se é chefe, empregado, aluno, professor, amigo, irmão, pai, namorado, marido, ex, vice, golpista), ele sempre vai tomar o que ele mesmo pensa e diz como tendo tanta ou mais importância, ainda que esteja completamente equivocado ou somente com fragmentos de razão. 

A falta de escuta e respeito pelo que pensamos, fazemos e falamos eles raramente admitem. Um exemplo disso, cortesia de Michel Temer, ficou evidente em entrevista dele veiculada pouco antes do começo do período eleitoral, em 21 de julho no UOL, e um exemplar demonstrativo de operações patriarcais, tal qual mentir descaradamente. Temer disse: “Não houve golpe. Eu quero dizer que a ex-presidente é honesta. Eu sei, e pude acompanhar, que não há nada que possa apodá-la de corrupta. Ela é honestíssima. Mas houve problemas políticos. Ela teve dificuldades no relacionamento com a sociedade e com o Congresso Nacional.” 

Algumas pessoas vão gostar menos de você quando você estabelece limites e demonstra saber o quanto vale. Mantenha a dignidade, e deixe que o futuro se encarregue delas.

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Imagem de 03 de novembro de 2022. Do Instagram de Gabriela Bilo.

MISOGINIA 

As figurinhas de WhatsApp zoando Bolsonaro são, em grande parte, feitas pela femininização dele. “Tchutchuca” é obviamente um chamamento no feminino. O “se não têm leite, que tomem whey” alude à Maria Antonieta. Foram feitos, como para Dilma Rousseff, adesivos para bocais de gasolina com imagem dele sendo “estuprado”. O bolsonarismo é misógino e machista. E parte significativa do antibolsonarismo também.

IMBROCHÁVEL 

Aos 7 de setembro de 2022, no Rio de Janeiro, de cima do palanque das comemorações do bicentenário da independência, e sem respeitar a legislação eleitoral, Bolsonaro tornou o evento em comício por sua candidatura à reeleição. E fez isso de uma forma obscena: tentando puxar um coro de “imbrochável” para si. Além de ridícula, essa afirmação é uma mentira – o próprio Jair já disse que quem diz não brochar é mentiroso, em entrevista concedida para a edição brasileira da Revista Playboy, em Junho de 2011. Sua afirmação foi ridícula, mentirosa – e também violenta; no dia seguinte o Catarinas publicou o importante editorial de opinião, assinado pela Diretora Executiva Paula Guimarães, intitulado “O fanatismo patriarcal militante de Bolsonaro, ajudando a sedimentar na mídia nacional o caráter fundamentalista e fundamentalmente patriarcal de seu projeto de caos político.

ELAS SIM

Também no dia 07 de setembro, enquanto a campanha de Bolsonaro transformava o feriado comemorativo do bicentenário da independência em uma grande micareta eleitoreira, um grupo de mulheres da sociedade civil – com apoio da Emancipa Mulher, Juntas!, Portal Catarinas, Jornal Livre SC, 8M Criciúma, Comitê Mineiro de Causas Indígenas, Boleto+1, Coletivo O Melhor de Cada Uma – lançava a campanha Elas Sim!, estimulando o uso das hashtags #ElasSim em conjunto com #EmDefesaDaDemocracia e #Eleições2022 em postagens de redes sociais, convidando a sociedade a assinalar apoio à diversidade nas candidaturas e cargos eletivos, e pedindo para que eleitores depositassem seus votos para o legislativo em candidatas feministas, negras e indígenas, orgulhosamente LGBTI+, com deficiência e outros marcadores históricos de marginalização sistemática por identidade.  

No final do dia a campanha estava no topo da hashtag #emdefesadademocracia no Instagram e no Twitter, e obteve boa visibilidade em postagens que usavam #eleições2022 no Instagram e no Facebook. Até 2 de outubro a campanha seguiu produzindo conteúdo em prol da inclusão e diversidade na política de forma ampla e democrática. Ao final do primeiro turno em que foram eleitas as Deputadas Estaduais, Deputadas Federais e Senadoras da federação, foram batidas quantidade recorde de mulheres e pessoas negras eleitas para o Congresso Nacional – ainda assim, a maioria está alinhada a valores de direita e extrema direita, e não reflete a luta por direitos de gênero e raça. Confira mais informações na matéria Mais mulheres, mais negros, menos avanço, de 4 de outubro, veiculada na Gênero Número

PESQUISA PRIMEIRO TURNO 

Me chamou atenção, nas pesquisas do Ipec e Datafolha divulgadas no g1 em 26 de setembro, que Bolsonaro tinha vantagem sobre Lula em três estratos da sociedade brasileira, organizados por:

  • renda (pessoas cujo rendimento familiar mensal supera 5 salários mínimos);
  • religião (no caso, entre evangélicos); 
  • e região (especificamente a região Sul).

DEBATE NA GLOBO, PRIMEIRO TURNO 

Em 30 de setembro de 2022 aconteceu, na Rede Globo, um dos humorísticos, digo, debates presidenciais mais marcantes da história da dramaturgia, digo, da política brasileira. O protagonista dessa pantomima, digo programa eleitoral, foi o falso Padre Kelmon. No futuro, quando nos referirmos ao “histórico último debate presidencial da Globo antes das eleições”, vamos ter que qualificar se é O Insidioso, de 1989, ou A Farsa, de 2022.

 Um dos candidatos, na melhor tradição brasileira de alívio cômico nos pleitos pelo executivo federal, colocou Enéas e Cabo Daciolo no chinelo: o cara, que mente ser padre,  se candidatou e debateu como se padre fosse, vestido de padre, e acusando Lula e a esquerda de forma geral de mentirosos.

 Ápice da surrealpolitik. “Cê está fantasiado, rapaz”, Lula zombou naquela noite, numa de suas trocas com o padreco fake. Mas era notório: até a imensa paciência do Lula para o teatro de horrores que muito informa a cena política do Brasil, ali, já tinha acabado.

BOLSOPEDIA

Durante o segundo turno, muitas iniciativas de combate a Bolsonaro apareceram e se multiplicaram na internet. Aos 6 de outubro descobri uma das melhores: a Bolsopedia, que registra o legado de destruição deixado pelo Governo Bolsonaro, e foi construída a partir de matérias da imprensa organizadas por tópicos e em ordem cronológica. O site é dividido em três seções (para ler, para compartilhar, e para ver/ouvir) e parabenizo e agradeço o coletivo independente que fez o importante e útil o levantamento de dados, sistematizando-o e publicando-o para que pudéssemos usar a realidade em favor da democracia, em tempo hábil.

BRUXA ANTIGA 

O ecossistema de desinformação bolsonarista (Eliara Santana, 2022) se espraia pelos mais diversos rincões da internet, e opera muito a partir da perversão do sentido. No dia 13 de outubro rodou pelos meus feeds de Facebook e Twitter uma página chamada “Bruxa Antiga”. A tal da “bruxa” é a favor de “Deus, Pátria e Família”, e não é coincidência que este seja um slogan bolsonarista, tampouco que derive do nazismo. A perversão da realidade com que o bolsonarismo opera é tanta que inverteram a narrativa da bruxa para torná-la em seus algozes; a tríade composta por cristianismo, estado e consanguinidade heterossexual, afinal, é exatamente a que informou a criação da aliança de poderes que, na Europa medieval, criou o mito da bruxa para, então, executar mulheres que não obedeciam a seus valores. O Bolsonarismo é uma zoeira. Mas as teorias feministas são boas ferramentas com que ajudar na organização desta esculhambação. 

Mulheres foram discursivamente transformadas em bruxas através de campanhas de difamação. A bruxa é fake news medieval, produto de propaganda genocida para justificar a queima de dissidentes na fogueira, queimando assim também os conhecimentos que tinham. Isso é História. E situada numa sociedade pré-científica.

Mulheres não foram queimadas por conta de magia, muito menos eram transformadas em bruxas por devoção a Deus. Mas porque seus conhecimentos medicinais e agrícolas sobre a natureza fundamentavam e subsidiavam contestações acerca do projeto ideológico de uma sociedade proposta pela aliança perversa entre clero e monarquia da época. Uma aliança patriarcal, de pai para filho, de homem para homem, pautada na propriedade por hereditariedade, o que exige o controle dos corpos de mulheres para vingar, afinal não há como garantir paternidade sem vigilância extrema da nossa sexualidade, não é mesmo? Menos mistificação do real e mais Silvia Federici, Gayle Rubin e pensamento crítico feminista.

SER FEMINISTA NO BRASIL É… 

Ser feminista em 2022 no Brasil é continuar entusiasmada com a eleição do Lula mesmo depois de ele insistir, no debate da Band em 19 de outubro, em dizer ser contra o aborto ao invés de, por exemplo, explicar porque é irrelevante ser contra ou a favor da prática, visto que o importante é que ela exista como direito. Como as mulheres Argentinas explicaram tão bem, tanto que mudaram a legislação de seu país: precisamos de políticas públicas que garantam educação sexual para decidir, contraceptivos para evitar gravidez indesejada, e aborto legal e gratuito para não morrer. Direitos sexuais e reprodutivos existem para proteger e preservar vidas humanas. Por que ser contra direitos que protegem e preservam vidas de meninas, mulheres e gestantes?

BRASIL PARALELO 

Em 19 de outubro de 2022 a página Brasil Paralelo foi desmonetizada e passou a estar sob investigação no TSE. A Brasil Paralelo é uma organização de extrema direita que dissemina mentiras no debate público brasileiro. Uma das mais conhecidas difusoras de fake news, esta organização precisa ser combatida. Naquela manhã mesmo, enquanto fazia uma apresentação da escola feminista e antirracista Emancipa Mulher, na Conferência Freire organizada pela Universidade Emancipa, salientava a importância de enfrentar esses picaretas. Grande dia!

DEBATE NA BAND, SEGUNDO TURNO

No debate da Band, realizado por um pool de vários veículos de comunicação no segundo turno, em 19 de outubro, Lula abriu suas falas demonstrando irritação por Bolsonaro, pelo conjunto da obra que é o desgoverno Bolsonaro. Bolsonaro não demonstrou emoção nenhuma; ao contrário, estava com o roteiro de inversão e/ou perversão de narrativa muito bem ensaiado. Foi o primeiro a mandar o oponente parar de mentir, sabendo que ‘mentiroso’ é como sua oposição vinha o enquadrando. Lula é muito mais bem equipado para responder qualquer pergunta sobre política, e levar qualquer debate para qualquer lugar. Mas Bolsonaro é muito bem treinado para atacar o Lula. Lula diz que Bolsonaro mente todo dia. Que ele mente e desmente, e adiciona: “vou te dizer uma coisa, Bolsonaro: esse país merece alguém que tenha credibilidade, não pode ter um governo que parece biruta”

Nas considerações finais, cada um teve 1 minuto e 30 segundos de fala. Bolsonaro as usou para dizer querer um país livre, com respeito, segurança e liberdade de expressão, mas também para atacar a falaciosa “ideologia de gênero”, instrumentalizar a dor de pais que têm filhos viciados, a fé cristã e direitos reprodutivos. Diz “sim à propriedade privada, não ao MST”, quando uma coisa nada tem a ver com a outra, e salienta o direito à legítima defesa, ou seja: armas. Arremata com “e sou contrário à corrupção e roubalheira”.

 Já Lula agradeceu o povo brasileiro, insistiu que Bolsonaro é o cara mais cara de pau para contar mentiras, se exaltou ao lembrar que quem defende liberdade de expressão e religiosa é ele. Mais calmo e debochado, na sequência se referiu a Bolsonaro como “ditadorzinho que quer ocupar a Suprema Corte”, e avisou preferir governar democraticamente, dando prioridade ao cuidado para com o povo. Há 33 milhões passando fome no país que mais produz alimentos, ele diz, e é preciso acabar com a fila do osso. Sorri ao projetar a volta do churrasquinho no final de semana para todos. 

Os apresentadores anunciaram, antes de encerrar, que esta foi a maior live jornalística da história do YouTube.

MANIPULAÇÃO 

Em 23 de outubro sugeri, num post que fiz em meu perfil de Instagram, que os  últimos sete dias das eleições mais delicadas e determinantes da própria história dos pleitos brasileiros não seriam feitos de arco-íris e algodão-doce, mas de tiro, porrada e bomba, medo e delírio, dedo no c* e gritaria, e salve-se quem puder. 

Disse isso pois é observável que apreensão, ressentimento e ódio são os principais ingredientes da formulação dos combustíveis para a máquina de comunicação bolsonarista. A campanha pela ascensão dos Bolsonaro ao poder, desde 2018, foi difundida como propaganda anti-progresso, e distribuída em fragmentos, usando mídias tradicionais, online e sociais como plataformas do “ecossistema de desinformação” (enquadramento da Eliara Santana, 2022), que com o Gabinete do Ódio obteve muito alcance no país. 

O embate eleitoral foi entre uma família de milicianos e uma nação democrática. O bandidismo no poder parece ter vantagem competitiva, já que dominaram o discurso hegemônico com a ajuda de criminosos nacionais e estrangeiros (alguns já mortos, outros sendo julgados, condenados, encarcerados; alô Olavo de Carvalho e Steve Bannon), estabelecendo residência no imaginário nacionalista com falácias de destruição de inimigos imaginários. Mas a concorrência desses caras era todo mundo no Brasil que queria democracia, processos sociais e políticos transparentes, comida na mesa de todas as famílias e pessoas, educação e saúde pública de qualidade, ciência e pesquisa, cultura e arte acessíveis, livros e entretenimento para todos, bons empregos, planejamento de vida e alegria.

Eu estava segura de que a maioria dos brasileiros, brasileiras e brasileires não escolheriam viver sob um regime fundamentalista autocrático. Estava tão segura então como estou agora que a maioria de nós prefere a paz, a solidariedade, a colaboração.

Esperei ansiosa pelos resultados, e esperançosa de que a maioria escolheria viver sem medo de virar a página, e levar nossa história na direção de mais liberdades individuais e coletivas, e onde possamos fazer oposição sem temer por nossas vidas. O voto é secreto, mas não deve ser segredo que uma maioria sentiu orgulho, dentro do coração e na solidão da cabine da urna eletrônica, de escolher um país um pouquinho menos patriarcal.

ARROGÂNCIA? 

Sempre é arrogante chamar as pessoas de burras, e não é justo nem correto chamar todos os eleitores de Bolsonaro de burros. Mas são os próprios eleitores do Bolsonaro que vão precisar lidar com o fato de que foram manipulados, através de uma campanha de desinformação em massa, meticulosamente orquestrada e sem precedentes na história, para acreditar que a mistura de ignorância e arrogância com que debatem certas questões sociais constitui sabedoria política. Seria puramente cômico observar sujeitos fetichizando a coisa pública, se as consequências de alienação soberba não fossem trágicas e amargadas pela população de forma ampla e generalizada.

DILMA DIVA 

A roupa que a grandiosa Dilma Rousseff usou na comemoração dos resultados do pleito que elegeu Lula, em 30 de outubro de 2022, era a mesma que ela usava ao sair do Alvorada em 5 de setembro de 2016, depois de consolidado o Impeachment, quando ainda profetizou: “nós voltaremos”. E não foi? Dilmíssima, Senhora da Razão, Cassandra Tropical, fechou o ciclo com o mesmo modelito. Diva é diva, bem.

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Imagens: reprodução.

MANIPULAÇÃO, ARROGÂNCIA E CIÊNCIA

Agora que acabaram as #Eleições2022, um discernimento importante: não é da ordem da arrogância sugerir que eleitores bolsonaristas foram manipulados, mas das ciências sociais. O bolsonarismo, num futuro muito próximo, será caracterizado por quem o estuda e observa como resultante de um grande esforço comunicativo de manipulação, que foi sistemático, orquestrado e sem precedentes.

Há anos os estudiosos Chomsky e Herman, em seu “modelo de propaganda”, explicaram direitinho como propaganda e vieses sistêmicos funcionam, como populações são manipuladas, e como o consentimento para políticas econômicas, sociais e políticas é “fabricado” na mente do público devido a essa propaganda. Nos últimos cinco anos a jornalista Carole Cadwalladr vem investigando justamente como estas táticas de manipulação por propaganda vêm sendo lucrativas para as redes sociais. E, no Brasil de 2022, Letícia Sallorenzo e Eliara Santana decodificaram o que vêm chamando de “ecossistema de desinformação” espalhado pelo Gabinete do Ódio com a técnica firehosing (nome, em inglês, de uma técnica de propaganda na qual um grande número de mensagens é transmitido de forma rápida, repetitiva e contínua, em vários canais, sem compromisso com a verdade). 

Com todo respeito, pessoal: houve manipulação sim, e foi crassa. Esta manipulação é patente e evidente para quem conhece teorias da comunicação e da linguagem. Não é da ordem da soberba nem da arrogância esclarecer fatos. É da ordem da ciência!

Vamos prosperar numa nova e melhor fase da nossa existência, uma em que conhecimento sobre as coisas volte a valer mais do que opinião sobre elas?

RECONHECIMENTO 

A dificuldade com que certos setores bolsonaristas estão tendo para lidar com sua derrota nas urnas, e a frequência com que se pede por intervenção militar neste País, me fazem pensar que o Brasil precisa seguir os passos de países como África do Sul e Alemanha, Estados que, depois de traumas nacionais, fizeram reconhecimento amplo e profundo de seu histórico autocrático, e por isso criaram, implementaram e mantêm diversos mecanismos de expressão e exposição deste reconhecimento, para que nada parecido jamais volte a acontecer. Os panos quentes da Anistia não deram conta do confronto que brasileiros precisamos fazer, como nação, sobre nossa tradição opressora, racista, machista, autoritária e fundamentalmente patriarcal.

(E os Bolsonaro – que sempre foram mais “familícia de bens” do que “família de bem” – deveriam ser julgados em Haia.)

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Imagem: Roosevelt Cassio/ Reuters.

EMOÇÕES 

Observando o mau comportamento e falta de civilidade e racionalidade característicos de conjuntos de simpatizantes do bolsonarismo nestes últimos quatro anos,  de forma acentuada nas #Eleições2022, e mais ainda desde a dificuldade expressa  com que certos setores bolsonaristas vêm lidando com a derrota que amargaram nas urnas suscitou em mim um sentimento que eu não esperava experimentar, que sequer concebia ser possível: rir de tristeza. A perversão da realidade foi tamanha que teve efeitos derivados até nas nossas emoções.

BROCHOU NO PRONUNCIAMENTO

Demorou dois dias para avisar que se pronunciaria sobre o resultado das eleições para as quais não se reelegeu. Demorou uma hora e 40 minutos para se pronunciar. Quando falou, não durou dois minutos, e fez pouco além de reiterar os mesmos enquadramentos mentirosos que faz de tudo, especialmente de si e da esquerda. Bolsonaro, o patético. 

SANTA E FASCISTA CATARINA

O curioso caso dos cidadãos que querem tanto uma nação fascista e supremacista branca, mas tanto, que continuaram pedindo por intervenção daquele que fingiu ser seu líder por um tempo. (Sim. Fingiu. Nunca foi um líder, de fato, tanto que segue liderando pouco além do próprio destino – uma atitude recorrente sua, que ficou muito patente desde o domingo, 30 de outubro, quando perdeu a eleição, e levou até 1º de novembro para se manifestar, mostrando seu caráter antidemocrático ao não reconhecer a legítima vitória de Lula – esse sim, um dos maiores líderes da política, com mais de uma história de provações e redenção e paulatinos ineditismo e recordes eleitorais, além de um dos mais bem quistos estadistas da contemporaneidade; quiçá de todos os tempos.) Queriam o que, exatamente? Que Bolsonaro tomasse de volta o poder do que ainda nem abdicou, e que, por eleições democráticas, não terá mais a partir de janeiro? Ele demorou, mas expressou reconhecimento de sua derrota nas urnas, bem como os rumos de seu futuro político como conselheiro do PL que o acolheu. Alguns conterrâneos meus querem tanto ser a extensão do Reich que projetaram um desejo por Hitler na figura do Bolsonaro — e não dá nem para dizer que não entendo a semelhança. 

FEMINISMO ANTIRRACISTA 

Por causa dos bloqueios pós-eleitorais nas estradas em Santa Catarina – de onde escrevo (voto em Criciúma, de onde sou) – não pude retornar para Porto Alegre (onde moro), e acabei perdendo duas sessões de autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre. Uma, a da obra inaugural da Ìyá Sandrali Bueno, Pelo direito de ser quem sou: um ser coletivo (Editora Zouk, 2022), projeto de que participei desde a concepção e em que trabalhei com alegria, dedicação e orgulho, um livro que celebra a radicalidade do amor e estimula o melhor de cada pessoa justamente para que a gente aprenda a agir melhor uns pelos outros de forma coletiva. Outra, a do terceiro livro de Clara Corleone, cuja primeira e premiada obra o homem infelizmente tem que acabar (Editora Zouk, 2019) tive o prazer e honra de editar. 

Perdi estes dois momentos importantes – não só da minha vida, mas da cultura feminista e antirracista gaúcha – por conta de uma branquitude delirante que fetichiza tudo, sobretudo a política e a coisa pública; um pessoal alienado e soberbo, que não entende muito bem a diferença entre democracia e desejo, mas tem recursos o suficiente para que seus desejos antidemocráticos vinguem. Mas não vai durar. Esse episódio dos Trapalhões da Arrogância, vai acabar. Nós vamos acabar com esse IV Reich do Sargento Pincel. 

PROMOÇÃO CATARINA

Um dos jeitos mais factuais com que se pode descrever bolsonaristas que, desde domingo 30 de outubro de 2022 contestam o resultado legítimo das eleições de 2022, é de branquitude cisheteronormativa delirante. O primeiro parágrafo do primeiro primeiro texto do meu primeiro livro (Patriarcado Gênero Feminismo, Editora Zouk, 2022) vai assim:

“O termo realpolitik se refere à política feita a partir de considerações práticas em detrimento de noções ideológicas, mas o termo é mais comumente utilizado de forma pejorativa, para indicar políticas coercitivas, imorais ou maquiavélicas. Em 2016, ao observar os acontecimentos da política brasileira que no dia 31 de agosto daquele ano vieram a culminar no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, propus um desdobramento do conceito. Sem palavras com que qualificar o cenário abjeto de perversão da realidade – que rapidamente se acentuou desde então – sugeri estarmos vivendo a surrealpolitik: a política na qual democracia é o que se diz querer, mas que se atinge por caminhos coercitivos, imorais,  maquiavélicos e patentemente antidemocráticos.” 

Os delírios da branquitude cisheteronormativa de certa maneira fundamentam a surrealpolitik, e a surrealpolitik de certa maneira infla os delírios da branquitude cisheteronormativa. O livro está disponível, e quem comprar no pré-venda vai receber sua cópia com dedicatória e autografada. Adquira o seu aqui!

 

Joanna Burigo

Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC. Em 2001 se formou pela PUC-RS em Comunicação Social, e obteve seu MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics em 2012. É professora do MBA em Diversidade da Universidade La Salle, coordenadora da escola de formação feminista e antirracista Emancipa Mulher, membra do Conselho Editorial do Portal Catarinas, e consultora de comunicação e educação na Boleto+1. Parceira de publicações com a Editora Zouk, "Patriarcado Gênero Feminismo", de 2022, é seu primeiro livro autoral.

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