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Coluna da Joanna Burigo

Pílulas do discernimento: O tororó da Anitta contra a hipocrisia do Sertanejo

Postado em 01/06/2022, 15:03

Em Pílulas do Discernimento, Joanna Burigo – mestra em Gênero Mídia e Cultura, professora no MBA em Diversidade da Universidade La Salle, coordenadora da Emancipa Mulher, curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk, e conselheira do Portal Catarinas – traz notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político em debate nas redes sociais.

A raba de milhões

O poder de mobilização de símbolos da Anitta é tamanho que até a expressão “tomar no cu” ela conseguiu reenquadrar — e o fez apenas existindo: o misógino sertanejo projetou a própria burrice na malandra do funk que, fazendo às vezes de espelho para hipocrisia, ajudou a refletir luz sobre práticas machistas (e ilegais!) da mesmíssima indústria em que, recentemente e globalmente, vem sendo a número um. 

Notas feministas sobre a “CPI do Sertanejo”

O G1 fez, em 31/05, um bom resumo do caso que dá título a essa coluna; é de lá que tiro a cronologia a seguir: 

Em 12 de maio, o sertanejo Zé Neto bradou, em pleno palco de um show no interior, não ser um artista que depende da Lei Rouanet, nem de “tatuagem no toba” como a de Anitta para fazer sucesso. Fãs da gata, em choque com o recalque do calça-justa, o criticaram nas redes, salientando sua hipocrisia em atacar a Lei Rouanet enquanto faz shows pagos por prefeituras. A contradição entre as críticas de Zé Neto à Lei Rouanet e shows como os dele, financiados sem licitação nem outras formas de controle e seleção, virou debate nas redes sociais, onde o tema emplacou a #CPIdoSertanejo – que só existe como hashtag, ao menos até agora. 

Mas as investigações do público internauta puseram o foco nos cachês de Gusttavo Lima, mais altos que as colunas de sua mansão greco-goiana. O Ministério Público de Roraima abriu investigação sobre a verba de R$800 mil que Lima recebeu em São Luiz, e no dia seguinte, 26 de maio, o cantor disse que não cabe ao artista fiscalizar as contas públicas. Aos 27 de maio, outro de seus shows foi questionado, e o G1 mostrou que o dinheiro para o concerto veio de recursos reservados para educação, saúde e infraestrutura

Um dia depois, outro show de Lima foi cancelado, e também um de Bruno e Marrone – e Anitta suspirou no Twitter, debochada: “E eu pensando que estava só fazendo uma tatuagem no tororó“. O 30 de maio foi mais agitado que festa de rodeio, com o Ministério Público do Rio de Janeiro dizendo que vai investigar um show marcado para a cidade de Magé, enquanto Lima fazia um vídeo ao vivo e choroso, pedindo para que o público o respeite, ele que é um homem cristão e pai de família, e afirmando também estar a ponto de jogar a toalha e não compactuar com dinheiro público.

Mas sendo contrariado pela revelação de que o pré-candidato à presidência André Janones destinou quase R$ 2 milhões para exposição com um show seu em Ituiutaba (MG). Segura, peão.

Foto: Reprodução Twitter

Ê, patriarcado véio

O Brasil é ininventável. 

Nem a mais alucinada ficção alcançaria o tanto de indecorosidade e falso moralismo machistas que compõem o realismo trágico do nosso debate público, e o caso do tororó contra a hipocrisia de sertanejos ilustra isso muito bem. Já constam nesta coluna alguns dos desdobramentos do comentário ridículo feito por Zé Neto sobre a tatuagem da Anitta, mas a patroa e esta história são tão boas que colocam luz sobre dois dispositivos de proteção de homens cis no patriarcado: a paternidade e o cristianismo, e como eles são empregados na demanda por empatia após um ou mais atos de abuso de poder por parte de homens cis brancos.

O patriarcado encoraja homens cis a fabricarem narrativas de empatia para com eles, e empatia para com bom mocismo de pai cristão branco é um destes dispositivos – eu diria que é um dos mais fundamentais para a sustentação do poder dos homens. Bom mocismo de homem cis, especialmente se branco, e ainda que espetacularmente falso, é mais bem visto e aceito socialmente do que a ideia de mulher sexualmente livre.

Estou maravilhada em observar o Brasil revirando as bases de uma das mais fáceis e repetitivas formas de enquadrar uma história a partir de lógicas misóginas. O cara tentou emplacar a piranha como vilã, e acabou revelando que o papel de herói é fachada para ofuscar péssimas práticas financeiras. Tem sido com certa euforia feminista que venho assistindo o desenrolar da ironia que uma crítica rasa e errada à lei Rouanet, feita por meio de misoginia acerca da raba de uma das mais bem sucedidas artistas brasileiras de todos os tempos, tenha sido o que, figurativamente, meteu no c* desta categoria tão machista que é o sertanejo. Vai, malandra!

E agora, uma paródia da música infantil ‘Fui no Tororó’

Eu fui do tororó
Falar mal e me lasquei
Achei bela morena
Cujo tororó é rei

Aproveite minha gente
Que a investigação não tarda
Se não cair agora
Cairá graças à raba

Ó Anittinha
Ó Anittinha
Mostrará a roda
Seguirá rainha

Rainha mesmo eu fico
E hei de ficar
Pois mando agro boyzinho
Pro MP investigar

Eu fui do tororó
Falar mal e me lasquei
Achei bela morena
Cujo tororó é rei

Same energy

Super Xuxa Contra o Baixo Astral e Tororó da Anitta Contra a Hipocrisia Sertaneja. Mesma energia.

Parabéns e elogios I

​​O ato de parabenizar alguém pela aparência me soa tão esquisito que quando acontece comigo tenho vontade de responder latindo. Parabenizar a aparência é supervalorizar a estética antes de acomodar a humanidade integral da pessoa. E quando se trata de mulheres e/ou feminilidade no patriarcado, a estética é supervalorizada em detrimento de qualquer outro aspecto da nossa humanidade.

Elogios são ótimos, fazem bem, e elogiar alguém, de forma genuína, por qualquer motivo, é sempre massa. Parabenizar e elogiar não são a mesma coisa, embora dar parabéns seja uma forma de elogio. Nenhuma coisa nem outra é inerentemente problemática, ao contrário. Elogiar a aparência de alguém não é exatamente o problema que estou tentando enquadrar aqui.

O que quero dizer aqui é que parabenizar alguém pela aparência não é o mesmo que elogiar a aparência de alguém. Dar os parabéns pela aparência sedimenta a ideia de que aparência é conquista, significante de sucesso adquirido por trabalho e esforço. E mesmo que a aparência resulte de trabalho e esforço, por que dar os parabéns pela aparência, e não pelo trabalho e pelo esforço

Penso também que há um elemento bastante objetificante na naturalização da parabenização de mulheres pela aparência. Não fazemos isso com os homens. Não dos mesmos jeitos. Receber biscoito é ótimo. Mas as mulheres merecem congratulações pelo que fazemos para muito aquém e além do prazer visual que as pessoas sentem ao nos ver. É impressionante a força da objetificação que nos desumaniza. Haja feminismo.

Parabéns e elogios II

Insisto: não há problema inerente em elogiar qualquer aspecto de qualquer pessoa, seja sua aparência ou suas realizações ou meramente sua existência. Elogiar as pessoas é uma coisa linda de se fazer. 

Desdobro nesta nota a mesma ideia da anterior: é naturalizado em nossa sociedade elogiar as mulheres pela aparência, e o problema contido nesta naturalização fica mais visível quando em contraste com o quãos mais amplos e variados são os tipos de elogios disponíveis para os homens.

São coisas como beleza, doçura e simpatia o que levam a gente a elogiar mulheres mais rapidamente. Outras características podem muito facilmente escorregar de elogio para misoginia. A mulher assertiva é, antes, lida como mandona. A mulher sexualmente livre é, antes, lida como uma vagabunda. A mulher competente e bem sucedida é frequentemente alvo de ódio. Mas se for bonita, pode até ser medíocre: vai ganhar biscoito.

Sigamos elogiando, gente. E viva a beleza. Mas não dá para não ver certas discrepâncias marcadas por gênero.

Vibrando na frequência do patriarcado

Eu vejo o discurso de glorificação do vibrador como mais um de naturalização do falogocentrismo. O mesmo falogocentrismo que permite que homens cis que desejam mulheres cis transem muito, muito mal com mulheres cis, sem serem enquadrados socialmente como ruins de cama.

Vibradores e homens cis têm seu valor, e como. Mas a naturalização da hipervalorização de um objeto que proporciona orgasmos para mulheres cis escamoteia o fato de que precisamos expor a falta de interesse que homens falogocentrados têm em sexualmente satisfazer mulheres cis. O egoísmo dos homens cis em empregar seus corpos para o nosso prazer é proporcional à supervalorização do orgasmo estimulado por objetos de vibração.

Deixa as pessoas

Minha escrita não tem como propósito avaliar muito menos monitorar as pessoas, suas ações e gostos.

Quando escrevo sobre coisas como vibradores ou elogios ou cultura pop ou linguagem ou política nacional, meu objetivo é o mesmo: demonstrar, com estes significantes do real, injustiças e diferenças artificiais balizadas por gênero no patriarcado, na cola apontando falogocentrismo, machismo, misoginia, binarismo, feminilidade, masculinidade, performatividade, “male gaze” e outros conceitos e marcadores, pois, interseccionalidade.

Um fundamento da minha escrita é que da própria vida quem sabe é a dona da vida. Não eu.

Quem é influencer?

Eu considero o influencer, esse da cultura influencer, não alguém cujo poder de influência influencie mudanças sociais. O trabalho de influenciar o pensamento social para aprimorar o futuro precede a cultura influencer. Esse trabalho é do ativista. Sempre foi. Um ativista pode, além de influência social, também mover dinheiro. Mas o influencer da cultura influencer é, antes de qualquer coisa, um vendedor glorificado.

Veja, o influencer que a publicidade gosta é o que rende bem. Se o influencer rende para marcas, e também promove debate social e filosófico de qualidade, o que tenho a dizer é: parabéns e obrigada. Admiro de verdade quem hackeia hegemonia e ainda enriquece com isso.

Mas a maioria dos influencers não tem preocupação com mudança nem com justiça social, e muitos desavergonhadamente empregam palavras de ordem dos ativismos como plataformas para puro marketing pessoal. A técnica da maioria dos influencers, como é próprio da publicidade, é criar problemas (angústia, vazios, inseguranças) para então poder vender as soluções (que, na cultura influencer que eu critico tanto, são da ordem da estética, dos estilos de vida, do “autocuidado”).

Ativistas influenciam, e influencers podem ser ativistas. Mas discernimento ajuda a não insistir nessa confluência.

Observe

Para o opressor, a falha comunicativa nunca está na própria escuta nem na visão, mas sempre na expressão do oprimido, ou falta dela. 

Sistemas e sujeitos

Finalizo esta coluna traduzindo e parafraseando Thomas Merton: “Quando critico um sistema, e pessoas pensam que as estou criticando, é porque aceitam o sistema e se identificam com ele”.

(Nunca o li, nem o conhecia. Apenas me deparei com essa sua citação, e a achei relevante e útil. Vejam: “Quando critico o machismo e pessoas pensam que as estou criticando, é porque aceitam o machismo e se identificam com ele”, ou “Quando critico o racismo e pessoas pensam que as estou criticando, é porque aceitam o racismo e se identificam com ele”, e assim por diante.)




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo