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Liza Minelli, a lendária estrela de ‘Cabaret’, fez aparição surpresa para apresentar Melhor Filme junto a Lady Gaga. Foto: Getty Images.

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas do discernimento: Deixa as mina!

Postado em 08/04/2022, 8:00

Em Pílulas do Discernimento, Joanna Burigo, mestra em Gênero Mídia e Cultura (LSE), conselheira editorial do Portal Catarinas e coordenadora Emancipa Mulher, traz pequenas notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político que estão em debate nos fóruns das redes sociais.

Deixa as mina

O efeito de fazer julgamentos misóginos, e o de depositar expectativas feministas na direção das mulheres por conta de coisas como: cabelos raspados ou longos ou naturalmente grisalhos ou não; do uso de maquiagem ou saltos ou cílios ou unhas ou outros postiços ou não; por conta de intervenções cosméticas e cirúrgicas; se malham e pra quê ou se são ou não gostosas; é muito parecido.

O efeito, de onde quer que venha, é a naturalização da vigilância e controle dos corpos e subjetividades de mulheres, a partir da ideia subentendida de que há jeitos ideais de ser mulher que nenhuma de nós detém.

Não é exatamente fácil ser feminista no patriarcado, disso todo mundo sabe, e uma das maiores dificuldades que a gente tem é criticar feminilidade, porque isso ainda é entendido como disputa entre nós. A máxima “deixa as pessoas” pode muito bem funcionar em benefício de todas as mulheres. Já as constantes reiterações de escalas de aceitabilidade, estas tendem a acabar mal para nós.

Por isso insisto: importante mesmo é a gente reconhecer que significantes de feminilidade são muito facilmente utilizados como dispositivos de controle. E que qualquer significante de feminilidade que possa ser empregado por nós contra nós é um dispositivo bem sucedido de controle patriarcal.

Tapa na sociedade

No dia seguinte ao Oscar 2022, eu desejei que o tabefe do Will Smith inaugurasse um tempo de menor leniência com qualquer pessoa achando que pode fazer qualquer graça de qualquer coisa.

A bofetada não foi mais violenta do que o comentário que a suscitou, e se foi uma reação explosiva, foi antes corajosa, fina e contida. Seria bem útil o tapão entrar no léxico sobre a cultura pop dos milionários televisionados como marcação pedagógica da diferença entre agir com maturidade e respeito ao próximo e com fanfarronice inconsequente.

Os Pinkett Smith são milionários também, mas que momento.

E ainda sobre o Oscar 2022

O tapa fez história na cerimônia dos Oscars, e as mulheres também. Esta já era a edição com o maior número de indicadas, e foi significativo o número de vencedoras, das figuras repetidas às pioneiras históricas.

Ariana DeBose se tornou a primeira mulher negra queer a ganhar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua versão de Anita do Amor, Sublime Amor de Steven Spielberg – papel pelo qual, em 1962, Rita Moreno também recebeu a estatueta na versão original dirigida por Jerome Robbins e Robert Wise.

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Ariana DeBose é a primeira mulher negra queer a vencer a categoria Melhor Atriz Coadjuvante no Oscar. Foto: Reuters.

Com apenas 20 anos, Billie Eilish ganhou o Oscar de Melhor Canção Original pela ótima No Time to Die, do histórico 007 – Sem Tempo Para Morrer.

Jenny Beavan ganhou seu terceiro Oscar de Melhor Figurino pelo delicioso trabalho que fez em Cruella.

A reverenciada Jane Campion se tornou a terceira cineasta mulher de todos os tempos a ganhar um Oscar por Melhor Direção, com seu filme Ataque dos Cães. Em 94 anos da premiação, é o segundo ano consecutivo em que quem leva o prêmio é uma diretora.

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Jane Campion é a primeira mulher com duas indicações à Melhor Direção na história do Oscar. Foto: Frederic J. Brown/AFP.

E outra diretora, Sian Heder, ganhou o prêmio máximo da noite, levando para casa o Oscar de Melhor Filme e, também, o de Melhor Roteiro Adaptado, por Coda (No Ritmo no Coração), seu segundo longa-metragem.

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“No Ritmo do Coração”, dirigido por Sian Heder, vence como Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme, em 2022. Foto: Brian Snyder/Reuters.

Aliás, quem apresentou o grande prêmio foram Lady Gaga e Liza Minelli. A diva de 76 anos parecia muito feliz, porém, confusa no palco quando adentrou, acompanhada da loira, em uma cadeira de rodas. Ao notar o estado fragilizado de Minelli, Gaga se curvou levemente, e pegou nas suas mãos dizendo em seu ouvido enquanto olhava para ela: “I got you” (“Eu estou contigo”). Daí, muito delicada e elegantemente, procedeu a ler, com enunciação e tempo impecáveis, o resultado da premiação. Foi um momento chique numa noite repleta de momentos chiques.

Project Makeover

Recentemente, vêm passando pelo meu feed de Facebook e Instagram alguns anúncios para um jogo online chamado “Project Makeover”. Nele, é possível observar a reificação tanto da imagética da feminilidade que enfatiza a hegemonia da masculinidade cis quanto da imposição do male gaze* como determinante do desejo que informa a performance do feminino.

No jogo, a função do jogador é “ajudar” a moça “A” a ficar mais atraente, e atraente o suficiente para que o moço largue a moça “B” também atraente, para ficar com a moça “A’. É assim que personagem e jogador saem vitoriosos desse jogo: embonecando uma imagem feminina mais do que a outra imagem feminina, para que ela consiga faturar o prêmio: o cara.

As circunstâncias mudam: em uma cena, a moça “A” vê o moço beijando a moça “B’, e temos que embelezar a moça “A” para que ela reconquiste o moço. Em outra, o moço e a moça “B’, grávida, estão perante um juiz quando chega a moça “A’, acompanhada de uma criança, e precisamos embelezar a moça “A” até a vitória no tribunal. É assustador. Haja discernimento feminista sobre feminilidade.

* Male gaze: termo cunhado em 1975 pela crítica de cinema Laura Mulvey, que veio a nomear um útil conceito para a teoria feminista: o ato de apresentar mulheres, sobretudo mas não só nas artes visuais, a partir de uma perspectiva cis-masculina-heterossexual, e para o prazer visual deste espectador.

Desejos feministas

No #8M de 2022, três desejos bem basilares acometeram esta feminista.

Um: que nenhuma menina ou mulher se cale ou seja violentamente calada diante da divisão sexual do trabalho, e consiga expressar para os homens ao seu redor que eles têm o dever de fazer trabalho reprodutivo, ou trabalho considerado “feminizado” que, em bom português, pode ser entendido como toda e qualquer tarefa doméstica e/ou de cuidado.

Dois: que todo mundo saiba que no histórico da marcação da data do oito de março como Dia Internacional da Mulher consta a reivindicação pela socialização do trabalho feito por mulheres. Na escola feminista e antirracista Emancipa Mulher, em que sou professora, a gente mostra que dentre as demandas das mulheres russas que iniciaram a revolução de 1917, estavam creches, lavanderias e cozinhas públicas. O trabalho doméstico e de cuidado toma tempo, exige esforço, gestão e estratégia, e é naturalizado como sendo “do mundo das mulheres”. Ao longo da vida, mulheres acumulam cargas horárias desproporcionais às dos homens cuidando de todo mundo. E com que valorização?

A Pnad Contínua de 2019, por exemplo, uma de tantas pesquisas que comprovam essa disparidade, revela que no Brasil mulheres com emprego dedicam em média 18,5 horas para afazeres domésticos e cuidados de pessoas da família, enquanto homens também empregados dedicam 10,4 horas para as mesmas atividades. É vergonhoso que homens adultos se sintam à vontade para que as mulheres continuem usando seus recursos vitais, tempo e energia, fazendo mais trabalhos de cuidado do que eles.

Três: que nenhuma menina ou criança tenha medo de se expressar para seus pais. Os homens precisam lidar com as perspectivas que seus filhos têm sobre eles, sem sucumbirem a dramas narcísicos dignos de egos frágeis. Dramas com os que, depois, são as mães e filhos que acabam lidando. Trabalho emocional também é trabalho de cuidado.

Eu sempre digo que o patriarcado é um sistema multifacetado de dispositivos de proteção de homens cis, e naturalizar que existe “trabalho de mulher” para se beneficiar desse trabalho é um desses dispositivos. “O lugar do homem no feminismo”, assim como na sociedade, são muitos lugares – inclusive limpando a casa, fazendo comida e cuidando dos outros.

Homens são adultos, crianças são pessoas e mulheres não existem para oferecer trabalho gratuito para a sociedade.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo