O debate sobre como a chamada “machosfera” tem operacionalizado as redes sociais com conteúdos misóginos e masculinistas ganhou força justamente no contexto em que movimentos feministas avançam na criminalização de práticas machistas no ambiente digital e na denúncia de seus efeitos na política e no cotidiano das mulheres. Nos últimos anos, esse universo se expandiu e se diversificou, reunindo grupos que compartilham uma base comum: a reafirmação da superioridade masculina, a desconfiança ou hostilidade em relação às mulheres e a recusa em lidar com transformações sociais que ampliaram a autonomia feminina.

E, neste mesmo cenário, muita gente tem falado sobre os red pill – ideologia cisgênera ligada a visões misóginas e distorcidas sobre relações de gênero. Mas o que tem escapado deste debate é uma outra parcela de meninos e homens cisgêneros que, ao contrário dos red pill que se autointitulam “alfas”, seriam exatamente o oposto: aqueles que não alcançam ou não mantém um padrão desejável de masculinidade imposto pelo machismo e pela estética da heteronormatividade.

Eles passam a se reconhecer como “incels” (celibatários involuntários), atribuindo sua frustração afetiva e sexual a uma suposta rejeição sistemática das mulheres, muitas vezes transformando essa dor em ressentimento, isolamento, introspecção e, não raramente, em discursos de ódio que também são produtos dessa mesma estrutura que os exclui. 

As comunidades incel, ao contrário dos red pill que rejeitam o rótulo, desenvolvem uma linguagem própria para interpretar suas experiências, criando categorias como “truecel” e “fakecel” que funcionam como mecanismos de pertencimento e controle. Essas classificações transformam frustrações afetivas em identidades rígidas, sustentadas por uma visão fatalista segundo a qual aparência, genética e status determinariam, de forma quase inevitável, o acesso a relações.

Conceitos como o “valor sexual de mercado” reforçam essa lógica ao reduzir vínculos humanos a uma suposta hierarquia de atributos, convertendo afeto e desejo em cálculos de oferta e demanda.

Em paralelo, movimentos como o MGTOW (Men Going Their Own Way, ou “Homens Seguindo Seu Próprio Caminho”) deslocam o eixo da narrativa: não se trata apenas de não conseguir acessar relações, mas de recusá-las deliberadamente. Sob o discurso de autonomia, defendem o afastamento de mulheres e de vínculos afetivos, ainda que frequentemente reproduzam generalizações e desconfianças estruturais semelhantes às observadas nos fóruns incels. 

Seja pela via da exclusão ou da recusa, essas ideologias convergem em um ponto central: a redução das relações humanas a modelos simplificados, onde o outro aparece menos como sujeito e mais como obstáculo ou recurso. O resultado não é apenas o empobrecimento das possibilidades de encontro, mas a consolidação de um imaginário que transforma isolamento em destino e ressentimento em linguagem política. Essas comunidades não operam apenas com frustração individual; elas articulam uma visão de mundo que combina misoginia, racismo e rejeição a pessoas LGBTQIA+, produzindo uma hierarquia social que tenta se apresentar como “natural”. 

Cabe destacar que esse ódio tem sido instrumentalizado em fóruns e chans na internet, levando a massacres e ataques armados, onde uma parte significativa desses jovens é radicalizada a partir desse processo de exclusão por não se sentirem desejáveis. Nesses espaços, a frustração individual é reorganizada como narrativa coletiva, transformando vulnerabilidade em identidade política e deslocando a responsabilidade estrutural para alvos específicos, sobretudo mulheres e minorias. 

O que emerge daí não é apenas um problema de comportamento individual, mas um ciclo de retroalimentação entre machismo, solidão e radicalização, que encontra na internet,  e nas ideologias de extrema direita, um terreno fértil para legitimar violências e produzir pertencimento a partir do ressentimento, sobretudo de gênero.

Se, entre os red pills, o ressentimento gera  desprezo e  busca pela construção de uma estima baseada no menosprezo às mulheres e na autoafirmação de uma estética de masculinidade, no caso dos incels ele se converte em ódio, o que revela um problema mais profundo e urgente. Não estamos diante apenas de rótulos distintos, mas de um ecossistema digital que reorganiza o machismo, atualiza a misoginia e encontra na juventude um terreno fértil para se expandir, sobretudo em contextos de crise e ascensão da extrema direita. 

Trata-se de uma engrenagem que transforma frustração em identidade, isolamento em pertencimento e violência em linguagem possível, operando não apenas na superfície dos discursos, mas na forma como esses jovens passam a interpretar a si mesmos e o mundo ao redor, sempre a partir da lógica da escassez, da rejeição e da culpa projetada no outro. 

Enfrentar esse fenômeno exige mais do que condenação moral: demanda compreender suas raízes sociais, políticas, afetivas e culturais, e disputar, com urgência, outras formas de existência que não estejam ancoradas no ódio como resposta à própria dor.

Mas há diferenças importantes. Os red pills operam de forma mais aberta, muitas vezes disfarçados de “coaching”, desenvolvimento pessoal ou crítica social e muita gente a sua volta segue esses perfis que em muitos casos podem até parecer inofensivos pela sofisticação dos seus discursos. Circulam em vídeos, podcasts e redes amplas, com linguagem aparentemente racional e acessível. Já os incels tendem a se organizar em fóruns mais fechados, na deepweb e plataformas de jogos online, onde o ressentimento ganha contornos mais extremos, com discursos de ódio, desumanização e até apologia à violência.

Apesar dessas diferenças, ambos fazem parte de um mesmo fenômeno: a reorganização da misoginia no ambiente digital. Pesquisas indicam que essas comunidades constroem narrativas que culpabilizam mulheres e reforçam hierarquias de gênero, criando ambientes tóxicos que impactam tanto seus membros quanto a sociedade como um todo.  

É impossível ignorar o contexto em que isso cresce. Há um conjunto de fatores estruturais que ajudam a explicar essa adesão. Entre eles, o isolamento social, frustrações afetivas, precarização do trabalho, avanço do fundamentalismo religioso como política e crises de identidade masculina. Esses elementos não surgem isolados. São atravessados por mudanças culturais profundas, em que antigos privilégios deixam de ser garantidos e novas formas de convivência exigem revisão de perspectivas e expectativas.

São observados ainda que o cruzamento entre misoginia, racismo e transfobia não é acidental. E funciona como base para sustentar uma visão de mundo que precisa hierarquizar corpos e identidades para se manter. O que está em jogo, portanto, não é apenas um conjunto de opiniões isoladas, mas uma gramática política que ajuda a deslegitimar políticas de igualdade, corroendo sua legitimidade social e política. Assim, contribuem para a construção de um consenso público hostil à ampliação de direitos, especialmente aqueles voltados às mulheres e à população LGBTQIA+.

Nesse cenário, a internet sem regulação funciona como catalisador. Plataformas digitais não apenas conectam esses jovens, mas também amplificam discursos de ódio e criam bolhas de validação. A lógica algorítmica recompensa conteúdos extremos, simplificados e emocionalmente carregados.

Não por acaso, canais que difundem ideias red pilljá somam dezenas de milhões de visualizações, muitas vezes embalados por linguagem filosófica ou pseudo-científica.  

Há também um dado político relevante: jovens homens cisgêneros têm demonstrado maior inclinação a posições conservadoras e reações antifeministas em diversos países, frequentemente impulsionados pelo consumo contínuo desse tipo de conteúdo nas redes. Isso não é coincidência, mas parte de uma disputa ativa de narrativas em que o feminismo (e a luta das mulheres) é distorcido e apresentado como ameaça, e não como ferramenta de justiça social. 

Nesse cenário, o alcance é cotidiano e atravessa relações próximas: seu filho, o primo ou o colega de classe da sua filha podem estar neste momento consumindo conteúdos red pill, assim como podem estar ativamente participando de fóruns incels no quarto ao lado. Maridos, cunhados, amigos, colegas de espaços religiosos, políticos ou acadêmicos também não estão imunes a essa circulação.

Os impactos disso já são visíveis. A misoginia online não permanece restrita ao ambiente virtual. Ela atravessa relações, naturaliza violências e influencia comportamentos no cotidiano. O discurso de que mulheres devem ser controladas, punidas ou responsabilizadas por frustrações masculinas não é novo, mas ganha novas formas, linguagens e alcances. Trata-se de dois lados da mesma moeda. 

E aqui está o ponto central: ignorar os incels, tratando-os como uma subcultura marginal ou irrelevante, é um erro que atende ao projeto político a que se destinam.

Se os red pill usam a estética para disputar corações e mentes em espaços abertos, os incels operam em zonas cinzentas de radicalização mais profundas, onde o ressentimento por não serem esteticamente desejáveis pode se transformar em violência concreta.

Estudos mostram que esses ambientes funcionam como espaços de reforço contínuo, onde frustração e isolamento são convertidos em ódio coletivo.  

E é justamente nesse deslocamento que operam diferentes engrenagens contemporâneas de radicalização, das comunidades incels às narrativas red pill, passando por agendas antiwoke e até por setores do feminismo transexcludente que, ao evocarem ideias como “peak trans”, mobilizam pânicos morais e constroem inimigos comuns. 

Em comum, esses campos compartilham a promessa de um “despertar” que, em vez de ampliar horizontes, estreita o mundo até caber no ressentimento, na perseguição e na violência como formas de avançar com agendas restritivas de direitos.

Falar de red pill e incels, portanto, é falar sobre o presente e o futuro das relações sociais, sobre como afetos, frustrações e inseguranças estão sendo politizados em escala digital e convertidos em identidades rígidas, reativas e, muitas vezes, violentas. Trata-se de reconhecer que há uma disputa em curso sobre o que significa ser homem, ser mulher e, sobretudo, sobre o que significa conviver em sociedade diante de transformações que tensionam privilégios históricos. 

Ignorar esse processo é permitir que ele se consolide sem contraponto, naturalizando linguagens de ódio que se infiltram no cotidiano com aparência de opinião, humor ou “verdade inconveniente”.

Há ainda um ponto  incontornável: estamos em ano eleitoral. Isso significa que essas redes, discursos e afetos se convertem em votos, agendas públicas e projetos de poder. Enfrentar essas frentes de mobilização do ódio não pode ser uma reação pontual ou episódica, mas um compromisso cotidiano, sustentado na forma como pensamos, educamos, nos posicionamos e construímos alianças. 

Mais do que conter danos, trata-se de disputar o horizonte, afirmando um projeto de sociedade que recuse a violência como linguagem política e a politica como linguagem da violência, e que seja capaz de lidar com as mulheres, cis e trans, em toda a sua diversidade e interseccionalidade, não como ameaça, mas como parte inegociável de qualquer futuro que se pretenda democrático.

Isso exige respostas que vão além da condenação moral. Isso não significa justificar. Significa reconhecer que há um processo de recrutamento constante, pertencimento e radicalização em curso. É preciso investigar melhor, aprofundar, conhecer esses fenômenos e compreender em detalhes para enfrentá-los de maneira efetiva, em defesa  da vida das mulheres.

O enfrentamento dessas ideologias passa por múltiplas frentes. Educação crítica para o uso das redes, políticas públicas voltadas à juventude, debate sobre masculinidades, fortalecimento de vínculos sociais e ação  direta contra a desinformação.

Também envolve  disputar linguagem e narrativa. Não basta denunciar ou criminalizar a misoginia; é necessário comunicar de forma acessível, desmontando essas ideias sem reforçar a lógica de isolamento que as alimenta.

Ao mesmo tempo, é fundamental reposicionar o foco: a centralidade do problema não é uma “crise de masculinidade” ou o “sofrimento masculino” em si, mas o modo como ele tem sido capturado, reorganizado e convertido em violência e ódio contra as mulheres. É nesse ponto que a linha precisa ser traçada com firmeza ética e política. Há uma diferença decisiva entre reconhecer dores e legitimar práticas que as transformam em projeto de dominação.

Talvez o convite que reste seja mais íntimo e exigente: aproximar-se desse debate sem pressa, com rigor e sensibilidade, olhando com mais atenção para esses fenômenos e para as formas como eles nos atravessam direta ou indiretamente. Há algo de profundamente humano em querer entender o mundo, mas nem todo caminho que se apresenta como uma suposta lucidez conduz à justiça.

Que essa inquietação não nos paralise, mas nos mova, de maneira sóbria e sagaz, a buscar mais, a questionar melhor e a recusar respostas fáceis que transformam dor em destino e diferença em ameaça. Porque, quando o ódio se (re)organiza, o silêncio nunca é neutro. E a escolha de pensar, com responsabilidade, também é uma forma de agir.

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  • Bruna G. Benevides

    Militar antifascista, sargenta da Marinha brasileira, Travesti, feminista afrodescendente. Presidenta da Associação Naci...

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