Foto: Chris Mayer

Coluna da Cauane Maia

Meu Fascista Favorito

Postado em 27/10/2018, 18:01

Desde os almoços de domingo às festas familiares com suas tensões e pequenas rusgas, as relações se expandiram, manifestando-se também nas redes sociais, através dos grupos ditos “da família”, ampliando sua atuação e interatividade para um campo virtual, conectado 24 horas por dia.

Se em outros momentos era possível se esquivar daquele parente preconceituoso ou das fofocas ofensivas dos encontros familiares presenciais, no campo virtual esses limites se modificam.

No território dos “grupos da família” dos aplicativos como WhatsApp, Facebook, Telegram, etc. são edificados espaços que simulam os pequenos grupos da fofoca, piadas machistas, racistas, homofóbicas, que outrora se limitavam aos almoços e encontros familiares presenciais, potencializando seu alcance e garantindo o ganho de escala.

A ditadura dos “likes e lacres” atinge fortemente os “grupos da família”, mesmo que se tente torná-los imaculados por meio da ótica do afeto, ali circulam as fake news, memes e gifs racistas, machistas, homofóbicas, gordofóbicas e todas as formas possíveis de opressão. Inflando os comportamentos fascistas que se reservavam aos encontros presenciais e que, geralmente, eram justificados pelo excesso de álcool, mal entendidos, “brincadeiras”, falta de conhecimento ou, até mesmo, pela questão geracional:

  • Seu tio estava bêbado, ele não quis dizer aquilo.
  • Sua avó/Avô é de outra época, não consegue “aceitar”.
  • Você precisa ser razoável, ele(a) não teve “estudos”.

A turma do “deixa disso” da família, responsável por contemporizar qualquer situação conflituosa, utiliza-se de jargões tradicionais para serenar os ânimos, independente da criticidade da situação, também nos meios virtuais: “Ele compartilhou sem querer”, “É apenas uma “brincadeira”.

O discurso da harmonia familiar acaba por legitimar as manifestações perigosas dos parentes, tornando tais grupos e espaços o local de discursos majoritariamente cristãos, cis- heteronormativo e branco-burguês. Numa reprodução deliberada das estruturas de opressão que hierarquiza as relações sociais.

Os espaços familiares não são imunes às relações de poder socialmente construídas e possuem suas idiossincrasias. Contudo, no ideário coletivo, é indigesto reconhecer que seus parentes são produtores e/ou reprodutores das violências.

De acordo com o Mapa da Violência 2015: Homicídios de Mulheres no Brasil, ocupamos a 5ª posição internacional, sendo um dos países que mais comete feminicídio no mundo, com a taxa de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres, em 2013. Desses, 50,3% do total de homicídios são perpetrados por um familiar direto da vítima. Ou seja, muitas vezes, conhecemos os agressores.

Com as eleições de 2018, sobretudo para a presidência da república, os “grupos da família” tornaram-se, assim como os demais espaços de sociabilidade, locais de debates acirrados. Culminando, algumas vezes, em rupturas, temporárias ou não, das relações. Debitando na conta da polarização política tais conflitos.

Nesse sentido, surge uma argumentação perigosas, como a construção do discurso fantasioso de que as famílias têm brigado e desfeito seus laços por conta das eleições, “apenas” por conta da política.

É pouco provável que as brigas, tretas e afins tenham sido instauradas na esfera familiar apenas com as eleições de 2018. Antes disso, há registros de tensionamentos intra-familiares por diversas questões, culminando, inclusive, em mortes.

Mas, nas entrelinhas dessa questão, se lê, com muita atenção e cuidado, a polarização entre o risco iminente de um regime de governo fascista, que faz apologia à tortura e violência e se ampara no racismo, machismo e homofobia; e a conservação do Estado democrático de direito.

Quando um candidato à presidência da República manifesta-se, publicamente, dizendo que seus filhos não casariam com uma mulher negra, pois foram “bem educados”; que quilombola se pesa por arroba, como gados; que negros não servem nem pra procriar; que mulheres devem ganhar menos, pois engravidam; que sua única filha é fruto de uma “fraquejada”; que homossexualidade é falta de porrada; que bandido bom é bandido morto; que trabalhador terá que escolher entre ter direito ou trabalho; que é contra a PEC das domésticas, pois acredita que elas têm direitos demais; e tantas outras barbaridades racista, machistas e homofóbicas, além da apologia à tortura e ditadura, e constrói seu eleitorado por meio desse comportamento, há algo de muito estranho.

É verdade que nem todos os eleitores de um candidato com esse perfil é fascista. Mas, isso não quer dizer que não hajam simpatizantes do fascismo, racismo, machismo e homofobia em seu eleitorado.

Aquele familiar que envia memes homofóbicos e/ou racistas no “grupo da família” via WhatsApp e declara seu voto em um candidato que se ampara no discurso de ódio, se vê representado em um plano de governo perigoso.

O parente assediador e abusivo, que quando bebe além da conta fica puxando briga e impõe o medo nas reuniões da família e que reproduz a máxima do “bandido bom é bandido morto”, vê no porte de arma a extensão de sua masculinidade e virilidade. Desse modo, o regime de governo que propala a violência, dialoga diretamente com ele.

A grande questão, é que nem todos os eleitores de um regime fascista estão alheios às suas propostas e, por mais duro que possa parecer, pois estamos falando dos afetos, é possível que nossos familiares se identifiquem com suas pautas e que tenham dado sinais claros de intolerância e violência ao longo do tempo.

As eleições de 2018 desvelou os(as) nossos(as) fascistas favoritos(as), aqueles com os quais convivemos em ambientes domésticos íntimos, no espaço privado da convivência familiar. Embora seja duro reconhecer tal fato, é também necessário encarar a realidade e refletir sobre o que fazer com tudo isso.

Reconhecer o nosso fascista favorito nos dá a oportunidade do diálogo e das condutas afetivas para a subversão dos comportamentos violentos. Por meio dos laços familiares é também possível repensar esses espaços de interação, seja presencial ou virtual, para o estabelecimento das relações saudáveis e seguras, que respeite a diversidade.

 




Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mestra em Antropologia Social pela mesma instituição, bacharel em administração e graduanda em ciências sociais. Integrante do Cores de Aidê.
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