Arte: Catarinas

Coluna da Lia Vainer Schucman

Fui acusada de manipular o conceito de racismo por denunciar sua relação com estruturas de poder

Postado em 09/03/2021, 14:02

Recebi ontem por uma amiga o artigo de Wilson Gomes chamado “A retórica da exclusividade racista dos brancos”.  No artigo, sou acusada pessoalmente de manipular o conceito de racismo, manobra que ele diz ser semelhante à estratégia usada pelo regime militar da ditadura ao fazer uso do termo democracia para caracterizar a ditadura. Eu acho muito sério ser acusada de manipular um conceito [falando seriamente, manipular conceito sendo apenas uma professora é quase impossível, via de regra, já que a o jogo semântico que governa a vida de uma língua é um jogo público. Até mesmo os poetas, que jogam esse jogo, só obtém sucesso na interlocução com os leitores.  Já respondendo ao autor que nunca manipulei conceitos, tampouco inventei], o que ele fala não faz sentido, não se inventa um conceito por mero capricho ou desejo. Para modificar um conceito, como ele diz ter sido feito na ditadura foi preciso um exército no comando, a mídia hegemônica apoiando, a marcha pela família, ou seja, construir tais narrativas e toda a circulação no tecido social.

::É racismo quando um negro discrimina um branco apenas por ter nascido branco?::

Depois de ler, fui conversar diretamente com o autor: acreditava que estávamos pensando os conceitos através de campos do conhecimento distintos e gostaria de averiguar se tratava deste tipo de desentendimento. Afinal, quem estuda a temática sabe, por exemplo, que o conceito sociológico de raça ou racismo pode diferir de seus usos na linguagem do dia-dia, cotidiana, do senso comum, em que comumente se diz por exemplo: “Maria foi racista contra gordo”.

Ainda que possa parecer sério ser acusada de manipular um conceito, especialmente para uma professora universitária que se insere tanto no campo acadêmico e profissional, quanto no debate público trabalhando com relações raciais. O ataque não é só contra mim, mas também com inúmeros intelectuais e sociedade civil organizada que vem se esforçando neste país e fora para desvelar o racismo que estrutura nossa sociedade. Logo, entendo o episódio como uma possibilidade de retomar o conceito, debater seus pressupostos, haja vista que tantos ainda não compreenderam.

Em 1999, o cientista social Antônio Sérgio Alfredo Guimarães definiu racismo brasileiro como um sistema, uma estrutura de produção de desigualdade que abrange três dimensões: a crença na ideia de raça, a discriminação, a situação persistente e estrutural de desigualdade entre brancos e não brancos. Ele, assim como o antropólogo Kabengele Munanga (em 1998) e muitos outros pesquisadores, estudiosos e pensadores do campo – incluindo-se aqueles da psicologia social, onde me insiro – fazem uma distinção ou diferenciação conceitual entre preconceito racial, discriminação racial e racismo.

Uma doutrina racial não seria suficiente para configurar racismo – por isso os diversos grupos de descendentes de orientais aqui no Brasil, racialmente classificados como japoneses, pois submetidos a homogeneidade, a suposição de qualidades internas a partir de seu fenótipo, não sofrem racismo: porque isso não descreve uma relação de poder e inferiorização em relação a outros grupos raciais. Eles sofrem preconceito racial, mas não estudam menos por isso, não tem menor aceso a trabalho, não são perseguidos em supermercados, não ganham menos, nem recebem tiro da polícia por parecerem suspeitos. Ou seja, o preconceito que sofrem, que certamente é de ordem racial, não se transforma numa desvantagem ao acesso a bens e direitos. Sofrem preconceito racial, não racismo. Por isso também não consideramos racismo a discriminação a brancos – que sim, pode acontecer. São a manifestações como essas que assistimos nos Estados Unidos, onde brancos são desestimulados ou impedidos de entrar em bairros ou estabelecimentos negros. Mas os brancos não deixam de seguir em vantagem no mercado de trabalho, nos índices de saúde e escolaridade porque não comem pizza do Bronx.

Uma das razões para fazer essa distinção é não usar o mesmo termo para falar de atitudes individuais que possam ter resultados e consequências completamente distintas, exatamente porque os sujeitos em uma sociedade marcada pela desigualdade histórica de raça não têm o mesmo poder.

Essa concepção, que envolve conceitos que vem sendo construídos de longa data por diferentes atores do campo intelectual, seriamente trabalhada e compartilhada no campo das ciências humanas – portanto, não poderia ter sido inventada por mim – define o racismo como um sistema de dominação sendo, portanto, política (termo que Wilson Gomes atribui a mim como invenção).

Assim é importante situar o fenômeno do racismo localizado dentro de um espaço histórico e social que se configura a partir do surgimento da categoria raça na modernidade, tornando-se uma ideologia necessária para justificar o processo de escravização dos povos africanos.

Além da colonização e a expansão do capitalismo, bem como a ideia de pureza racial que levou ao extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, resultando, portanto, na hierarquização dos povos europeus em relação às outras populações. Desta forma, o racismo é mais especificamente entendido como uma construção ideológica, que começa a se esboçar a partir do século XVI com a sistematização de ideias e valores construídos pela civilização europeia, quando esses entram em contato com a diversidade humana nos diferentes continentes, e se consolida com as teorias científicas em torno do conceito de raça no século XIX.

O racismo, tal qual se manifesta hoje, é fruto das teorias racistas produzidas pela ciência moderna. Desse modo, pretendo aqui descrever o fenômeno tal como se caracterizou dentro da sociedade ocidental moderna.

Guimarães, no artigo “Combatendo o racismo: Brasil, África do Sul e Estados Unidos”, publicado em 1999, argumenta que: “O racismo, portanto, origina-se da elaboração e da expansão de uma doutrina que justificava a desigualdade entre os seres humanos (seja em situação de cativeiro ou de conquista) não pela força ou pelo poder dos conquistadores (uma justificativa política que acompanhara todas as conquistas anteriores), mas pela desigualdade imanente entre as raças humanas (a inferioridade intelectual, moral, cultural e psíquica dos conquistados ou escravizados). Esta doutrina justificava pelas diferenças raciais a desigualdade de posição social e de tratamento, a separação espacial e a desigualdade de direitos entre colonizadores e colonizados, entre conquistadores e conquistados, entre senhores e escravos e, mais tarde, entre os descendentes destes grupos incorporados num mesmo Estado nacional. Trata-se da doutrina racista que se expressou na biologia e no direito”.

Para o filósofo Tzvetan Todorov, as doutrinas racialistas produzidas na modernidade, que deram suporte às ideologias racistas, possuem diversas proposições. Podemos resumi-las em cinco pontos fundamentais, a fim de entender como a racialização feita a partir da ideia de raça desembocou no racismo: a) A existência das raças; b) Continuidade entre o físico e o moral; c) A predominância do grupo sobre o indivíduo; d) Hierarquia única de valores; e) Política fundamentada no saber sobre as raças. Essa última preposição estabelece uma política que deve ser engajada ao pensamento racial que pode se desdobrar no extermínio de uma raça considerada inferior, como no caso da segunda guerra mundial, na escravidão e na submissão de uma raça em relação à outra etc.

Portanto, como é fácil para quem está minimamente atento a este campo demonstrar, o racismo tem uma definição marcada a partir de construções sócio-históricas e não pode ser entendido fora do contexto de seu surgimento. Diante deste pequeno resgate, indago: quem está manipulando o conceito? Quem está reduzindo? O professor Wilson Gomes diz em seu texto que há uma compreensão comum do que é racismo, “a compreensão comum de racismo diz que se trata de uma concepção que: a) defende que os seres humanos se dividem em raças biológicas, como os cães; b) que há raças superiores e raças inferiores; c) que pelo menos umas das raças merece ser objeto de ódio e desprezo.”

Sua compreensão esquece – ou ignora – justa e exatamente o que define o racismo: as relações hierárquicas e assimétricas construídas historicamente que fazem que indivíduos ocupem lugares diferentes, superiores ou inferiores, na estrutura social. Como o debate é conceitual e epistemológico seria interessante o autor definir, descrever e revelar em que autores tem encontrado e lido essa “compreensão comum de racismo”, que ignora essa dimensão estrutural – considerada a mais importante na definição dessa categoria para Clovis Moura, Munanga,  Guimarães, Todorov, Edward Telles, Silvio Almeida, Adilson Moreira, Marcia Lima, Cida Bento e Carlos Hasembalg, isso para citar bem poucos desse enorme panteão.

Outra coisa que o autor afirma é que o racismo antecede a opressão racial e justifica que antes dos alemães terem poder para matar os judeus já existia o racismo antijudeus. “Muito antes de poder “matar, dominar, discriminar e diferenciar” fazendo com que todos os judeus ocupassem “lugares de subalternidade e opressão” na estrutura social, antes da Solução Final, já havia racismo antijudaico e este racismo é que foi mobilizado, atiçado e manipulado até dar aos “de baixo” a condição de virar o jogo sobre os “de cima”. O racismo precede a opressão racial, às vezes historicamente, às vezes na forma de justificação moral para a opressão que se realiza”.

Nesse ponto eu concordo que já havia racismo e, portanto, opressão racial (que são sinônimos) já que judeus não começaram a morrer na solução final.  Ou o autor esquece da inquisição Ibérica[i], das conversões em massa, dos pogroms na Rússia e leste Europeu[ii], do caso Dreyfus na França?  O que era isso se não opressão racial? Em seu texto Wilson afirma que judeus estavam “acima e eram a elite e ricos”, um erro crasso de transposição histórica, típica de um pensamento acrítico e a-histórico – afirmação que, por sinal, coincide com a própria narrativa antissemita dos nazistas. Terá esquecido, novamente, todos os assassinatos que já estavam em jogo há 2000 anos? A dúvida persiste: quem manipula conceitos?

Voltando ao inicio do texto é importante sim diferenciar racismo, preconceito racial, injuria racial e discriminação. Estes conceitos não estão há tanto tempo no campo teóricos à toa, tampouco são produzidos para fins de interesse pessoal ou interesse de algum grupo. Eles são produzidos para que não se iguale o ódio que minha avó tinha dos alemães após perder grande parte de sua família na guerra com o ódio que os alemães amparados em um estado nazista tinham dos judeus. Assim como não é possível igualar as consequências de ser chamado de branco azedo com a de ser nomeado de macaco, por indivíduos já favorecidos pela estrutura social.

Conceitos a parte, já que o autor se exime de usá-los de forma fundamentada, chama atenção o esforço intelectual e discursivo, as muitas voltas, críticas e ofensas usadas apenas pra afirmar que negros podem ser racistas e discriminar brancos. É um esforço desnecessário, e causa estranhamento, que alguém que se proponha a discutir sobre a temática racial desconheça a hegemonia que opera neste sistema: condenar ou culpabilizar os negros pelo racismo; dizer que são responsáveis pela escravidão e tráfico de pessoas humanas; dizer que a ordem de opressões que sofrem é devida a sua não aceitação – formas análogas a essa tentativa esforçosa de afirmar que negros podem ser racistas – não é novidades alguma, nem precisa de defesa. Quem está seriamente implicado com o campo das relações raciais se compromete com o fim disso, não com sua manutenção.  Se como o autor coloca, o argumento de que discriminar uma pessoa branca por ser branca não é racismo tem intenções particularistas, vale questionar: qual a intenção do autor em pretender afirmar tão veementemente que negros podem ser racistas?

Por fim, o título do texto de Wilson inicia com a palavra retórica, que significa no dicionário Aurélio como a arte da eloquência, a arte de bem argumentar; arte da palavra muitas vezes usada com fins duvidáveis. Mais uma vez pergunto, quem é que faz retórica?

[i] HERCULANO, Alexandre. História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal. Lisboa, 1854-59

[ii] Para saber um mínimo sobre pogroms https://www.youtube.com/watch?v=Aa4_y-QleUw




Lia Vainer Schucman é doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (2012) com estagio de Doutoramento no Centro de Novos Estudos Raciais na Universidade da Califórnia, Santa Barbara. Em 2014 publicou o livro Entre o Encardido o Branco e o Branquissimo: Branquitude Hierarquia e Poder na Cidade de São Paulo, fruto de sua tese. Realizou sua pesquisa de pós-doutoramento pela USP/FAPESP e como resultado irá lançar em 2018 seu novo livro: Familias Interraciais: Tensões entre cor e amor (EDUFBA).
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