Foto: Sérgio Vignes.

Ana Terra Vignes recorta as dores das violências machistas no Projeto Ecoa

Postado em 11/05/2022, 11:00

Exposição virtual reúne obras com relatos reais de mulheres que sofreram violência psicológica

A artista plástica Ana Terra Vignes é a criadora do Projeto Ecoa – Recortando a Dor, exposição virtual que faz provocações ao público por meio do compilado de agressões verbais que integram o cotidiano da maioria das mulheres. 

Em obras de papel cortadas a mão com bisturi, as cenas de assédio ganham forma, e levam o público a pensar sobre o impacto de suas falas – ou melhor, o eco da dor que causam, como define a autora do projeto.

O objetivo da exposição é possibilitar que homens e mulheres tomem consciência dos papéis que ocupam ao se deparar com frases que dizem ou escutam com naturalidade. O caminho proposto é o de cura: seja para a mulher que se reconheça vítima de violência psicológica e possa trabalhar suas feridas abertas, ou para o homem que se reconheça agressor e busque a mudança de ações. 

Camada por camada, com cortes precisos, as peças do Projeto Ecoa tomaram materialidade. As cinco obras apresentam temas como a opressão religiosa sofrida por mulheres dentro do matrimônio, as farpas do egocentrismo masculino, o enfrentamento da solidão, o peso da maternidade e a imposição dos padrões de beleza sobre os corpos. 

“O papel simboliza a pele, o bisturi recorta dores e relatos de mulheres que sofreram gaslighting e são vítimas de assédio moral dentro de suas próprias casas e famílias. O resultado são obras de arte que remetem à conscientização e cura”, explica a artista.

As dores que ecoam e ressurgem de tempos em tempos foram o ponto de partida para o projeto, quando Ana se viu refletindo diversas vezes sobre as agressões vividas em um relacionamento amoroso. Foram cinco anos de pesquisa, escuta e reflexão sobre histórias de assédio.

“Foi um processo inconsciente no começo. Eu não tinha uma materialidade pro projeto. Algumas coisas que eu lembrava dos meus relacionamentos, das minhas vivências, me incomodavam muito, sempre voltar à tona, sempre lembrar. Eu também não sabia o que fazer com isso.”

Durante o período de isolamento social, após fechar a galeria da qual era sócia, passou a dedicar mais tempo à ideia. Refletindo sobre suas próprias dores, começou a observar os relatos de mulheres ao seu redor. Coletando falas ditas por suas amigas e encontradas em relatos na internet, Ana se deparou com 300 frases que representam, em conjunto, uma série de violências enfrentadas ao ser mulher. 

“Eu comecei a fazer uma separação por blocos temáticos, porque as frases são muito parecidas, elas têm um perfil da violência. Nesse momento, eu me dei conta da possibilidade de materializar em imagem. Ali eu comecei a fazer associações estéticas junto com as frases”.

Ana Terra produzindo as obras do Projeto Ecoa
Foto: Sérgio Vignes.

O uso do bisturi surgiu naturalmente: Ana possui experiência com a ferramenta, ao trabalhar com a restauração de pinturas originais em museus e prédios históricos. Além do trabalho com edificações, ela também é formada em moda e atua com produção de joias. 

Ana Terra produzindo as obras do Projeto Ecoa
Foto: Sérgio Vignes.

O projeto Ecoa foi financiado pelo Edital Aldir Blanc 2021, executado com recursos do Governo Federal e Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural, por meio da Fundação Catarinense da Cultura. As obras estão disponíveis, por tempo indeterminado, em uma exposição virtual gratuita. As frases de cada bloco temático acompanham as fotos das obras, em áudios gravados por mulheres de todo o país.

No mês de maio, o Projeto Ecoa também marca presença em Joinville. A exposição presencial ocorrerá para o público da Casa-abrigo Viva Rosa, projeto socioeducativo da doutoranda M. Cecília Takayama Koerich, do Laboratório de Estudos de Gênero e História da Universidade Federal de Santa Catarina. Para preservar a segurança das mulheres abrigadas na casa, já vitimadas pela violência de gênero, a exposição será fechada. 

O retorno

As obras da exposição Ecoa tem causado impacto tanto no público feminino, quanto no masculino, como comenta a autora. Para as mulheres, é um processo doloroso de reconhecimento da vitimização. 

“Depois que o projeto entrou no ar, algumas mulheres vieram me agradecer, falar o quando o projeto é necessário, no sentido de: eu precisava ver isso. Porque no fim das contas é isso: não tem mulher que não se identifique com pelo menos alguma frase que está ali. Pode não ter se dado conta, mas quando lê, tu lembra, identifica.”

Já em relação aos homens, a artista explica que a reação é diversa. Ao se deparar com as violências escancaradas, alguns resistem à reflexão, reforçando que “eu não sou essa pessoa”. Em outros casos, a tomada de consciência leva a um caminho mais flexível, porém doloroso. 

“Eu conversei com poucos homens. Mas, por exemplo, os que participaram na equipe, costumam relatar que o mais difícil é identificar as frases que já falaram”, explica Ana.

“É exatamente isso que eu quero. Essa tomada de consciência, tanto masculina quanto agressor, quanto da feminina como vítima. O projeto não funcionaria unilateralmente”.

Para Ana, o processo final da produção representou um novo desafio. O retorno dos áudios, que acompanham as peças da exposição, trouxe à tona uma série de novos relatos de assédio, além da carga emocional de ouvir as frases sendo ditas em voz alta.

“Foi o período mais difícil – mais do que cortar, ou catalogar. Eu achei que já estava internalizada com as frases, mas quando elas foram mandando os áudios, eu fiquei bem mal. Essa foi a etapa mais difícil, emocionalmente pra mim”, revela.

Para o futuro, Ana deseja que a exposição possa chegar presencialmente a mais pessoas, possibilitando que essas tenham a experiência completa: as cores, camadas, texturas e sons que compõem cada obra do projeto Ecoa. 

Ana Terra produzindo as obras do Projeto Ecoa
Foto: Sérgio Vignes.
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Estudante de Jornalismo (UFSC) dedicada à escrita de reportagens, com foco na cobertura de direitos humanos. Estagiária no Portal Catarinas, sob supervisão de Paula Guimarães.
Veja a coluna da Gabriele Oliveira