Coletivo-valente
Arte: Duda Nas

Amiga, a gente precisa conversar… [2]

Postado em 29/03/2021, 11:07

T√° me ouvindo e vendo bem?

– Perfeito.

– ūüėä

– Deixa eu te contar que t√ī querendo fazer terapia. T√ī muito triste com tudo que t√° acontecendo. Chegamos nos 300 mil mortos, √© uma trag√©dia. Lembra da Dona Dora, a minha vizinha da casa azul? Ela foi entubada ontem…

– Aquela senhora que sempre passava na frente da tua casa com dois cachorrinhos? Super simp√°tica, boa de papo. Ela era super cuidadosa, n√£o era?

– Bem essa. Fez isolamento direitinho, sempre estava de m√°scara. Pegou COVID de um familiar.

– Escuta, eu fiquei pensando na nossa √ļltima conversa. Voc√™ nem √© funcion√°ria p√ļblica, por que defende tanto estes caras? S√©rio que n√£o acha que eles ganham demais?

РSério mesmo.

– ???

– Estes dias eu assisti um v√≠deo do Vladimir Nepumuceno, depois eu te passo o link. Ele comentou que, em um estudo com 31 pa√≠ses, a OCDE* indicou uma m√©dia de 25 servidores p√ļblicos para cada 100 pessoas. No Brasil est√° m√©dia cai para 12 servidores pra cada 100 pessoas.¬†Depois ele ainda explicou que √© mentira essa hist√≥ria que a gente gasta muito com o sal√°rio dos servidores, pois esta despesa nunca ultrapassou a margem de 5% do PIB ‚Äď e isso contando as tr√™s esferas.

– h√£n!? Como assim?

– Diferente do que andam dizendo por a√≠, a m√©dia dos sal√°rios dos servidores p√ļblicos aqui no Brasil √© de R$2.900,00. Voc√™ t√° ligada que servidor p√ļblico √© a enfermeira que te atende no posto de sa√ļde, a professora da escola do teu filho, a assistente social, o fiscal da vigil√Ęncia sanit√°ria, o agr√īnomo da Epagri, o t√©cnico judici√°rio? Esses s√£o os servidores p√ļblicos.

– Sei n√£o… vem me falar em R$2.900,00. Vai dizer que um engenheiro que trabalha no setor de obras da prefeitura ganha este valor? Aposto que esta galera deve tirar uns R$40.000,00 por m√™s.

– Olha, R$2.900,00 √© a m√©dia. Tem gente que ganha mais e tem gente que ganha menos. Um t√©cnico de n√≠vel superior vai ganhar mais e pode ter uma gratifica√ß√£o; e isso √© justo. Mas estes valores s√£o calculados de acordo com o piso salarial da categoria, o que tamb√©m vale para o setor privado e est√° muito longe do teto constitucional. Ah, sem esquecer que os cargos que costumam ter m√©dias de sal√°rio acima do teto (ju√≠zes, promotores, militares e pol√≠ticos) n√£o ser√£o atingidas pela reforma. T√° vendo por que eu digo que as a√ß√Ķes deste governo s√≥ refor√ßam as posi√ß√Ķes de poder?

РMas este negócio de a pessoa nunca poder ser demitida? Isso é bem absurdo!

– Isso se chama estabilidade. Mas vou te dizendo que qualquer servidor pode ser exonerado se n√£o cumprir com as suas tarefas. Por outro lado, a estabilidade serve para que o servidor tenha seguran√ßa para exercer suas fun√ß√Ķes sem se deixar corromper ou ficar a merc√™ de ass√©dios e chantagens. Pensa, √© muito mais dif√≠cil coagir um servidor p√ļblico de carreira a participar de rachadinhas ou a favorecer pessoas. Ou voc√™ acha que eu estou errada?

Espera, a proposta da reforma troca o concurso p√ļblico pela indica√ß√£o pol√≠tica?

Bingo. Cabide de emprego no radar. Na pr√°tica, n√≥s vamos voltar √†quela √©poca quando quem ficava com os cargos p√ļblicos eram os parentes, tios, primos, amigos, cachorros das pessoas que tinham o poder nas m√£os. Este povo adora falar em meritocracia, mas s√≥ pros outros. Pra eles o que vale √© o direito heredit√°rio de se manter no topo, por cima da ‚Äúcarne seca‚ÄĚ.

– Talvez a gente esteja julgando um pouco mal os servidores p√ļblicos. Pensando melhor, mexer nas condi√ß√Ķes de trabalho dos servidores p√ļblicos ajuda a acabar com os direitos dos trabalhadores do setor privado. Vai ser comparar o ruim com o pior.

– √Č isso; mas n√£o s√≥. Al√©m de piorar as condi√ß√Ķes de trabalho pra todo mundo, a destrui√ß√£o dos servi√ßos vai ser muito ruim pra popula√ß√£o. Pensa o que acontece quando pol√≠ticas de educa√ß√£o, sa√ļde, assist√™ncia social, saneamento b√°sico e habita√ß√£o s√£o transferidas pro setor privado. Elas v√£o deixar de atender o povo pra poder gerar lucro.

РMas você não acha que estes serviços poderiam ficar mais rápidos, mais acessíveis? Talvez ficassem melhores?

– Melhores pra quem amiga? S√≥ pra quem puder pagar. O servi√ßo de telefonia ficou melhor? A distribui√ß√£o de energia el√©trica no AMAP√Ā ficou melhor? Nesta √©poca de pandemia em que os hospitais est√£o todos cheios quem tem condi√ß√£o de pagar UTI particular? Com a pobreza aumentando e os sal√°rios caindo que tipo de educa√ß√£o as pessoas v√£o conseguir ofertar aos filhos?  Sem pol√≠tica de habita√ß√£o como a gente vai conseguir ter uma casa pr√≥pria? Voc√™ n√£o consegue perceber que estamos indo pro precip√≠cio?

– Pensando assim, eu at√© consigo pensar em alguns servi√ßos p√ļblicos que tenho utilizado bastante nestes anos. Na verdade posso te fazer uma lista. Fiquei com vergonha agora; ando super alienada.

– Olha, eu at√© gostaria de ouvir a tua lista, mas meu expediente come√ßa em uma hora e antes eu tenho que estender uma roupa da m√°quina. O importante √© que o assunto fica na nossa pauta… rs.

– Siiiimm, a conversa continua.  Brigada por ter paci√™ncia comigo; por me ouvir, me explicar as coisas com calma. N√£o desiste de mim, n√£o, rs.

– Vamos aprendendo juntas. Tamb√©m vou fazer minha listinha de servi√ßos p√ļblicos para a pr√≥xima conversa. Ah, e continuem se cuidando. N√£o vai cair em papo negacionista, por favor!

– Nada de negacionismo, j√° superei esta fase. Agora, t√ī indo pra janela bater panela e gritar FORA GENOCIDA.


* Organiza√ß√£o para Coopera√ß√£o e Desenvolvimento Econ√īmico

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O coletivo Valente nasceu em 2018 da vontade de um grupo de trabalhadoras do judiciário catarinense de Santa Catarina de unirem esforços não apenas em torno do debate das nossas especificidades, mas também da luta por vida digna e livre para todas as mulheres, a partir de uma perspectiva emancipacionista, antirracista e classista.
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