A disputa eleitoral de 2026 foi marcada por episódios de violência política, principalmente durante o segundo turno para a presidência da República. Os ataques associados à extrema direita se intensificaram após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em Santa Catarina, um mapeamento realizado para esta reportagem identificou pelo menos cinco casos relacionados a agressões e boicotes a estabelecimentos que se posicionaram favoráveis a Lula, incluindo um caso grave de atropelamento de um motociclista. Em ação enviada ao Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), a deputada federal Ana Paula Lima (PT-SC) recolheu mais de 100 denúncias de estabelecimentos boicotados por grupos extremistas.

O estado está entre os cinco com maior número de ocorrências de violência política no país, ao lado de Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. Segundo levantamento inicial divulgado pelo governo federal na quarta-feira (28), foram identificados 45 casos de violência e atentados políticos, com 47 vítimas, incluindo dez homicídios, três deles de pessoas indígenas.

Os dados foram apresentados em meio ao anúncio de ações de enfrentamento à violência política, articuladas pela Secretaria-Geral da Presidência da República (SG/PR) e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

Esses ataques, longe de serem casos isolados, revelam algo muito mais profundo e preocupante sobre um tipo de visão de mundo que ganhou força nos últimos anos, que é a dificuldade de determinados segmentos da sociedade, principalmente aqueles alinhados à ideologia da extrema direita, de reconhecer a legitimidade da diferença. 

O que  significa, segundo a advogada e pesquisadora em gênero e representatividade feminina na política, Daiana Allessi, negar um dos grandes fundamentos da democracia.

“O problema surge quando o adversário político deixa de ser reconhecido como alguém que pensa de maneira diferente e passa a ser tratado como um inimigo que precisa ser eliminado, silenciado ou punido”, afirma.

A ascensão e a consolidação de discursos da extrema direita no Brasil contribuíram significativamente para a normalização dessa lógica.

“Não se trata apenas de posições políticas conservadoras, que fazem parte do pluralismo democrático, mas de uma retórica autoritária que frequentemente transforma a intolerância em virtude, desqualifica instituições democráticas e apresenta a violência como uma resposta legítima àqueles que identifica como inimigos”, destaca a entrevistada.

PM atropela motociclista durante comemoração da vitória presidencial

Em um dos casos mais emblemáticos registrados em Santa Catarina, na noite de 25 de outubro, domingo de eleições do segundo turno, Pedro Henrique Ely, 24 anos, foi atingido por uma viatura da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) enquanto pilotava uma motocicleta no bairro Sambaqui, em Florianópolis. 

O laudo pericial de corpo de delito, no qual a reportagem teve acesso, mostra que Pedro teve traumatismo craniano, fratura exposta na perna esquerda, trauma no punho direito e foi submetido a uma cirurgia, em decorrência de uma “queda de moto”.

A advogada de Pedro Henrique Ely, Sandra Annuseck, diz que vai pedir a impugnação do documento. 

“Ele foi alvo de um atropelamento, uma violência por parte da autoridade policial, enquanto comemorava o resultado das eleições. O perito parte do pressuposto de que foi uma queda, mas não foi uma queda, ele foi atingido de maneira violenta pela viatura policial”, diz a advogada. 

A versão da PMSC apresentada na decisão judicial expedida em 26 de outubro afirma que Pedro “promovia acelerações abruptas e desnecessárias do motor, circunstância que motivou a tentativa de abordagem”. Ele teria ainda se recusado a fazer o teste de etilômetro, mesmo, segundo a polícia, apresentando sinais de alterações psicomotoras.

O motociclista foi preso em flagrante por embriaguez ao volante e desobediência, mas precisou ser internado por conta dos ferimentos, por isso, não houve audiência de custódia. Após a manifestação do MPSC, a prisão de Pedro foi convertida em preventiva, mas não foi mantida pelo Tribunal de Justiça (TJSC). 

Na decisão, o Judiciário considerou que os crimes atribuídos ao motociclista não envolveram  “violência ou grave ameaça à pessoa”. Após a liberação hospitalar, a vítima seguiu para se recuperar em casa sob os cuidados da família.

Em nota enviada ao Catarinas, a Polícia Militar Rodoviária (PMRv-SC) afirmou que retornava de um atendimento quando viu “diversos motociclistas realizando manobras perigosas e conduzindo os veículos de forma incompatível com a segurança viária”. Segundo a corporação, os policiais tentaram abordar um dos condutores e, durante a intervenção, “ocorreu uma colisão de uma das motocicletas com a viatura policial”.

Sobre o vídeo divulgado nas redes sociais que mostra a viatura atingindo a motocicleta de Pedro, a nota diz que “serão adotadas as medidas administrativas cabíveis, com o encaminhamento dos fatos à Corregedoria do Comando de Polícia Militar Rodoviária, para apuração das circunstâncias”.

No dia seguinte ao atropelamento, após a repercussão do caso, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, se manifestou pedindo o afastamento e a prisão do policial responsável pelo atropelamento.

Mulheres viram alvo de eleitores bolsonaristas

Em Chapecó, região Oeste de Santa Catarina, um grupo de oito mulheres LGBTQIAPN+ foi atacado por eleitores bolsonaristas também na noite de 25 de outubro. 

A vendedora Beatris Paes, 32 anos, foi uma das vítimas. Ela conta que estava comemorando na rua com as amigas quando as agressões e as ameaças de morte começaram. 

“Depois que o Lula ganhou, eles apareceram de repente falando que não deveríamos ficar na rua, e começou uma chuva de ofensas e ameaças, até que nos agrediram. Eles foram embora e voltaram três vezes para nos bater. Na última vez, falaram que estavam armados”. 

Ao Catarinas, a vendedora informou que ela e outras vítimas estão reunindo todas as pessoas que também foram agredidas no episódio para registrar uma denúncia coletiva na delegacia.

A reportagem tentou contato com cinco pessoas da mesma família apontadas por Beatris como parte dos responsáveis pelas agressões. Pelo perfil de uma empresa administrada pela família, eles afirmaram que não participaram dos atos. 

“Não agredimos ninguém, fomos apenas separar. Foi uma briga generalizada, só fomos separar pois tínhamos conhecidos no meio e acabamos passando por agressores”, afirmaram ao Catarinas.

A vítima informou ainda que uma viatura da PMSC estava no local. “Eles presenciaram tudo e não fizeram nada, entraram no carro e foram embora. A gente gritou, chamou, porém, foram negligentes”. Sobre essa alegação, tentamos contato com a PMSC, mas não tivemos retorno até a última atualização desta reportagem.

“Ficamos traumatizadas, ninguém queria briga e nem imaginamos que isso fosse acontecer. Uma das minhas amigas levou um mata-leão e um soco de um deles. Nunca passamos por isso antes”, completa Beatris.

Perseguição a negócios locais

Em Garopaba, o restaurante e espaço cultural Kumaras foi alvo de ataques após ser incluído em uma lista de boicotes a empreendimentos que se posicionaram favoráveis ao candidato da esquerda. 

O local, certificado pelo Ministério como um ponto de cultura, existe há 14 anos, promovendo eventos, oficinas e impulsionando a cena cultural local. O casal de proprietárias, Thais Ribeiro e Larissa Notari, divulgou um comunicado oficial falando sobre as ofensas direcionadas ao espaço e também os ataques contra a orientação sexual delas, veiculados em um grupo da extrema direita nas redes sociais.

“Citam que o Kumaras seria um prostíbulo, que ‘esse tipo de pessoa como a gente deveria ser metralhada’. É muito triste que um espaço criado para acolher as pessoas seja alvo de muito ódio. Ficamos muito tristes de perceber que nossa orientação sexual foi usada como forma de ataque ao nosso estabelecimento”, diz o casal no vídeo.

Ao Catarinas, Larissa relembrou episódios semelhantes em eleições anteriores. 

“Já fomos citadas em listas de boicotes nas eleições passadas, perdemos muitos clientes, mas relevamos. Dessa vez, soubemos desses grupos bolsonaristas antes mesmo das eleições, com mensagens sobre ataques, discursos de ódio e de cunho homofóbico. Nunca fomos de nos expor, mas quando descobrimos tudo isso, gravamos esse vídeo mostrando a situação que estamos passando”, diz a empresária.

Larissa conta ainda que recebeu áudios que circulavam nas redes sociais contendo ameaças de ataques a rojões no espaço. Durante a apuração dos votos no segundo turno, o restaurante foi atingido por rojões disparados de um carro que passava na frente do estabelecimento, como registrado nas imagens gravadas por câmeras de segurança. Nenhum responsável foi identificado até o momento. 

“Para mim, o pior de tudo são pessoas influentes na cidade pregando o ódio, acabamos sendo hostilizadas por isso. São as atitudes dessas pessoas que queremos combater, porque elas não atacam de forma agressiva, mas incitam a violência”.

Para a advogada Daiana Allessi existe uma convergência entre o autoritarismo político e a misoginia, ampliando o impacto além das vítimas diretas.

“Quando uma mulher é agredida, ameaçada ou humilhada por expressar uma posição política, a mensagem transmitida às outras é a de que participar do debate público pode ter um custo pessoal grande. A violência funciona como um mecanismo de intimidação coletiva”.

De acordo com ela, uma sociedade na qual as mulheres precisam avaliar os riscos à própria integridade antes de manifestar suas convicções políticas não está apenas diante de episódios isolados de intolerância, mas de um problema estrutural que compromete a qualidade da democracia. 

“Para algumas mulheres, o exercício de um direito político fundamental ainda pode significar o enfrentamento de relações de dominação dentro da própria família”, assinala.

Mais de 100 denúncias de boicotes a estabelecimentos foram registradas

A deputada federal Ana Paula Lima (PT-SC) acionou o MPSC para investigar as publicações que passaram a circular após o segundo turno das eleições com listas de boicote a comerciantes locais. De acordo com o levantamento da equipe parlamentar, em uma semana, foram mais de 100 denúncias recebidas relacionadas às listas.

Em Tubarão, região Sul de Santa Catarina, o restaurante do empresário Hélio Domingos foi um dos locais apontados nas listas dos grupos extremistas. Em um vídeo publicado no perfil da empresa, Hélio cita que o restaurante, em funcionamento há 33 anos, está sendo hostilizado por conta do posicionamento político. 

“Qualquer pessoa que entrar aqui será bem-vindo, de qualquer posicionamento. Não somos extremistas só porque o outro vota em uma coisa que eu não gosto, eu acho isso um absurdo, uma falta de respeito e de empatia com as pessoas”, afirma Domingos.

O delivery de lanches veganos Chars, em Florianópolis, também foi alvo de ataques. No perfil da empresa no Instagram, eles afirmam que, além da perda de seguidores por razões políticas, receberam diversos ataques e os perfis da empresa nas redes sociais foram banidos. 

“Isso acontece justamente em um dos momentos mais difíceis da nossa história, quando já estamos lutando para manter a Chars de pé, agora, além de tudo, precisamos reconstruir também nossa presença nas redes”.

Não é só polarização política, mas manifestação da masculinidade 

Para a advogada Daiana Allessi, é necessário compreender esses casos além da polarização eleitoral, mas como uma manifestação da concepção de masculinidade construída ao longo da história que reforça a ideia de autoridade, domínio e controle, especialmente sobre as mulheres. 

“Nessa lógica, a virilidade se confunde com a capacidade de impor a própria vontade e a violência passa a ser utilizada como instrumento de afirmação de poder”. 

Esses comportamentos não surgem espontaneamente durante uma eleição, mas encontram apoio em estruturas sociais que, historicamente, associaram o masculino à ocupação do espaço público. Já para as mulheres, são reservadas  posições de subordinação e silenciamento.

“Quando uma mulher manifesta publicamente sua posição política, sobretudo quando contraria as convicções de homens com os quais convive, ela não está apenas expressando uma preferência eleitoral. Está também reivindicando sua condição de sujeito político autônomo, capaz de pensar, decidir e participar da construção dos rumos da sociedade”, destaca Daiana Allessi.

A agressão, a ameaça e a intimidação funcionam, nesses casos, como tentativas de restabelecer uma hierarquia que se percebe ameaçada e que não se restringe aos espaços formais de poder.

“Elas são produzidas e reproduzidas nas relações cotidianas, na família, na divisão do trabalho e nas expectativas sociais sobre o comportamento feminino. A violência política contra as mulheres não começa necessariamente nas instituições ou nas campanhas eleitorais”, pontua Daiana.

A advogada explica ainda que o que vemos nas manifestações mais extremas dessa violência é a tentativa de reafirmar, pela força, uma ordem social em que os homens se consideram autorizados a determinar os limites da liberdade feminina.

Como procurar ajuda e registrar denúncias:

  • Ministério Público do Trabalho (MPT) – Para assédio no ambiente de trabalho, ameaça de demissão e constrangimento por posicionamento político: denuncie no site do órgão.
  • Tribunal Superior do Trabalho (TST) – Para assédio no ambiente de trabalho, ameaça de demissão e constrangimento por posicionamento político: denuncie no site do órgão.
  • Disque 100 – Canal para denúncias anônimas ou identificadas de violações de direitos humanos
  • AtendeLibras – Canal exclusivo para denúncias feitas por pessoas surdas ou com deficiência auditiva
  • Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público –

WhatsApp: (61) 3315-9476

E-mail: [email protected]

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  • Laura-Machado

    Jornalista pela Universidade Federal do Amapá (Unifap), pós-graduada em jornalismo investigativo pela Universidade Anhem...

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