Uma geração de mulheres construiu o feminismo no Brasil, na América Latina e no mundo como uma luta por autonomia, feita por e com mulheres. Essa luta trouxe muitos ganhos, mas também foi motivo de perseguição e violência contra lideranças que ousaram disputar outro futuro para as mulheres. 

Foi essa luta, sustentada nas ruas, nos conselhos e nos tribunais, que transformou em lei pautas antes invisíveis: do voto feminino ao direito ao trabalho, do divórcio à Lei Maria da Penha. Até o direito de decidir sobre o próprio corpo nós precisamos diariamente conquistar. Apenas em 2022 a lei brasileira deixou de exigir que a mulher casada tivesse autorização do marido para fazer uma laqueadura.

Todas essas conquistas são respostas. Na última década, o Ni Una Menos levou milhões às ruas contra o feminicídio, e a Marea Verde conquistou o aborto legal na Argentina, abrindo caminho para decisões semelhantes no México e na Colômbia. No mesmo intervalo, a extrema direita chegou ao poder elegendo a “ideologia de gênero” como inimigo. 

No Brasil de Bolsonaro, as políticas para mulheres foram entregues a um ministério “da Família”, comandado por uma pastora que atua publicamente contra os direitos conquistados de mulheres e meninas.

Na Argentina, Milei dissolveu o Ministério das Mulheres e anunciou que retiraria o feminicídio do Código Penal. Em El Salvador, Bukele baniu a “ideologia de gênero” das escolas.

No Chile, Kast assumiu em março, dias depois de cerca de meio milhão de pessoas marcharem no 8M, cortou programas de educação sexual e entregou o Ministério da Mulher a uma evangélica com posições conservadoras sobre direitos reprodutivos.

Não é coincidência. A extrema direita cresce por muitas razões, mas é contra o avanço das mulheres que encontram sua linguagem comum. É preciso reconhecer que a onda fascista cresce também frente ao avanço da onda feminista, e essa reação tem duas faces.

Uma ataca de frente: cortando orçamentos, perseguindo ativistas, apagando palavras dos currículos. A outra é mais sutil e, por isso, mais difícil de nomear: porque apropria-se do capital político que o feminismo acumulou.

Há hoje mulheres conservadoras que surfam na onda que o feminismo levantou. Apresentam-se como prova de que as mulheres chegaram ao poder, vestem lilás na campanha, falam “como mãe e mulher”. Uma vez no cargo, governam contra a autonomia das mulheres ou se aliam a quem a ataca. Em Pernambuco, essa onda tem nome.

“Faz sem ela saber”

Em 2025, em visita ao Hospital Público Regional Dom Moura, em Garanhuns, a governadora Raquel Lyra (PSD) ouviu de uma funcionária o relato sobre uma gestante com sete filhos. Respondeu, em vídeo divulgado pelo Metrópoles no último dia 20: “Aí tem que fazer laqueadura, visse? A gente bota na fila da laqueadura”. E, em seguida: “Mas faz sem ela saber”.

Esterilizar uma mulher sem seu consentimento expresso e informado é crime pela Lei do Planejamento Familiar, com pena de dois a oito anos de reclusão. 

A governadora pediu desculpas “como mãe e mulher” e chamou a fala de “equivocada”. Na mesma nota, porém, tratou a divulgação como tentativa de “desviar o foco do que realmente importa”. Em ato de campanha, resumiu: “Sou a mulher mais julgada de Pernambuco e a que mais entrega cuidado com a mulher”.

Sabemos que não foi uma frase infeliz, foi a reencenação de uma política que este estado conhece. Nos anos 1990, a CPMI presidida por Benedita da Silva constatou que 45% das brasileiras em idade fértil estavam esterilizadas, muitas sem informação, logo após cesarianas, em troca de votos. O relatório registrou índices maiores no Nordeste e nas regiões de maioria negra. 

Décadas depois, essa lógica de controle sobre a reprodução das mulheres se repete. Em 2018, por exemplo, Janaína Quirino, mulher pobre do interior paulista, foi esterilizada por ordem judicial. A decisão sobre quem pode ter filhos sempre recaiu sobre corpos pobres e negros.

O que rende foto foi entregue, o que garante autonomia e proteção não

A governadora tem, nestas eleições, recorrido ao gênero mais que nunca, mas pouco respondeu ao movimento feminista, que, em quase quatro anos de governo, jamais foi recebido no Palacio. Foram muitos atos, manifestações, pedidos do movimento de mulheres para dar visibilidade aos problemas enfrentados em Pernambuco. Todos ficaram sem resposta da governadora que diz cuidar das mulheres. 

O plano de governo de 2022, que se apresentava como o das “primeiras mulheres eleitas”, não menciona uma única vez as expressões “planejamento familiar” ou “racismo”. Os Relatórios de Ação do Governo de 2024 e 2025 também não. 

O plano prometia cinco grandes maternidades no interior, para que nenhuma mãe precisasse percorrer centenas de quilômetros para parir. No fim de 2025, o relatório oficial listava quatro, todas com obras iniciadas no segundo semestre daquele ano.

A de Garanhuns, a cidade do vídeo, estava com 7,62% de execução. Prometia 60 mil vagas em creches, mas até dezembro de 2025 apenas uma creche havia sido entregue e a meta foi redesenhada para incluir vagas de pré-escola. 

Prometia também ampliar os abrigos para mulheres ameaçadas de morte. O que se registra, porém, é a reforma das quatro casas já existentes e uma primeira casa de passagem, inaugurada em novembro de 2025.

É um padrão: o que rende fotografia para a campanha foi entregue. A infraestrutura que garante autonomia e proteção ficou para o ano da eleição, ou para depois, já que as mulheres pernambucanas não encontram delegacias abertas 24 horas no estado há muito tempo. 

Duas faces da mesma moeda

Não basta ser mulher para representar as mulheres. É preciso estar do lado das demandas que atravessam as nossas vidas. E é preciso não fortalecer quem nos ataca.

Em 2020, uma menina de 10 anos, grávida após ser estuprada, veio do Espírito Santo ao Recife para realizar no Cisam, maternidade pública estadual vinculada à Universidade de Pernambuco (UPE), o aborto que a lei lhe garantia. Na porta do hospital, parlamentares fundamentalistas tentaram impedir o procedimento. Entre eles estava a então deputada estadual Clarissa Tércio. 

Hoje deputada federal pelo PP, ela votou pelo decreto legislativo que derrubou a Resolução 258 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) que facilitava o acesso de meninas estupradas ao aborto legal. Em maio deste ano, o PP oficializou apoio à reeleição de Raquel Lyra, e Clarissa passou a frequentar com destaque a agenda da governadora, a quem garantiu o apoio dos evangélicos.

É aqui que as duas faces da reação se encontram. A maternidade é tratada como dever para a menina estuprada e como excesso a ser cortado para a mulher pobre de sete filhos.

As duas posições partem da mesma convicção: a de que o corpo das mulheres pertence a quem governa, e não a nós mesmas. O movimento negro feminista deu nome ao que se opõe a essa dupla régua: justiça reprodutiva. O direito de não ter filhos, o de ter os filhos que se deseja e o de criá-los com dignidade.

Tudo isso acontece num estado onde uma mulher é assassinada por ser mulher a cada quatro dias. Pernambuco registrou 88 feminicídios em 2025, o maior número da série do próprio governo, no mesmo ano em que as mortes violentas em geral caíram.

O relatório oficial mostra que a taxa de homicídios de mulheres negras no estado (5,7 por 100 mil) é mais que o dobro da de mulheres não negras (2,4). A segurança melhorou, mas não para as mulheres. Para as mulheres negras, menos ainda. Diante disso, fazer o mínimo não é neutralidade, é escolha.

Continuamos feministas!

Também seguimos atentas ao uso da agenda das mulheres pelo principal adversário da governadora, João Campos (PSB). Sua chapa é encabeçada por dois homens, e tanto o PSB quanto o Republicanos, partido de seu vice, deram votos pernambucanos ao mesmo decreto que dificultou o aborto legal de meninas. 

Não se muda a vida das mulheres mantendo o poder nas mãos de sempre. Entre a disputa de Raquel e João, nós continuamos feministas! 

Queremos mulheres e homens, em governos e parlamentos, comprometidos com uma vida livre de violências e com a autonomia financeira, política, sexual e reprodutiva de todas as mulheres e pessoas que gestam.

O movimento feminista segue formando lideranças que atuam para além da representatividade: mulheres que fazem da política um instrumento para mudar a vida da população.

Em 1908, as sufragistas escolheram o roxo para marchar pelo voto feminino. Era a cor da dignidade. Mais de um século depois, segue sendo a cor da luta das mulheres. Não pode virar figurino de quem chegou ao poder surfando na onda feminista, mas remando sempre contra o que ela fez e faz pelas mulheres.

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  • Ingrid-Farias

    Ativista Negra Feminista, especialista em democracia e justiça de gênero e raça na América Latina.

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