Muitos dos termos e coordenadas dos debates sobre feminismo, gênero e diversidade no Brasil mudaram nos últimos dez anos, mas os tópicos continuam gerando reações amplas na política. E uma mesma palavra, conceito ou ideia podem operar de formas muito diferentes dependendo do contexto em que aparecem.

A leitora certamente reparou que, em 2026, antes mesmo do início oficial do período eleitoral, praticamente todos os partidos já vinham apresentando como pauta o enfrentamento à violência de gênero e a ampliação da presença de mulheres na política, especialmente nos anúncios de TV aberta.

O tópico constou também na maioria das entrevistas e sabatinas que acompanhei até agora, muito por iniciativa dos entrevistadores. E quase todos os planos de governo dos candidatos à Presidência dizem alguma coisa sobre mulheres.

As candidaturas presidenciais de 2026 são majoritariamente de direita, com menor presença do centro. E esse atual consenso não era senso comum dez anos atrás, nem na esquerda. Era “papo de feminista”. O fato deste consenso sobre gênero aparecer como prioridade neste cenário evidencia a força e o impacto das lutas feministas no tecido social.

Revela também o apagamento do feminismo da sua própria história, afinal, se não fosse o trabalho das feministas, gênero mal seria uma pauta na política.

A ascensão da extrema direita dos últimos anos pode ser lida como reação conservadora machista e racista a esse e outros parcos avanços que tivemos em termos de diversidade.

Pode também ser vista como esforço orquestrado para restaurar uma ordem desigual e instável – que reacionários misóginos e supremacistas insistem em apresentar como natural e divina.

Em 2016 – também ano da eleição de Donald Trump para seu primeiro mandato nos EUA – escrevi que gênero foi central a todos os debates políticos do período, e chave analítica para entender os retrocessos que se apresentavam.

Dez anos depois, esta previsão se concretizou e, nestas eleições presidenciais, é possível ver gênero sendo conceituado em quase todas as propostas de governo – ainda que de forma bastante distinta.

Nos planos, o tema transita em uma escala que vai de ‘elemento estruturante da sociedade’ a ‘pauta pontual’ ou ausente. Em síntese, a abordagem das candidaturas pode ser lida da seguinte forma:

Crédito: Joanna Burigo.

Quatro anos atrás, em 2022, estávamos envolvidas em campanhas como Elas Sim!, Meu Voto Será Feminista, Mulheres Negras Decidem, Agenda Marielle Franco e Mais Mulheres Na Política (TSE), cujo objetivo principal era, e ainda é, incentivar o eleitorado a votar por renovação do Congresso injetando diversidade no legislativo, fomentando assim mais inclusão na política.

Em 2018, passamos um trabalhão para explicar – especialmente para homens do campo progressista – que o #EleNão organizou atos contrários à eleição de Jair Bolsonaro para presidente, mas também serviu de ponto de inflexão e de convergência para outras movimentações políticas de mulheres.

Essa é mais uma previsão que ecoa em 2026, como se vê no destaque que as questões de gênero vêm recebendo desde então, especialmente em períodos eleitorais. 

O processo que culminou no impeachment de Dilma Rousseff em 2016 deixou muito aparente a misoginia arraigada na nossa cultura – quem lembra da histeria acerca da palavra “presidenta”, apesar de sua validade morfológica verificável em robusta documentação histórica e lexicográfica? 

Em 2024, Donald Trump voltou à Casa Branca derrotando Kamala Harris numa eleição em que gênero e raça também pesaram sobre a rejeição à primeira mulher negra a disputar a Presidência dos EUA por um grande partido.

Não levanto essa misoginia e racismo em relação a críticas e reservas a Harris ou Rousseff como figuras políticas — mas, sim, em relação à dificuldade que muita gente demonstrou ter, e ainda tem, de lidar com mulheres pleiteando e ocupando lugares de poder historicamente construídos por e para homens cis brancos.

Nestes dez anos, nossa dedicação em incentivar mais mulheres nos espaços de poder e decisão não esmoreceu. Há anos organizamos e participamos de campanhas e projetos com esses fins. Nosso feminismo sempre foi político e sustenta complexidade, ambiguidades e contradições. 

Sabemos que apresentar propostas “para mulheres” não significa adotar uma perspectiva de igualdade de gênero.

Ainda que a maioria das candidaturas apresentem políticas específicas, os diagnósticos das origens das desigualdades e, consequentemente, o tipo de intervenções propostas, diferem imensamente. A UNICEF analisou como os cinco principais candidatos abordam o tema da infância e juventude, por exemplo, e concluiu que a maioria não prioriza o mais importante: a prevenção.

Feminismo e gênero são campos de tensões internas, e continua fundamental explicar e delimitar o que eles são ou não – assim como também importa acompanhar as formas com que os discursos sobre gênero e feminismo se movem, vêm transformando a sociedade e são apropriados, ressignificados, ou, pior (como alguns dos programas de governo de 2026 evidenciam): esvaziados. 

Pensar gênero e feminismo não é produzir respostas estáticas, mas permanecer antenada ao mundo, afiando a observação e a escuta atenta, mantendo a disposição para rever certezas.  É também registrar as instâncias em que as origens feministas de uma mudança positiva são suprimidas das histórias que o feminismo ajudou a construir.

É fundamental que nossa atenção esteja voltada às condições de circulação dos discursos em prol da igualdade de gênero, para lembrar quem os colocou em pauta. 

Interessa o que está sendo dito, sim; mas importa mais ainda entender como as coisas são ditas, onde, por quem, para quem, e com quais intenções e impactos. Em ano eleitoral é importante salientar que nosso voto ajuda a definir quem vai articular agendas – pró ou anti- direitos. Afinal,  no cenário político global de recrudescimento patriarcal que estamos vivendo, o que está em jogo são os nossos direitos.

Defender pauta qualquer um pode. Mas, se essa inclinação discursiva em prol da participação das mulheres não for revertida em políticas públicas pelos representantes eleitos na cola dessas promessas, terá sido mera retórica eleitoreira, e pior: roubada do feminismo, desvalorizando nossa contribuição. 

Concretizar a realidade dos discursos de inclusão requer que candidaturas e partidos confrontem mecanismos e estruturas de exclusão dentro da própria política institucional, não apenas para mulheres, mas para pessoas pretas, indígenas, LGBTQIAPN+, com deficiência. Quem vem fazendo isso muito bem são parlamentares feministas – e eu posso provar. Mas isso é assunto para outro texto.

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  • Joanna Burigo

    Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC e autora de "Patriarcado Gênero Feminismo" (Editora Zouk, 2022). Formada pela PU...

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