O futebol brasileiro vai muito além da disputa por títulos e da mobilização das torcidas. Dentro e fora de campo, o esporte também tem sido analisado como um espaço que reproduz padrões tóxicos de masculinidade e estruturas de opressão. Só nos primeiros meses da temporada 2026, tanto os campeonatos estaduais quanto o Campeonato Brasileiro, já registraram episódios de machismo, assédio e violência envolvendo torcedores, atletas e profissionais da área. 

Os casos são recorrentes e expõem um ambiente marcado por desigualdade de gênero, levantando questionamentos sobre a segurança e o direito das mulheres de ocupar os estádios. É nesse contexto que especialistas chamam atenção para o caráter sistêmico do problema. Para a socióloga do esporte Carolina Moraes, a hegemonia masculina no futebol não é um acaso, mas o resultado de um processo histórico de exclusão e controle da presença feminina.

“Foi construída a ideia de que o futebol seria um território naturalmente masculino, associado à força e à virilidade. Enquanto isso, às mulheres reservavam-se expectativas de delicadeza e contenção do corpo”, explica.

Carolina, que atua como vice-presidenta do Instituto Mudar o Jogo, iniciativa que promove o esporte em periferias como ferramenta de transformação social, defende que a busca por igualdade exige encarar a disparidade de gênero como uma questão estrutural. Para ela, não basta ampliar a visibilidade na mídia, é fundamental implementar políticas públicas contínuas que garantam investimento em iniciação esportiva, infraestrutura adequada e proteção contra as diversas formas de violência. 

“O desafio é desmontar a ideia, ainda muito naturalizada, de que o futebol é um território masculino. Isso passa pela escola, pela mídia, pelas famílias e pelos modos como o esporte é apresentado às crianças desde cedo. Passa também pela produção de memória e pelo reconhecimento de trajetórias historicamente apagadas.”

Propostas buscam coibir violência 

O Projeto de Lei 2.354/2021, de autoria do senador Fabiano Contarato (Rede-ES), em tramitação no Congresso Nacional, propõe a criação de mecanismos para coibir a violência e a discriminação no ambiente esportivo, com foco especial em práticas de cunho machista, racista e homofóbico. Entre as medidas previstas estão a responsabilização de atletas, dirigentes e torcedores por condutas dentro e fora das arenas, além da possibilidade de aplicação de sanções esportivas e administrativas. A ação se insere em um conjunto de iniciativas que buscam ampliar o debate sobre segurança, direitos e responsabilização no futebol brasileiro.

Outras propostas também buscam enfrentar a violência e a discriminação no ambiente esportivo, como o Projeto de Lei 549/2019, de autoria da senadora Leila Barros (PSB-DF), que amplia a proteção às torcedoras no Estatuto do Torcedor, e projetos em tramitação no Senado que preveem o aumento de penas para manifestações racistas, homofóbicas ou xenófobas em estádios. Há ainda iniciativas em estados e no Distrito Federal que criam protocolos e sanções específicas para combater essas práticas em arenas esportivas.

A urgência de mudanças é reforçada por dados sobre o impacto do calendário esportivo na segurança pública. Segundo a pesquisa Violência Contra Mulheres e o Futebol, realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em dias de jogos, os registros de boletins de ocorrência por ameaça contra mulheres aumentam 23,7%, e os de lesão corporal crescem 20,8%. Esses indicadores evidenciam que a toxicidade de certos padrões de comportamento no futebol transborda os estádios e incide diretamente na integridade física das mulheres dentro de seus lares.

Casos de assédio, contratações controversas de atletas com histórico de violência, e a resistência de parte das torcidas a mudanças institucionais são pontos de tensão que testam, a cada rodada, a capacidade dos clubes e das autoridades de promoverem um ambiente verdadeiramente inclusivo e seguro para torcedoras e profissionais. 

A seguir, reunimos episódios recentes, das temporadas 2025 e 2026, que dimensionam como essas questões se manifestam no cotidiano do esporte.

Episódios de violências

1. Vasco-AC e a homenagem a jogadores investigados por estupro coletivo

Em fevereiro de 2026, jogadores do Vasco-AC utilizaram o protocolo oficial da Copa do Brasil para prestar homenagem a três companheiros presos sob suspeita de estupro coletivo contra duas mulheres. O crime, segundo as investigações, teria ocorrido dentro do alojamento do clube, após as vítimas serem levadas ao local depois de uma festa de Carnaval. De acordo com o processo, elas foram submetidas a atos sexuais mediante violência, constrangimento e intimidação coletiva. Em reação ao caso, o Levante Feminista Acre realizou um protesto em frente ao estádio O Tonicão, durante a partida entre Galvez e Vasco.

2. O retorno e a nova fuga do Goleiro Bruno

Condenado pelo assassinato de Eliza Samudio, o goleiro Bruno Fernandes voltou a atuar profissionalmente ao ser regularizado pelo Vasco-AC e estrear na Copa do Brasil de 2026, em fevereiro, contra o Velo Clube-SP. Em liberdade condicional à época, ele também manifestou intenção de ingressar na política, declarando abertamente seu apoio à direita. No entanto, em março de 2026, teve nova prisão decretada após viajar sem autorização judicial, descumprindo as condições impostas pela Justiça. O jogador permanece foragido.

3. Questionamento à arbitragem feminina

Na mesma semana em que vieram à tona os episódios envolvendo o Vasco-AC, o jogador Gustavo Marques questionou publicamente a escalação da árbitra Daiane Muniz após derrota para o São Paulo. Ao sugerir que uma mulher não deveria conduzir uma partida “daquela importância”, o atleta reforçou uma lógica que associa o futebol de alto nível a uma autoridade exclusivamente masculina. Ele foi punido com suspensão de 12 jogos.

4. O “acordo” de Léo Dias e a naturalização de condutas

Às vésperas da Libertadores de 2025, o jornalista Léo Dias divulgou um comunicado afirmando que seu veículo deixaria de publicar notícias sobre festas ou infidelidades de jogadores do Flamengo em caso de conquista do título. A mensagem, encerrada com a frase “que cada uma cuide do seu marido”, gerou críticas por sugerir conivência com comportamentos problemáticos e transferir às mulheres a responsabilidade por eles.

5. A volta de Cuca e o debate sobre responsabilização

O anúncio de Cuca como novo técnico do Santos reacendeu discussões sobre responsabilização no futebol. O treinador foi condenado por envolvimento no estupro de uma menina de 13 anos, em 1987, durante uma excursão do Grêmio à Europa. À época jogador do time gaúcho, recebeu pena de 15 meses, mas não cumpriu por ter retornado ao Brasil antes do julgamento.

Em 2024, a Justiça suíça anulou a condenação alegando julgamento à revelia e extinguiu o processo por prescrição, sem reavaliar o mérito. A decisão não o inocenta, mas impede nova condenação pelo caso. Seu retorno ao cenário profissional evidencia um padrão recorrente: o desempenho esportivo frequentemente é mobilizado como justificativa para relativizar ou contornar condenações criminais.

6. Mulheres jornalistas sob ataque

A jornalista Aline Gomes, da CazéTV, foi agredida durante uma transmissão ao vivo nos arredores da Vila Belmiro, após uma partida do Santos. Enquanto relatava o cenário de confusão entre torcedores, um homem se aproximou e arrancou o microfone de sua mão de forma brusca, chegando também a empurrá-la. O caso repercutiu nas redes sociais e levantou debates sobre a segurança de jornalistas em coberturas esportivas e a violência, especialmente contra mulheres, nesses ambientes.

7. Violência sexual contra torcedor rival

No Campeonato Pernambucano, um confronto generalizado antes de uma partida ficou marcado pela violência sexual sofrida por um torcedor do Sport com uma barra de ferro. A vítima, que chegou a ficar em estado grave e internada em UTI, recebeu alta cerca de três meses depois, mas seguiu em recuperação. O caso teve desdobramentos penais e institucionais, com a adoção de medidas mais rígidas contra torcidas organizadas e o reforço da segurança em partidas, especialmente em clássicos.

8. Torcedores exibem bonecas com alusão à violência

Ainda no estadual pernambucano, torcedores do Sport compartilharam nas redes sociais imagens de bonecas vestidas com a camisa do Náutico e com marcas que simulavam agressões, em referência à violência contra a mulher. Em uma das fotos, dois torcedores aparecem encenando um ataque com uma faca no pescoço da boneca. Diante da repercussão, a Secretaria de Defesa Social (SDS) de Pernambuco anunciou o reforço dos protocolos de segurança nos estádios. Entre as medidas adotadas estão a proibição da entrada de bonecas, objetos ou qualquer material que faça alusão à violência de gênero, além da intensificação da fiscalização para impedir faixas e cartazes com conteúdo discriminatório. 

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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