O livro A invenção das mulheres, de Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, é uma obra seminal no campo dos estudos de gênero e pós-coloniais. Publicado originalmente em 1997, o texto questiona a universalização das categorias ocidentais de gênero e propõe uma leitura da sociedade iorubá pré-colonial. A autora argumenta que, em Yorubaland, as hierarquias sociais eram estruturadas principalmente pela idade relativa, e não pelo sexo biológico. Essa perspectiva desafia a ideia de que a desigualdade de gênero é uma constante universal.

No entanto, ao analisar cuidadosamente a descrição da autora sobre a organização social dos/das iorubás, percebe-se que, mesmo sem categorias linguísticas fixas equivalentes a “homem” e “mulher”, havia diferenciação prática entre os papéis sociais desempenhados por homens e mulheres.

Essa constatação é central para a tese aqui defendida: a sociedade iorubá apresentava divisão sexual dos papéis sociais, ainda que organizada de forma distinta do modelo ocidental. Portanto, utilizar o livro como argumento de que a desigualdade de gênero é “exclusiva do Ocidente” constitui uma falácia interpretativa.

A tese de Oyěwùmí é que a idade era o eixo da hierarquia social e que a língua iorubá não possuía termos que correspondessem diretamente às categorias ocidentais de “homem” e “mulher”. A identidade era relacional e contextual, e a idade funcionava como critério central. Os mais velhos detinham autoridade e prestígio, independentemente do sexo.

Essa análise é fundamental para compreender como a colonização europeia introduziu e cristalizou (novas) categorias de gênero na sociedade iorubá. A autora mostra que os colonizadores, ao impor suas estruturas administrativas e jurídicas, traduziram a realidade local em termos ocidentais, criando uma narrativa em que desigualdade de gênero seria “natural” e universal. Apesar da ênfase de Oyěwùmí na idade como eixo hierárquico, sua própria descrição da sociedade iorubá revela que havia diferenciação prática entre homens e mulheres:

  • Homens ocupavam funções ligadas à guerra, à liderança política e às atividades públicas.
  • Mulheres estavam associadas ao cuidado, ao espaço doméstico e a determinadas funções religiosas.
  • Essa divisão não era idêntica ao modelo ocidental, mas configurava uma forma de organização social baseada em papéis sexuais distintos.

Um dos trechos do livro mais gritantes, que escancara essa divisão, diz: 

A esse respeito (casamento), em particular, a poligamia foi um privilégio não generificado, determinado pela reciprocidade estabelecida entre cada indivíduo aya e indivíduo ọkọ. Também era do interesse de uma aya mais velha estar em um casamento polígamo, porque a responsabilidade do cozimento recaía sobre a aya mais nova no casamento múltiplo; portanto, era comum que aya iniciasse o processo de poligamia para seu parceiro conjugal. Ela não via isso como contrário ao seu interesse geral. 

A análise da socióloga Oyěwùmí é tão ideológica, que ela não problematiza esses papéis, mas os naturaliza como algo em que todas as partes estão felizes e aceitam o “acordo” em nome do interesse do grupo. Aqui, de fato, falta agência, sobretudo das mulheres em questão. Dizer que a “aya” mais nova entra na família, como esposa do homem, com o papel definido de cozinhar, não é divisão sexual do trabalho, é uma leitura rasa da própria cultura e das relações de poder. É dizer que “aya”, que ela não chama de “mulher”, entra feliz e conformada neste arranjo já definido pela cultura. E, mais, nenhuma mulher o questionou em nome da “reciprocidade”.

Portanto, mesmo que a linguagem não cristalizasse categorias fixas de gênero, a prática social demonstra que homens e mulheres não desempenham funções intercambiáveis. Havia, sim, uma divisão sexual dos papéis sociais e a análise da autora permite identificar exemplos concretos dessa diferenciação:

  • Guerra e política: os homens eram responsáveis pela defesa militar e pela liderança política, ocupando cargos de chefia e tomada de decisão.
  • Religião: as mulheres desempenhavam papéis importantes em cultos e práticas espirituais, mas muitas vezes em funções específicas e delimitadas.
  • Cuidado e domesticidade: as mulheres estavam associadas ao cuidado dos filhos, à manutenção da casa e à transmissão de valores culturais.

Em outro trecho do livro, ela novamente argumenta:

Ao longo da vida, muitas mães estavam envolvidas em um processo de acumulação de tecido para sua descendência anafêmea e acumulando dotes para sua descendência anamacho. Nesse contexto, podemos começar a perceber o delicado equilíbrio de uma multiplicidade de interesses para qualquer pessoa (…)

(…) Da mesma forma, aya com senioridade apropriada não precisava cozinhar. Em um casamento polígamo, a responsabilidade de servir a comida para o parceiro conjugal passava para a aya mais jovem. Esse era um dos principais atrativos da poligamia para muitas aya – que transferiam certas responsabilidades. Dada a dissociação entre senioridade e empregos servis, não é de surpreender que a cozinha fosse passada para as mais novas.

Esses exemplos demonstram divisões claras com relação ao sexo, tratados por ela como “atrativas”, “recíprocas”. Ora, suponhamos que sejam de fato como a autora adjetiva. Isso não elimina a diferença na distribuição de funções sociais, que chamamos de gênero. A colonização europeia reforçou e cristalizou essas diferenças. Ao traduzir a realidade iorubá em termos ocidentais, os colonizadores introduziram categorias rígidas de “homem” e “mulher”, impondo uma lógica binária que não correspondia plenamente à organização local.

 A administração colonial passou a privilegiar homens em cargos públicos e políticos, enquanto as mulheres foram relegadas a funções secundárias, reforçando desigualdades que antes eram mais flexíveis. Nesse processo, a narrativa colonial construiu a ideia de que a desigualdade de gênero era universal, apagando as especificidades da sociedade iorubá.

A autora, na tentativa de fazer uma crítica, necessária, à colonização, ao Patriarcado ocidental e ao feminismo das mulheres brancas, acaba defendendo uma tese equivocada, pois a divisão sexual do Ocidente e as relações de gênero impostas a todas as culturas como universais, não devem ser rebatidas com outra análise ingênua das relações pré-coloniais.

Por exemplo, o trecho em que ela fala da abstinência pós-parto entre as iorubás, cai na mesma lógica semelhante à ocidental que privilegia a cultura masculina, sem considerar a agência, o desejo e a autonomia das “anafêmeas”: 

Como o dote, a prática da abstinência pós-parto tem sido descrita por várias estudiosas como controle sexual da mulher e um exemplo das limitações impostas a membros femininos nas sociedades africanas. O debate deve ser colocado em contexto comparativo – isto é, a atenção deve também se concentrar em sociedades onde tal prática não existe. As sociedades ocidentais são um bom exemplo disso. A prática iorubá da abstinência pós-parto contrastava nitidamente com as práticas nos casamentos europeus do mesmo período histórico, casamentos em que os maridos tinham acesso sexual ilimitado às esposas. Isso significava que as esposas europeias não tinham controle sobre seus corpos, já que os “direitos conjugais” dos homens incluíam acesso sexual ilimitado, independentemente do bem-estar da criança, da idade da criança ou da saúde da mulher.

Vejamos essa descrição numa perspectiva crítica. Na cultura ocidental, o homem exerce uma posição de controle sobre o corpo das mulheres, determinando, por exemplo, quando ocorrerá o sexo com base na sua vontade, mesmo que a mulher esteja no pós-parto, recuperando-se de um período de mudanças no corpo, nos hormônios, na cabeça. No Brasil, ocidentalizado, homens exigem relação sexual mesmo quando a mulher ainda está em recuperação depois de uma cesariana. 

A socióloga argumenta que, na cultura iorubá, não é assim, que a mulher que acabou de parir é “protegida” deste controle absoluto, o qual ela diz ser típico do ocidente, e há uma espécie de pausa, durante a qual o homem pode tomar outra em casamento e o satisfazer sexualmente. Nos dois casos, porém, não é o desejo da mulher o centro da questão, mas a “necessidade” sexual dos homens. 

Reconhecer que a sociedade iorubá tinha divisão sexual dos papéis sociais é essencial para evitar interpretações equivocadas. Usar A invenção das mulheres como argumento de que a desigualdade de gênero é exclusiva do Ocidente constitui uma leitura simplificada da própria descrição etnográfica apresentada pela autora.

A obra é fundamental para repensar gênero e questionar a universalização das categorias ocidentais. No entanto, sua leitura não deve ser usada para negar a existência de desigualdades em sociedades africanas. A sociedade iorubá, como descrita por Oyěwùmí, apresentava, sim, divisão sexual dos papéis sociais, ainda que organizada de forma distinta do modelo ocidental. Assim, as análises precisam reconhecer essas especificidades, o que não significa negar a desigualdade de gênero, mas compreender que ela se manifesta de formas diversas em diferentes contextos históricos e culturais. 

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  • Fabiane-Albuquerque

    Feminista negra, escritora e doutora em sociologia. Autora dos livros Cartas a um homem negro que amei (Editora Malê) e...

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