As mulheres negras lideram a agenda feminista no Brasil. A afirmação é de Sueli Carneiro, filósofa, ativista, escritora e co-fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Na véspera da Marcha das Mulheres Negras, em 25 de novembro, em Brasília, ela concedeu uma entrevista às jornalistas que viajaram à convite do Fundo Baobá, instituição da qual é presidente do Conselho Deliberativo, para cobrir o evento na capital. 

Quem a conhece sabe que é avessa a entrevistas, o que tornou o encontro ainda mais significativo. A resistência logo se justificou quando ela relembrou a atuação da grande imprensa para tentar barrar as cotas nas universidades.

“Colecionei na minha tese os editoriais dos principais veículos, todos contra as cotas. Eles sabiam muito bem o que estavam defendendo. Sabiam que o ensino superior é o principal ativo de mobilidade social do país”, contou.

Ao longo da conversa, a filósofa revisitou marcos fundamentais da luta antirracista, como o surgimento do Movimento Negro Unificado, em 1978, que consolidou a articulação entre raça e classe; e o protagonismo na Constituinte de 1988, que resultou na criminalização do racismo, na ampliação dos direitos das mulheres e no reconhecimento constitucional das comunidades quilombolas. Conquistas alcançadas em um período em que o Estado ainda não reconhecia a pauta negra como legítima.

Sueli Carneiro sendo entrevistada pelas jornalistas Camila Rodrigues, Luciana Santos, Kelly Ribeiro e Mari Magalhães. Crédito: Janaína Barbosa | Fundo Baobá.

Ao tratar do avanço das mulheres negras, destacou que, desde os anos 1980, organizações surgiram de norte a sul do país, estruturando uma articulação nacional que fortaleceu o feminismo negro. Para ela, não existe causa sem protagonismo, sem ativismo e sem organização, pilares que sustentam mais de três décadas de coletivos, incidência política e produção intelectual que transformaram a presença das mulheres negras na vida pública brasileira. Confira. 

Qual a sua perspectiva sobre os avanços desde a Marcha de 2015? Foram dez anos muito intensos, tivemos o golpe, o governo Bolsonaro, a pandemia. Mesmo assim, chegamos aqui com uma avaliação relativamente positiva. Qual é a sua leitura dessa última década?

Eu sou uma das ativistas mais antigas do movimento negro e do movimento de mulheres negras. E o ativismo tem um olhar um pouco diferenciado sobre o que são os resultados das nossas lutas.

O que é fundamental para mim é o avanço no nível da mobilização, no nível da consciência negra e no nosso processo organizativo. Para mim, essa é a questão essencial porque é isso que irá assegurar a nossa luta no futuro, sempre.

Nesse sentido, o que assistimos desde a marcha de 2015 para cá, é um aprofundamento de um processo de mobilização e organização política de mulheres negras em diferentes campos: na formação, na presença na opinião pública, na política. 

Sem dúvida ampliamos a presença de mulheres no parlamento, é muito pequena ainda, mas avançamos. Temos um avanço expressivo das mulheres negras nas universidades, no índice de escolarização, no movimento social. Isso é algo que sempre aconteceu, mas hoje o protagonismo das mulheres negras é, sem dúvida, inequívoco. Elas estão na liderança do debate racial no Brasil. Inclusive, no jornalismo, liderando veículos nossos. 

Há duzentos anos atrás [estou brincando] escrevi um artigo, que talvez vocês conheçam, chamado “Enegrecer o feminismo”. Essa é uma tarefa que foi cumprida. Nós fizemos isso. Não existe possibilidade de pensar a questão da mulher no Brasil sem passar pela questão das mulheres negras. Nós, hoje, ditamos a agenda feminista no Brasil.

O desafio agora é outro. É mostrar à sociedade brasileira como a perspectiva que trazemos, fruto da experiência singular de ser mulher negra, marcada por múltiplas formas de discriminação, é capaz de engendrar uma utopia libertária para o país. No dia em que o Brasil responder às demandas que colocamos, a cidadania verdadeira estará instaurada.

É simples assim o tamanho do que carregamos. Somos agentes civilizatórios desta sociedade, portadoras de uma nova utopia e de um novo projeto de nação; sonhamos todos os sonhos libertários capazes de emancipar todos, todas e todes. E por quê? Porque somos o ápice da exclusão, aquelas sempre deixadas para trás, que nenhum processo de integração ou inclusão contemplou.

Somos credoras desta sociedade, deste país. E o que trazemos, como credoras, é esse sonho libertário e emancipatório de desalojamento de todas as hierarquias — porque todas as hierarquias instituídas nos oprimem. 

Na linha da utopia, o que a senhora imagina que comemoraremos daqui a dez anos? Quais as suas perspectivas de avanço? 

Essa geração está entregando para vocês algumas conquistas. Não é o país que sonhamos, não é o país pelo qual lutamos. Há uma frustração aí, mas fizemos parte do esforço para a redemocratização e também para pautar a questão racial, desmentir o mito da democracia racial e provar que vivemos em um país racista. 

Eu sempre digo que o movimento negro e a resistência negra começaram com o primeiro navio negreiro que aportou aqui. Mas, essa geração reativou o movimento social e fez emergir novas demandas por direitos que os movimentos negro, feminista, quilombola trouxeram para a cena pública. Nós pautamos isso. 

Conquistamos as cotas nas universidades, que considero a mais bem-sucedida de nossas demandas e a responsável por mudar radicalmente o campo de disputa, colocando a questão racial em outro patamar. Hoje, há um contingente extraordinário de pessoas negras aptas a disputar o mercado formal de trabalho — e a branquitude, ciente disso, se reorganiza para frear esse avanço. É outro nível de conflito.

Um mercado que se fecha para se proteger contra a invasão dos hunos¹, que somos nós. Infelizmente, cada geração tem o seu B.O. para resolver. 

Não estamos mais brigando com as sutilezas do racismo, com uma branquitude que se esconde, que bota verniz e etiqueta para ocultar. O racismo está cada dia mais explícito, mais violento. O que é a extrema direita e o fascismo emergente na sociedade brasileira? É isso. 

Uma supremacia branca que busca reafirmar sua hegemonia e que não tem nenhum problema em fazer isso com toda a violência que a caracteriza. Só que agora, sem medo, sem disfarce.

Para mim, a evidência disso são os 121 corpos no Complexo do Alemão. Este é o momento do racismo que, infelizmente, vocês (nova geração negra) vão ter que enfrentar: a forma mais aguda, direta e violenta porque ele não tem mais véus. 

Mas não respondi à pergunta anterior. Falei dos problemas agravados que vocês vão ter que enfrentar como gerações herdeiras dessa luta. 

Daqui a dez anos eu não sei, mas o que eu estou sinalizando para o futuro é… Ok, nós temos políticas públicas. Algumas explicitamente de promoção da igualdade racial, outras de combate à pobreza, que também nos alcançam. 

Mas, vou usar uma expressão que aprendi com a [jornalista] Flávia Oliveira, geralmente a característica principal das políticas voltadas para a nossa população são políticas precárias que reproduzem a nossa precariedade.

Como a senhora disse, essa geração conquistou muito. Temos diversas leis, por exemplo, mas elas não são efetivamente cumpridas. Até mesmo no campo progressista enfrentamos dificuldades, inclusive dentro dos partidos…

Não adianta reclamar. Tem que lutar. O racismo é assim. Este é o projeto. É minar as nossas conquistas, drenar o potencial delas. Só tem uma resposta para isso: continuar lutando. Ou continuamos lutando ou aceitamos os termos, entendeu? O que o “contrato racial” deles estabelece para nós é a subalternização ou eliminação. Seja de setores progressistas ou não. O problema é nosso. 

Agora, com o que eu sonho? O Estatuto da Igualdade Racial, a criminalização do racismo, [Conferência de] Durban, e todas as coisas que eu citei anteriormente trazem um conjunto de possibilidades para tensionarmos o Estado brasileiro e fazer avançar uma agenda de promoção da igualdade racial.

Ainda assim, o que é que falta? O que eu, pessoalmente, sinto falta? Que é algo com a qual estou comprometida e pretendo me comprometer com o que me resta de força e de condições de vida: temos que vencer essa ideia de que política destinada para nós é o precário e a reprodução do precário. Esse é o desafio que temos para o futuro. Sair da oferta e aceitação de políticas de precariedade em prol de um processo virtuoso de políticas de prosperidade. 

O que tenho dito é: chega de espelhinho. Para usar uma expressão da Luísa Bairros, chega de “cenourinha” para nós. É hora de parar de aceitar espelhinhos e cenourinhas.

É hora de ousar reivindicar aquilo que eles não nos deram em 13 de maio de 1888. Eu chamo esse projeto, essa ideia, essa utopia de construir um círculo virtuoso de prosperidade para a nossa gente de Projeto 14 de Maio de 1888. Tudo o que não aconteceu ali. 

Podemos muito mais como coletividade negra e precisamos aprender a exigir mais do que “espelhinhos” e “cenourinhas”. Precisamos reivindicar um projeto consistente de desenvolvimento para a nossa população. 

Aí algumas pessoas dizem: “ah, mas isso é utopia”. O Brasil sabe fazer. E já fez. Foi exatamente o que o Estado brasileiro fez com os imigrantes brancos europeus. Tanto é que deu certo. A hegemonia é branca, descendente de europeu. O que contrariou esse projeto foi a nossa resistência. Portanto, estamos em condições para querer muito mais.

Qual é o caminho mais concreto para que a população negra, especialmente as mulheres negras, possa acessar esse mecanismo financeiro de reparação histórica?

Não existe esse mecanismo financeiro de reparação histórica. Não existe ainda. É parte da luta. Quando eu digo que temos que construir um programa robusto de desenvolvimento econômico da nossa gente, é disso que se trata. Quando falo de sair do precário para o próspero, estou falando disso. Uma agenda robusta de desenvolvimento econômico da nossa gente.

Desenvolvimento econômico. É esse o nome da coisa. Então, para pensar algo tão grande, tem que começar a bater na porta do BNDES, por exemplo, para começar a conversar. É disso que se trata. Ir à luta, entendeu? O caminho é esse.

Que mensagem a senhora gostaria de deixar para essa nova geração, que, inclusive, se faz presente nesta edição da Marcha? 

Olha, eu sempre recorro a uma palavra de ordem que nasce da experiência mais brutal vivida pelas mulheres negras, que é o genocídio de seus filhos e companheiros, e elas reagem dizendo: para nós, lutar é verbo.

Eu falo em transferir o bastão. Vocês já devem ter ouvido isso um milhão de vezes.

Aceitem, meninas, esse bastão, porque ele representa as causas mais justas da humanidade: a luta por igualdade de direitos, de gênero e de raça. Tendo em vista que vivemos em um país que nos mata sistematicamente, de diferentes maneiras, por ação ou omissão do Estado, lutar não é opção. É uma condição existencial. 

Não temos muito problema em saber o que faremos amanhã. Temos que seguir lutando em legítima defesa das nossas vidas, dos nossos e das nossas, da nossa dignidade humana. É disso que se trata. 

Estamos em um país decidido a nos exterminar, e temos a obrigação — em honra a todos, todas e todes que nos antecederam e nos trouxeram até aqui — de resistir, seguir adiante e transferir essa responsabilidade aos que nos sucederem, até que sejamos verdadeiramente livres.

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  • Kelly Ribeiro

    Jornalista e assistente de roteiro, com experiência em cobertura de temas relacionados a cultura, gênero e raça. Pós-gra...

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