“Um estudo do Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannerod (CNRS / Universidade de Lyon) mostra que, a partir dos 3 anos, as crianças, e mais particularmente os meninos, associam o poder e a dominação ao gênero masculino. A desigualdade entre homens e mulheres estaria enraizada desde a mais tenra idade? 

É essa a questão levantada pela pesquisa, recém publicada na revista Sex Roles. Em parceria com as universidades de Oslo, Lausanne e Neuchâtel, pesquisadores franceses realizaram várias experiências com 900 crianças de 3 a 6 anos na França, Noruega e Líbano.

Em uma das experiências, as crianças observaram uma imagem em que duas personagens sem gênero estavam representadas. Uma delas apontava o dedo para a outra, que abaixava a cabeça. Depois de identificarem quem era o dominante e quem era o dominado, as crianças foram convidadas a dizer quem era a menina e quem era o menino. 

Resumo do diálogo apresentado pelos pesquisadores:

“Olha, tem duas crianças. Uma delas diz: Você tem que fazer tudo o que eu te digo!

Faça aquilo que eu te mando!

E a outra criança responde: Tá certo. Eu faço tudo o que você quer!

Quem diz: Faça aquilo que eu quero!

E quem diz: Certo, eu faço aquilo que você quer!

Nesta imagem tem uma menina e um menino. Quem é a menina e quem é o menino?”

E os resultados foram inequívocos: “A maioria das crianças — mais de 70% — atribuiu o poder e a postura de domínio a uma figura masculina”, explica Jean-Baptiste Van der Henst, um dos dois pesquisadores que conduziram o estudo.”¹

Análise das representações do masculino e do feminino, o uso do espaço e a socialização dos corpos 

Colette Guiullamin, socióloga e feminista francesa, no estudo Sesso, razza, e pratica del potere, faz uma análise aprofundada da dominaçao masculina, que perpassa o uso dos espaços e a postura corporal. Ela diz que meninos e meninas são socializados de formas diferentes para ocuparem os espaços também de forma diferente. 

Os primeiros, desde pequenos, são incentivados a fazer esportes de combate, a correr, a explorar os espaços e a usar o corpo de forma livre. As meninas, por sua vez, são sempre chamadas a brincar perto dos pais ou adultos, a fazer atividades que limitam o uso do corpo a uma esfera circunscrita, como balé, brincar de casinha, boneca, etc. Além disso, o uso da voz, o timbre, quando alto, em meninos, é aplaudido, em meninas, é vulgar e pouco feminino. 

Nos relacionamentos, diz a socióloga, são os homens que conduzem as mulheres pelas mãos, andando pelo menos um milímetro à frente ou segurando a mulher “carinhosamente” pelo pescoço, para demonstrar quem comanda, quem guia. 

Na França, cenário que a autora analisa com mais profundidade, até mesmo o peso e a altura da mulher, muitas vezes exigida pelos companheiros, deve expressar a dominação masculina. As mulheres devem ser menores em estatura e mais magras. No país, pelo menos 10 quilos a menos do que os homens. Esse padrão não é outra coisa senão uma forma de dominação pela violência simbólica. 

Mulheres não são ensinadas a bater, a gritar, a revidar e todas as posturas, imagens e narrativas reforçam essa realidade. Meninos e meninas estão neste universo, incorporando os valores dominantes da sociedade. 

Da realidade brasileira:

Sabemos que as ruas, os bares, os espaços públicos pertencem aos homens. E, não precisa de muitos estudos para constatar. Basta um bom olhar atento às posturas corporais e aos lugares que os sexos ocupam. Nos bairros populares, as ruas são espaços masculinos, as calçadas, os bares.

Eles andam sem camisa, eles falam alto, eles assediam as garotas que passam. As mulheres que tentam competir pelo espaço, devem se juntar a um grupo de homens, sofrendo, inclusive, diversas violências e aceitando as regras masculinas. 

Nos bares das áreas nobres, os homens são aqueles que falam mais alto e impõem a sua presença. As mulheres, em geral, ocupam as bordas e, quando estão acompanhadas de outros homens, costumam ser sempre as ouvintes, não o centro das atenções nem a contadora das piadas. 

No transporte público, as mulheres se espremem nas cadeiras, enquanto os homens ocupam a sua e mais um pouco de outra, quase sempre com as pernas ligeiramente abertas. Sem contar os esfregões em corpos femininos, os assédios e as masturbações públicas. 

Nas telenovelas, a diferença entre as posturas é gritante. Algumas imagens ilustram bem:

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Cenas das novelas Gabriela e Avenida Brasil | Crédito: Divulgação Rede Globo.

Na imagem a seguir, a mulher é “protegida”, “abraçada”, “sorridente”, todos verbos de passividade, enquanto o homem é o que abraça, protege.

Os atores Caio Paduan e Erika Januza em cena da novela O Outro Lado do Paraíso | Crédito: Divulgação Rede Globo.

Meninos no centro, meninas nas bordas

As urbanistas Honorata Grzesikowska e Ewelina Jaskulska, realizaram uma pesquisa em pátios de escola, publicada com o título The Schoolyards (Barcelona, 2023). Por um ano, elas analisaram as crianças de duas escolas da Catalunha durante o recreio. As conclusões são muito parecidas com os estudos de Colette Guiullaumin: os meninos ocupam o centro, brincam no centro, enquanto as meninas costumam ficar nas bordas, em grupos, conversando ou brincando, pois a preocupação delas é com a segurança, enquanto os meninos estão aproveitando a liberdade. 

Alguns intelectuais importantes como Pierre Bourdieu e Eduardo Galeano, que escreveram sobre mulheres e dominação masculina, se equivocaram ao dizer que homens têm medo de mulher. Que é este o afeto por trás da violência, do controle, da dominância. Bem, as estudiosas estão provando o contrário. Que desde muito cedo, homens não aprendem a temer mulheres, mas a mandar e dominar.

Se existe algum medo, é de outro homem, de serem “deserdados” do que Rita Segato chama de mandato de masculinidade. 

De fato, a materialidade da divisão sexual do poder, dos espaços e a socialização dos corpos apontam nessa direção. O terror dos meninos é de serem comparados ou igualados às meninas. A masculinidade exige o exercício e a prova do poder pelos seus pares. Dizer que homens temem mulheres, que são inseguros com relação às mulheres, é reforçar o machismo, amenizando os efeitos perversos sobre os corpos de mulheres e às suas liberdades e dignidades. 

Além disso, propagar esse discurso é uma maneira de ganhar a empatia das mulheres e não ferir o ego masculino. O que está na base da misoginia, do machismo, da dominação, é o poder, o desprezo e o ódio aos corpos de meninas e mulheres. 

¹Texto de Hélène Chevallier, para a Radio France. Tradução: Fabiane Albuquerque.

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  • Fabiane-Albuquerque

    Feminista negra, escritora e doutora em sociologia. Autora dos livros Cartas a um homem negro que amei (Editora Malê) e...

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