É recorrente o discurso que trata o machismo e a violência contra as mulheres como uma questão de falta de educação ou de uma certa mentalidade, como algo que poderia mudar assim que os homens fossem educados e tomassem consciência do seu papel como opressor. Nesse sentido, se uma família educar um homem para não ser machista, se a escola educar alunos para não serem machistas, automaticamente o machismo desaparece. Ingênua essa ideia, não é?

Nós, geralmente, reduzimos questões de poder à boa vontade de quem o exerce. Como se as mudanças de comportamentos se dessem a partir da tomada de consciência da dominação. Os ricos sabem que exploram pobres em suas empresas. Banqueiros sabem que exploram os clientes com suas taxas de juros e, mesmo assim, não muda em nada.

Não se trata de falta de conhecimento, trata-se de poder. E, não, os homens não abrirão mão da violência de gênero em prol das mulheres, quando essa violência os beneficia. 

O escritor José Faleiro, autor do livro Vera, da editora Todavia, durante uma entrevista colocou o dedo na ferida ao afirmar que os homens não cedem espaço às mulheres, que privilégios são se renunciam e que, pela primeira vez, ele se percebeu como opressor por ser homem, e não somente como oprimido por ser de uma classe social explorada e racializada. 

Acredito que seja uma das vozes masculinas mais honestas da atualidade ao falar sobre masculinidade. Ele não se considera exceção, nem tenta ludibriar mulheres dizendo que os homens as temem, como fazem alguns intelectuais. Ele não se considera imune ao machismo, pelo contrário, reconhece que o poder sobre as mulheres é inerente à condição masculina.

Pensando nisso, destaco um trecho da autora francesa, Colette Guillaumin, em Sesso, razza e pratica del potere, uma das maiores autoridades feministas sobre as estratégias masculinas de dominação e poder: 

“Para explicar essas dificuldades recorrentes, algumas pessoas falam de atraso de mentalidade (em relação a quê?) ou de más disposições psicológicas dos homens em relação às mulheres, ou ainda de hábitos incorporados. Dessa forma, cada um dos traços da relação é isolado e reduzido ao estado de exceção ou erro. Nessa perspectiva, esse estado de coisas poderia ser corrigido por meio da educação. 

Os homens poderiam, certamente, se fossem mais bem informados e educados, cuidar das crianças, lavá-las, vesti-las, alimentá-las e talvez até suportá-las continuamente, como fazem as mulheres. 

Poderiam confiar todos os dias os seus filhos ao vizinho para ir cuidar do pai idoso e doente e poderiam aproveitar a pausa para o almoço no trabalho para fazer as compras para o jantar, que iriam preparar depois do trabalho. 

Pode-se pensar que se trata de uma questão puramente de educação e mentalidade. Então, seguindo essa lógica, deveríamos continuar nessa excelente linha de raciocínio, empreendendo a educação dos patrões e dos executivos para que eles façam sua parte do trabalho na fábrica ou no escritório, ou ensinando aos proprietários de terras como colher alegremente beterrabas ao lado dos imigrantes sazonais. 

E assim, com a reforma da mentalidade, teríamos uma sociedade feliz. Mas ninguém pensaria em afirmar tal visão com relação à divisão do trabalho na fábrica ou na agricultura.”

Para a autora, no Patriarcado, as mulheres constituem uma “classe” apropriada por todos os homens. As mulheres são de todos, até que, singularmente, cada homem escolha a sua, tornando-se proprietário e único com o direito de usufruir do seu corpo e trabalho. 

A autora diz que, quando uma mulher casada é violada, o dano é do marido. Já as mulheres solteiras, quando violadas, estariam apenas cumprindo o papel de satisfaçao do sexo dominante.

Com relação à divisão do trabalho, não é diferente. Não é que os homens não saibam o quanto é cansativo cuidar  da casa, dos filhos e de outras pessoas da família —  nem que, ao tomarem consciência disso, mudariam automaticamente de postura. Não, não.

Não é que os homens não saibam que as mulheres ganham menos e, quando souberem, passarão a pagar um salário no mesmo nível que outros homens ou contratá-las com mais frequência. Eles sabem, mas saber não muda as coisas quando o que está em jogo são as vantagens que se tem, o poder que se exerce. 

As mulheres da classe trabalhadora estão cansadas e os homens estão pouco se lixando, pois, o que conta é a exploração desse corpo construído como inferior, subalternizado e dominado, para o serviço e bem estar deles. Nenhum deles trocaria de lugar com uma mulher. Assim como os brancos não trocariam de lugar com os negros. 

Por isso, as estratégias da derrubada do Patriarcado não devem contar com a “boa vontade” dos homens, depois de serem devidamente educados. A transformação deve vir à força, pela tomada do poder nas instituições, pela emancipação econômica das mulheres. E, com muita luta.

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  • Fabiane-Albuquerque

    Feminista negra, escritora e doutora em sociologia. Autora dos livros Cartas a um homem negro que amei (Editora Malê) e...

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