Vivemos uma era acelerada e líquida, como definiu Zygmunt Bauman, sociólogo que traduziu como poucos a fragilidade e a fluidez excessiva dos vínculos modernos.

Vivemos o tempo do love at the swipe of a finger (amor ao deslizar de um dedo, na tradução em português), em que o próximo “amor” parece sempre estar a um simples toque de distância. Em que o afeto se mensura em curtidas e a convivência pode acabar acusada de sobrecarga emocional.

Nesta pressa por prazer, novas emoções e novidades, parecemos esquecer da virtude mais rara e, talvez, mais necessária nas relações humanas:  a permanência. E em momentos difíceis também. 

As relações estão cada vez mais frágeis e os  vínculos se rompem à primeira dificuldade.  Falta comunicação efetiva e sobram parceiros que desistem, quando, na verdade, o que se precisava era mais atenção, escuta, compreensão, pequenos reparos e cuidado.

E é sobre isso — sobre o esvaziamento do compromisso afetivo — que o Outubro Rosa também nos convida a pensar.

Outubro Rosa e o amor que fica

Outubro é o mês de falar sobre o câncer de mama, mas quando falamos da doença, não falamos apenas do câncer em si.

Falamos também de estresse, depressão, ansiedade, burnout, esgotamento físico e emocional. De tudo aquilo que testa os limites da nossa mente, corpo, alma e das relações humanas.

Porque a doença, ou as dificuldades emocionais, sejam quais forem, não atingem apenas quem passa por elas: elas atravessam o convívio, bagunçam a rotina e exigem firmeza e maturidade também de quem está por perto. De quem prometeu entrega. 

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registrará mais de 73 mil novos casos de câncer de mama até o final de 2025. Esse é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres. Mas há outro  dado que impressiona:  uma a cada dez mulheres diagnosticadas com a doença é abandonada pelo parceiro durante o tratamento.

Uma pesquisa publicada na revista Cancer, uma das publicações oficiais da American Cancer Society (ACS), instituição altamente respeitada na área da pesquisa oncológica, mostrou que a taxa de separação sobe para 20,8% quando a mulher adoece, e cai para 2,9% quando o doente é o homem. 

Ou seja: quando são elas que adoecem, é seis vezes mais provável que eles vão embora. E, quando eles abandonam, o que se rompe não é somente o casamento. Rompe-se a rede de apoio, o chão emocional, a rotina e a confiança construídas, os sonhos imaginados, o tempo dedicado e, muitas vezes, a esperança de um recomeço. 

A lógica do descarte

A psicóloga Valeska Zanello, professora da Universidade de Brasília (UNB), ajuda a entender esse fenômeno.

Nas pesquisas sobre dispositivos de gênero que conduz, ela mostra como as mulheres foram socializadas historicamente a cuidar, acolher e sustentar as relações, enquanto os homens quase nunca foram educados para fazer o mesmo. Nesse cenário, quando a mulher adoece — física ou emocionalmente —, o papel se inverte: é ela quem passa a precisar de cuidado. E muitos não sabem o que fazer diante da inversão. Antes de tentar, vão embora. 

Zanello chama de “dispositivo do amor” o mecanismo cultural que faz as mulheres acreditarem que o valor que  detêm está em servir, agradar, contornar as situações desafiadoras e serem desejadas.

Mas é quando o corpo muda, o humor oscila, o riso some, a beleza se esvai e o amor condicionado à performance desaba, que se revela o que há de mais real em muitas relações: não o amor que apenas promete e verbaliza. Mas o que se adapta, resiste e permanece.

Vivemos um tempo em que muitos vínculos seguem a lógica do consumo. O novo e o excitante são premiados, celebrados, valorizados. O constante, o conhecido e o vulnerável, descartados. Mas a vida real e o amor de verdade não têm tecla de next. Eles exigem pausa, conversa, apoio e reparo.

A chamada responsabilidade emocional não é um modismo das redes, é uma convocação para mais maturidade. É conversar antes de romper, compreender antes de julgar, cuidar antes de partir, consertar antes de descartar. É compreender que nenhum vínculo sobrevive sem manutenção, diálogo, ajuste e reparos exigidos pelo tempo. E que o amor realmente honesto e verdadeiro não se mede por dopamina barata, mas por presença madura.

A cura começa na presença

O Outubro Rosa é sobre prevenção, diagnóstico precoce e tratamento. Mas deveria também ser sobre o ensino da empatia de quem está perto. Afinal, não existe cura completa sem vínculo e apoio emocional. 

Há poucos meses, o Brasil se despediu de Preta Gil, que morreu em julho de 2025, após uma longa luta contra um câncer no intestino. Sua trajetória pública tornou-se um espelho coletivo sobre força, vulnerabilidade e, também, sobre  abandono: a cantora foi obrigada a enfrentar o fim do casamento — que ocorreu por uma traição envolvendo uma mulher que ela conhecia e, em algum momento, confiou — em pleno tratamento da doença. 

Mesmo fragilizada, antes de partir, Preta transformou sua dor em uma mensagem de afeto e coragem. Lembrava em várias oportunidades que, diante da doença, o que mais cura é a presença verdadeira dos que escolhem ficar — geralmente, amigos e familiares. 

Homens, que este mês os inspire a ficar, oferecendo o melhor que puderem. 

Fiquem quando o corpo dela mudar.

Fiquem quando o cansaço substituir o riso.

Fiquem quando ela disser que está confusa, não sabe o que fazer diante de uma situação de sofrimento, ou quando achar que não dá mais conta.

Fiquem nos momentos em que o amor exigir mais escuta, empatia, carinho e presença do que desejo.

Se ela pedir e você puder ser bom para ela, além de honrar com todas as promessas que um dia fez, fique. 

Porque ficar também pode curar.

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  • Claudia Guadagnin

    Claudia Guadagnin é jornalista, pós-graduada em Antropologia Cultural e Mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas....

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