*Por Isabella Gonçalves e o Coletivo de Vítimas CES.

Marilena Chaui publicou artigo em defesa da trajetória de Boaventura de Sousa Santos, marcada por trabalho acadêmico idôneo e relevante, mas que, segundo ela, estaria sendo injustamente atacada por nós — as mulheres caluniosas — que o acusamos de assédio sexual, moral e extrativismo acadêmico.

Ao fazê-lo, Marilena recorreu a imagens de Sandro Botticelli para evocar céu e inferno, construindo uma metáfora na qual, de um lado, Boaventura aparece como o santo do paraíso e, de outro, figuram as denunciantes no inferno — pecaminosas e invejosas. Ela afirmou buscar a ‘Verdade’, mas, como mulher e filósofa (das melhores que temos), causa-nos estranhamento que ignore que a verdade é dialética e histórica. 

Para enaltecer as qualidades intelectuais do homem, Marilena — que não nos conhece, desconhece grande parte da história e sequer nos nomeia — sentiu a necessidade de deslegitimar e atacar mulheres que se mobilizam contra relações de poder estruturais na academia: o assédio sexual e moral e o extrativismo acadêmico. 

Para dialogar com Marilena e com o público leitor, recorremos a outra imagem: o Angelus Novus, de Paul Klee. O quadro foi adquirido e interpretado por Walter Benjamim em uma das quatro versões de suas “teses” “Sobre o conceito de história” (1940), e, mais tarde, retomado pelo próprio Boaventura. A pintura mostra um anjo arrastado para o paraíso por um forte sopro. Ele voa de costas, olhando horrorizado para um mundo em destruição sob seus pés. 

Angelus-Novus-Paul-Klee
Angelus Novus, de Paul Klee | Crédito: reprodução.

Se o anjo é tão bom, por que não desce para ajudar os miseráveis, violentados e agredidos? Por que segue sozinho para o paraíso, deixando o mundo pegar fogo? Se o anjo é tão mau, por que não voa de frente? Por que é arrastado de costas, parecendo se importar com toda a miséria humana?

O anjo não é santo — assim como nenhuma de nós, nem você, nem Boaventura. O anjo é dialético e contraditório e, nessa condição, é arrebatado pelo forte vento: o movimento da história. 

E a história hoje se move de uma academia enclausurada, marcada pela hegemonia do pensamento colonial, racista e patriarcal, para uma academia com mais mulheres, com mais pessoas do Sul Global, mais indígenas, mais pessoas negras, que pensam, escrevem, questionam, se inquietam e se rebelam contra as estruturas acadêmicas opressivas que por muito tempo lhes impuseram barreiras e lhes causaram danos. O pensamento de Boaventura se inscreve nesse movimento, mas não está livre de contradições.

A relevância dos livros e da teoria de Boaventura para o pensamento progressista leva alguns e algumas a crer que ele seja um santo na terra. Mas, basta um pouco de convivência, para perceber a distância entre o que se fala e o que se faz, entre teoria e prática, escancarada em sua trajetória marcada por muitos privilégios, brancos e europeus, e por uma forma arrogante de se relacionar com quem desagrada sua vontade imaculada, sobretudo quando essas pessoas estão subordinadas a ele por vínculos laborais ou acadêmicos.

Num olhar mais próximo e menos público, emerge a forma abusiva como ele se relaciona com mulheres. O assédio sexual e moral é relatado por muitas que passaram pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra como convidadas, ativistas e pesquisadoras, e tiveram contato próximo com Boaventura. 

Esses relatos não foram lançados ao vento: após a criação de canais institucionais de acolhimento, foram apresentados a uma comissão independente, que reconheceu padrões de poder estruturalmente abusivos no CES durante a gestão de Boaventura como diretor. 

Em seguida, as denúncias foram encaminhadas à comissão disciplinar, que não divulgou resultados nem aplicou medidas, pois o professor se demitiu alegando perseguição por parte do CES, instituição que sempre o protegeu. Por fim, ele recorreu à Justiça processando as denunciantes — não todas, apenas aquelas que estavam em Portugal — mas desistiu ao perceber que nem mesmo a justiça punitivista do norte global (que sempre criticou), instrumento do patriarcado, poderia redimi-lo. 

A exposição do “Caso Boaventura” não se trata de vingança nem de destruir a imagem pública de alguém. A sequência de relações abusivas de poder narradas pelas denunciantes diz respeito não apenas ao professor, mas sobretudo à forma estrutural como o patriarcado se reproduz no espaço acadêmico.

Falar de extrativismo intelectual e assédio moral e sexual no contexto acadêmico significa debater duas dimensões estruturantes de uma universidade que precisa se reinventar para reduzir a distância abissal entre teoria e prática. Debates feministas importantes têm refletido como a academia deve se tornar emancipatória, intercultural e ecológica para as mulheres, em especial migrantes, indígenas, negras, LGBT+. 

Iniciativas como ouvidorias das mulheres e projetos de lei para o enfrentamento ao assédio na academia têm prosperado com alguma dificuldade, enfrentando a resistência conservadora de manutenção do corporativismo acadêmico. 

Marilena, ao afirmar que as denunciantes mentem, pois usufruíam de boas condições de trabalho e pesquisa – o que as protegeria do assédio moral e sexual – parece desconhecer a realidade da maior parte das mulheres na academia: vivendo sem bolsas ou com remuneração insuficiente, sendo constrangidas a não engravidar, a não amamentar, conciliando duplas e triplas jornadas de trabalho, e, na maioria das vezes, realizando trabalhos extras para seus orientadores para manter uma relação laboral e científica precária. 

E sim, sofrendo assédio sexual e moral aos montes. Ou você, leitora, nos diga: estamos inventando uma realidade que não existe?

Muitas pesquisadoras e estudantes têm dedicado tempo e cuidado a enfrentar o assédio e o extrativismo acadêmico, construindo canais de acolhimento das mulheres e pessoas LGBT+, de responsabilização dos assediadores, de restauração de relações e de transformações estruturais. 

Vale lembrar que foi justamente a ausência desses canais que fez a situação explodir e o “Caso Boaventura” ganhar tamanha repercussão. Foi a proteção corporativista institucional entre acadêmicos que manteve tantos silêncios que, quando rompidos, os muros falaram e o episódio virou manchete de jornal. 

Assédio_sexual_e_Boaventura_de_Sousa_Santos_todas_nós_sabemos!_
Crédito: reprodução.

A ‘Verdade’ é que o assédio moral e sexual e o extrativismo acadêmico são elementos estruturais e estruturantes das relações de poder na academia. Combatê-los não tem a ver com destruir a imagem pública de alguém, mas sim com aprofundar um movimento dialético por uma academia que não continue violentando mulheres.

APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE


Fazer uma matéria como essa exige muito tempo e dinheiro, por isso precisamos da sua contribuição para continuar oferecendo serviço de informação de acesso aberto e gratuito. Apoie o Catarinas hoje a realizar o que fazemos todos os dias!

CONTRIBUA COM QUALQUER VALOR NO PIX
  • Isabella-Gonçalves-Miranda

    Mais conhecida como Bella Gonçalves, nasceu em Belo Horizonte no dia 20 de novembro de 1988. Cientista política, deputad...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas