As redes sociais, sobretudo no período pós-pandemia, ampliaram a visibilidade de figuras que influenciam mais pela exposição de vivências individuais do que pelo compromisso com processos coletivos. Quando desconectada de consciência de classe, senso de pertencimento e responsabilidade ética, essa influência pode representar risco para conquistas políticas e sociais historicamente construídas.

O problema não está na falta de conhecimento, mas na difusão de leituras revisionistas que relativizam pesquisas e consensos acadêmicos. Em seu lugar, surgem narrativas individualistas que priorizam ausências, ressentimentos e autoafirmações, enfraquecendo a produção coletiva de saberes, deslegitimando a revisão por pares e abrindo espaço para pseudoteorias que flertam com o negacionismo, alimentam epistemicídios e reforçam visões essencializadas de raça e gênero.

O “eutivista”, expressão desse fenômeno, opera em função do engajamento algorítmico e da visibilidade imediata. Em vez de aprofundamento crítico, entrega discursos rasos que sacrificam consistência por alcance.

Nessa lógica, velhas ideias coloniais ressurgem com aparência de novidade, pautando o debate público por semanas, enquanto compromissos históricos com transformação social cedem lugar a afirmações de si.

É nesse mesmo terreno que floresce a “parditude”: apresentada como inovação, mas assentada em antigas engrenagens coloniais. Em vez de ampliar horizontes e criticar a branquitude, dilui e contesta identidades negras, enfraquece demandas por reparação. Retoma, assim, a lógica da mestiçagem, já reconhecida por sua tentativa de neutralizar a potência política do movimento negro a serviço da branquitude. 

Feministas negras vêm denunciando esse apagamento. Não se trata de expansão de perspectiva, mas de um discurso que cria zonas cinzentas e distorce a história dos movimentos e feminismos negros brasileiros. 

Ao tentar silenciar vozes como Lélia González, Abdias do Nascimento, Sueli Carneiro, Cida Bento e tantas outras, e ao deslocar o debate do legado nacional, a “parditude” tenta construir prestígio acadêmico e midiático sem entrega, escrita, vivência e compromisso com ancestralidade ou com as lutas já conquistadas. 

O perigo não é novo: como lembrou Winnie Bueno, Eduardo de Oliveira e Oliveira já criticava, nos anos 1970, a “contraideologia da mestiçagem”. Essa reflexão foi atualizada mais recentemente por Gabriela Barcelar em Contramestiçagem Negra e Colorismo, que tem usado suas redes para apontar semelhanças questionáveis entre algumas abordagens recentes da “parditude” e seu trabalho.

Não se trata de mera disputa acadêmica. Declarações de Beatriz Bueno, responsável pelo perfil “parditudes” nas redes sociais, têm sido interpretadas como ataques racistas e misóginos a figuras públicas negras, como no episódio contra a atriz Camila Pitanga. Além disso, deslegitimam experiências de mulheres trans em nome de um suposto essencialismo biológico de gênero, exatamente como tem feito em relação à raça.

Esses episódios não são casos isolados: compõem uma retórica que busca apagar a legitimidade da autodeclaração como tecnologia de afirmação das identidades negras e trans, substituindo a memória por ressentimento e necessidade de autoafirmação. 

Essa retórica encontra ressonância em espaços como a Matria, organização antitrans que, sob o pretexto de defender mulheres e meninas, tem sido apontada por especialistas e ativistas como alinhada a agendas que questionam direitos das pessoas trans e promovem concepções antigênero a partir da genitalização do gênero. 

A presença de Beatriz nesse campo reforça a convergência entre discursos revisionistas, individualistas, análises raciais superficiais e interpretações conservadoras, oferecendo uma roupagem intelectual a pautas de exclusão. Em texto publicado anteriormente aqui no portal, eu faço uma crítica sobre o quanto a transfobia é incompatível com a luta antirracista e o feminismo negro.

Não por acaso, a “parditude” vem sendo usada por setores da extrema direita como instrumento de infiltração em movimentos sociais. Como destacam Lia Vainer e Érico Andrade na Folha de São Paulo, representa um retrocesso no debate racial brasileiro: desloca o eixo das políticas de cotas e da reparação para uma abstração frágil, sem força prática. 

A categoria “pardo”, embora complexa, não pode servir para fragilizar políticas afirmativas que beneficiam o povo negro. Ao insistir em criar fronteiras artificiais entre pretos e pardos, o discurso da “parditude” fragmenta a solidariedade e reativa a ideia de mestiçagem como identidade nacional, como vem sendo denunciado.

O terreno explorado pela “parditude” e pela Matria é o mesmo: um público que se acredita perdendo espaço ante a defesa de ideais conservadores, ressentido, embebido em pseudoteorias e, ao mesmo tempo, ansioso por narrativas que validem sua oposição às conquistas do movimento negro e trans. 

Ambos reeditam uma gramática colonial que resgata categorias racistas como “mulata” e naturaliza a cisgeneridade como destino, oferecendo uma linguagem que se mascara de resistência, mas questiona avanços sociais.

O resultado é que esses discursos são apropriados, amplificados e convertidos em instrumentos políticos por setores conservadores que encontram nas redes sociais um campo vasto e sem barreiras algorítmicas.

O efeito é devastador. Sob a aparência de teoria crítica ou feminista, o que se fortalece é a engrenagem do racismo, do epistemicídio, do essencialismo de gênero e da transfobia. Em vez de somar forças às lutas antirracistas, a “parditude” – que não é nem um movimento e, tampouco, uma teoria – contribui para interesses coloniais da branquitude, que historicamente lucrou com a diluição da identidade negra e com o apagamento da diversidade de gênero.

O desafio é duplo: impedir que esse discurso capture nossos movimentos e, ao mesmo tempo, exigir rigor intelectual, memória histórica e compromisso ético com a ancestralidade negra e com as lutas das pessoas trans. Não se trata de detalhe — é condição fundamental para que a gramática colonial não volte a ditar os nossos horizontes.

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  • Bruna G. Benevides

    Militar antifascista, sargenta da Marinha brasileira, Travesti, feminista afrodescendente. Presidenta da Associação Naci...

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