Agatha Azevedo e Isis Medeiros, do Jornalistas Livres, para o Portal Catarinas.

Desde a tragédia provocada pela Samarco e da consequente mobilização dos atingidos de toda bacia do Rio Doce, há uma notável participação das mulheres em todo processo da luta por direitos. Com resistência e protagonismo, elas persistem para a construção de alternativas ao modelo de desenvolvimento, ainda que sejam as mais afetadas pela lama que invadiu a região da barragem.

Naquele dia 5 de novembro, às 16h, a barragem de Fundão estourou, despejando entre 55 e 65 milhões de metros cúbicos de resíduos, destruindo em poucos minutos Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, ambos distritos de Mariana, Minas Gerais. De madrugada, a onda de sujeira chegou à pacata cidade de Barra Longa (MG), desabrigando mais de 130 famílias que, desorientadas pela empresa, acreditavam que a lama não chegaria até ali.

No histórico do caso, militantes foram processados, comunidades foram fragmentadas e houve violação do direito à organização popular. Lideranças de toda a Bacia do Rio Doce estão sofrendo retaliações, perseguições e ameaças por participarem das mobilizações contrárias ao crime, principalmente as mulheres. As empresas não se abrem ao diálogo com os movimentos sociais e abandonaram diversos espaços de negociação coletiva, gerando ainda mais conflitos entre as famílias dentro das comunidades.

Ellen Dutra de Oliveira, da cidade de Cachoeira Escura (MG), conta: “As empresas lucram milhões e o povo atingido vive em completo descaso. O rompimento das barragens em Mariana (MG) foi um crime e em novembro completará dois anos, pois a justiça ainda não foi feita e o Estado continua sendo negligente a um caso que já é conhecido internacionalmente. Diante da tragédia ocorrida, o Movimento dos Atingidos por Barragens continua cobrando respostas e soluções das empresas sobre o que será feito em relação às cidades que foram afetadas de maneira direta e indireta, e que até hoje vem sofrendo consequências desumanas.”

Foto: Isis Medeiros

Os resíduos desembocaram no Rio Doce, atravessaram as comportas da hidrelétrica da Candonga, e percorreram mais de 800 km, atingindo uma população de mais de um milhão de pessoas que vivem ao longo da bacia e que, dela, dependem para abastecimento de água, pesca e agricultura. Após uma viagem de 17 dias, a lama chegou ao mar, em Linhares, já no Espírito Santo. Já se passou um ano e meio, pouco foi feito, e essa batalha ainda está longe do fim.

Porque as mulheres são as mais afetadas?
Segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), relatos de norte a sul do país mostram problemas como perda dos trabalhos geradores de renda, desagregação da comunidade, aumento da prostituição e da violência e diversos outros impactos particularmente graves para as mulheres. A mesma constatação apareceu em 2010 em um relatório do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana [atual Conselho Nacional de Direitos Humanos] sobre violações de direitos na construção de barragens: “As mulheres são atingidas de forma particularmente grave e encontram maiores obstáculos para recomposição de seus meios e modos de vida”, diz o documento.

Eliane é uma das mulheres que estão na batalha pela recuperação das regiões atingidas pela mineração da Vale, e para barrar novas operações e expansões de projetos na região. Ela, que é de Linhares- ES, trabalha para conseguir comprovar a degradação ambiental de sua região e também pelo reconhecimento dos impactos sanitários, ambientais e econômicos que a lama causou. Até agora a comunidade de pescadores gastou muita energia e dinheiro em remuneração de advogados particulares que não trouxeram resultados.

Dona Cenita, de Barra Longa, conta que para repor máquina de lavar que ela perdeu com a tragédia, a Samarco exigiu que a idosa de 69 prove incapacidade de torcer roupa. A empresa deu apenas um tanquinho para Dona Cenita e Chiquinho, que moram sozinhos, e agora dependem da ajuda de vizinhos para lavar a roupa ou se revezam para torcer suas roupas na mão. A empresa chegou a enviar uma assistente social para a casa do casal, que exigiu que Dona Cenita provasse se existia realmente necessidade do eletrodoméstico.

Foto: Isis Medeiros

Já Ellen Dutra, de 25 anos e moradora de Cachoeira Escura, um distrito de Belo Oriente (MG) que também foi atingido, conta: “Em Cachoeira Escura todas e todos ficamos sem água 12 dias consecutivos quando a barragem rompeu. As mães são as que mais sofrem, pois precisam dar água, comida e banho aos filhos. Era uma humilhação para conseguir pegar água mineral, muitas vezes horas na fila debaixo de sol e nem sempre conseguiam. Água dos caminhões pipa também era uma dificuldade. Houve muito desvio, motoristas que escolhiam as casas que iam abastecer (certamente a mando de alguém).”

A mulher ainda conta que quando a população voltou a receber água, houveram muitos casos de alergia, coceira, manchas pelo corpo, dor de estômago, diarreia e cólicas abdominais fortíssimas. E mesmo que o Ministério Público Federal tenha dito que a água do Rio Doce é imprópria para o consumo, Ellen conta que é essa água que chega às casas e às escolas até hoje.

Foto: Isis Medeiros

Se as famílias agrícolas tiveram a produção contaminada pela lama tóxica, o gado também foi morrendo na região devido aos metais pesados encontrados na água e no solo, e Ellen conta que nem a ajuda de custo da Samarco, que deveria amenizar a situação, funciona para as mulheres: Em todos esses lugares a Samarco dá preferência em dar o cartão apenas para o homem chefe de família, mesmo quando a mulher também pescava e/ou plantava. Acreditamos que a verba deveria ser individual, para cada membro da família que utilizava do rio para trabalhar antes do crime, independente de gênero, pois o valor da verba é insuficiente para suprir uma família e muito inferior ao que conseguiam antes pescando e/ou plantando.”

O peso do cuidado com as crianças recai ainda mais para as mães, que têm que lidar com os traumas que afetaram seus filhos e com a certeza de que estes estão indo para as escolas e consumindo água contaminada que pode levar a doenças neurológicas degenerativas e até câncer. Para Ellen, a vulnerabilidade das crianças, principalmente do sexo feminino, aumentou: “só pelo fato de ser mulher há uma dificuldade de ser reconhecida como atingida pelas empresas e de ter seus direitos garantidos. Em muitos locais ocorrem também aumento considerável de casos de prostituição, inclusive infantil.”

As famílias que foram deslocadas sofrem de um problema ainda maior: o trauma das crianças. Joana D’Arc Noberto, que era moradora de Bento Rodrigues e hoje está em Mariana (MG) , conta que a sua filha de 11 anos, Jamyle, teve uma drástica mudança em sua rotina, que afetou também o seu comportamento. Ela conta que a menina hoje em dia fica muito em casa, não faz as atividades que fazia e não tem mais o ânimo de antes.

Joana mantém a esperança de que Bento seja reconstruída, promessa das empresas para o mês de julho, mas que caminha a passos lentos. Ela ainda ressalta a dificuldade de mobilizar outras mulheres porque estão todas residindo em locais distantes. “No Bento a gente plantava tudo, meu sonho é voltar pra lá. Aqui tudo temos que comprar, estamos longe uns dos outros, quase não nos vemos, e é muito mais difícil a vida.”

Listamos algumas das principais violações ocorridas:

  • Caso de aborto em Bento Rodrigues: Grávida sofre aborto durante avalanche de lama, e ele não foi considerado uma morte ou sequer relacionado com o rompimento da barragem
  • Água contaminada, relatos de doenças, coceiras, alergias de pele e respiratórias, dores de estômago, de cabeça, infecção no útero. (As mulheres têm mais essa preocupação com os filhos)
  • Cartão entregue aos homens — não reconhecimento das mulheres no processo indenizatório. Além das inúmeras outras ainda não reconhecidas como atingidas pela Mineradora.
  • Em Barra longa (MG): Aumento do número de homens trabalhando dentro da cidade, nos espaços onde antes as mulheres tinham maior liberdade de circulação. Casos de estupro, aumento da violência contra as mulheres e da prostituição foram relatados nos municípios onde se concentram os trabalhadores das obras de contenção da Samarco/ Vale / BHP.
  • Violação da privacidade e intimidade:meninas e mulheres que tiveram que usar peças íntimas doadas

Saúde das mulheres e da família em risco
O contato dos rejeitos de minério contaminados com metais pesados como alumínio, chumbo, arsênio, mercúrio, com o solo e a água, fez com que aumentassem os casos de doenças e epidemias em toda população da Bacia do Rio Doce, como doenças respiratórias, doenças de pele, vômito, dores no estômago, diarreia e um destaque especial para doenças de origem psicológica como estresse, tristeza, e depressão grave, inclusive com tentativas de suicídio.

Muitas atingidas de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, em Minas Gerais, comunidades totalmente eliminadas pela lama, tiveram de deixar suas casas na roça onde viviam de plantações e criação de animais e hoje vivem em casas alugadas pela Samarco. Elas relatam estresse e cansaço, por terem que permanecer dentro de casa, sem opção de área de lazer e cultivo da terra, das plantas. Já se sabe que a ingestão e acúmulo desses metais no corpo, pode alterar as funções neurológicas e do coração, além de causar câncer e problemas reprodutivos, em especial às mulheres.

Foto: Isis Medeiros

A falta de água também causa sérias doenças, provocadas pela não higienização dos alimentos, do corpo e da casa. O que vem acontecendo é a transmissão do custo do “tratamento” pela empresa e órgãos responsáveis para os atingidos, que muitas das vezes buscam socorro em postos de saúde e hospitais públicos, que muitas das vezes não se encontram preparados para lidarem com os problemas relatados, apresentando soluções paliativas, que não resolvem o problema a longo prazo.

“Nós, mulheres pescadoras, ficamos o dia inteiro em contato com a água e, por isso, ficamos muito expostas. Aqui muitos sofrem de fome, e de depressão”, relata Eliane, pescadora da foz do Rio Doce no ES.

Ao longo de todo percurso da lama, é comum encontrarmos mulheres relatando o aumento de conflitos familiares e na comunidade, com isso o aumento dos casos de violências, causadas pelo aumento do alcoolismo, dependência química do uso de drogas e consequente agressão de companheiros e vizinhos. Algumas denunciam casos de violência sexual, psicológica e moral sobre as mulheres atingidas.

A rede de atingidos ressalta também que há ainda o aumento de DST’s — Doenças Sexualmente Transmissíveis, pelo fato de as cidades atingidas estarem mais cheias e tumultuadas. O relatório da Rede de Médicos e Médicas Populares constatou que a saúde das mulheres é a mais afetada. Principais responsáveis pelo cuidado da casa e da família, elas acumulam o peso de uma lama criminosa.

Foto: Isis Medeiros

Questão econômica: indenizações somente para os homens
Além da violação do direito à moradia, trabalho e informação, a política da Samarco e das outras empresas responsáveis pela tragédia, reproduz a lógica patriarcal de que a mulher não pode administrar as suas finanças.

O promotor Guilherme Meneghin conta que somente no município de Mariana, 345 cartões de compensação foram distribuídos às famílias atingidas em Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. Destes, ele calcula que em 20% dos casos a Samarco “agiu com irresponsabilidade, repassando o cartão e a chefia da família para a homem, ao contrário do que recomendamos”. Letícia Oliveira, membro da coordenação estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em MG, reforça a situação de desigualdade. “As mulheres foram as mais atingidas, muitas passaram a ser dependentes dos maridos, pois os cartões com verba de manutenção são destinados ao chefe da família, desconsiderando a mulher.”

Segundo o Ministério Público (MP), as empresas contrariam recomendações da Justiça e da ONU ao conceder o cartão auxílio — benefício dado pela empresa às famílias que sofreram com os danos da tragédia — ao homem do casal, quando a conta fica em nome da mulher da casa. Como os ganhos das mulheres eram vistos, na maioria dos casos, como complementares à renda das famílias, a tendência nesse momento é a perda de uma conquista importante na vida delas: a autonomia financeira. Muitas ainda não receberam o cartão, com o valor de um salário mínimo + 20% por dependente, que a empresa deveria pagar aos atingidos.

Houve também um aumento das tarifas de água, tornando-a ainda mais inacessível, e boa parte dos repasses das empresas não chegam até as mulheres, que não são vistas como trabalhadoras. Rosilene, ex moradora de Bento Rodrigues contradiz essa visão e explica que as mulheres que eram “somente donas de casa” eram exceção em Bento Rodrigues. Algumas trabalhavam fora da comunidade, principalmente nas terceirizadas da Samarco. Outras faziam crochê ou faxina, algumas até pegavam lenha para vender ou iam para o rio garimpar ouro. Fontes de renda que se perderam com a lama.

Não bastasse toda a luta das mulheres atingidas, elas ainda são vistas com preconceito em outras cidades, como em Mariana (MG), para onde boa parte das famílias foi compulsoriamente deslocada, e Barra Longa (MG) onde as meninas têm que lidar com a circulação de diversos funcionários homens, que tiram a paz e a tranquilidade de suas cidades e as constrangem.

Essas mulheres sofrem com um machismo patriarcal extremo e não terão seus territórios de volta. Um pedaço delas se asfixia dentro da lama que tomou a região.

Publicado também em Jornalistas Livres.

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