Foto: Arquivo pessoal

Que Miss sou eu? Miss escuta!

Postado em 19/11/2018, 8:46

Viola Davis em seu discurso como vencedora de Melhor Atriz do EMMY 2015, disse que o que separa as mulheres negras das outras é a oportunidade. Assim sendo, quem é do movimento feminista ou possui consciência de classe de qualquer grupo que seja, conhece que existem pessoas e desigualdades. Mas o que tem a ver isso com um concurso Miss?

Para melhor aproximação vou mostrar um pouco meu panorama estético de transexual. Em linhas gerais, ser trans é não se parecer com uma travesti. Quanto mais “passável” melhor. Leia-se passável como um alguém transexual que andando na rua os demais não identificam um corpo trans naquele espaço. Outro recorte a ser feito é sobre o ideal de corpo feminino, mas não comum, um superlativo de corpo. Muito peito, bunda, cinturinha, cabelão.  Tudo com um preço a se pagar. Frequentemente caro.

Ai então entra uma crítica: Nós trans reproduzimos um estereótipo de feminilidade que muitas mulheres cis tentam se libertar? Sim. Por opção? Quiseram eu ter opções. Amigas, Beyonce já enunciou em uma canção: Pretty hurts.

É doloroso para nós tanto quanto para vocês encontrar essa feminilidade ideal, entretanto, quão doloroso é ser chamado de traveco na rua? Um corpo perfeito, cheio de curvas é difícil de alcançar, porém, quão difícil é conseguir um programa sem esse corpo e menos ainda perspectivas de emprego para trans?

Então retomamos Viola quando ela fala de oportunidades. Se houvesse chance de ocuparmos espaços além da prostituição, como qualquer outra mulher, ainda precisaríamos tanto dessas categorias de feminilidade? E ainda, com a nossa realidade, reproduzir estereótipos é de fato uma opção?

Ser Miss Trans, nesse sentido é uma categoria de empoderamento. Mais do que ter consciência de classe é entender que o uso dos poucos espaço que temos faz total diferença para comunidade. Se esses escassos lugares a nós dados, sempre a custos tão altos, valem o preço de ser ou não ouvida, que opção eu tenho que não lutar por eles? Podem “Miss terioriotipar, mas pra quem não tem nada a perder qual o preço a se pagar?

Notas pessoais minhas como Miss Trans Maringá, representando a cidade no Miss Trans Paraná.
P.S: Sou de Floripa sim, faço sociais na UFSC.

*Naomi Neri, estudante de ciências sociais da UFSC Florianópolis representará sua cidade natal, Maringá (PR), no concurso de beleza Miss Trans Paraná, próximo sábado (24) em Curitiba, às 20h no Clube Dom Pedro ll. O concurso promovido pelo Transgrupo Marcela Prado, apesar ser da categoria Miss, foge um pouco da curva dos demais do gênero. O papel das representantes vai pra muito além da estética já que o principal foco do evento é o discurso sobre promoção de equidade e combate ao preconceito.

 

 




Bióloga, pedagoga e estudante de ciências sociais na UFSC, Naomi é pisciana querendo viver o melhor da última encarnação. Transfeminista e ativista LGBT tem um canal no YouTube "NaomiNamulher" pra discutir a demanda popular!
Veja a coluna da Naomi Neri