Colagem: @vulvalibre

Em tempos de pandemia, para quem é o seu feminismo?

Postado em 06/05/2020, 11:08

O nosso país vive uma hierarquia estagnada, na qual o topo é ocupado pelos homens brancos e a base pelas mulheres negras. Em tempos de pandemia da Covid-19, essas desigualdades ficam mais evidentes e apontam que as mulheres, principalmente as negras, são as que mais sentirão os efeitos econômicos.

O estudo “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça” do IPEA, que traz dados de 1995 a 2015, destaca que as mulheres negras possuem os piores indicadores em praticamente todas as áreas analisadas da pesquisa. São as mulheres negras que têm menos acesso à educação, os menores salários, são a maioria das trabalhadoras informais e também das desempregadas.

Além disso, a água, que junto com o sabão, é a principal ferramenta para nos protegermos da Covid-19 não é assegurada para milhares de mulheres negras no Brasil. Conforme o estudo “Mulheres e Saneamento”, realizado pela BRK Ambiental e Instituto Trata Brasil em 2018, 67,8% das 12 milhões de mulheres com acesso irregular à água tratada são pardas e negras.

As diferenças sociais e econômicas entre mulheres brancas e negras, portanto, são enormes. Porque além do sexismo, sofrem com o racismo. O que mostra que não podemos universalizar a categoria “mulher”. Como menciona Djamila Ribeiro no livro “Quem tem medo do feminismo negro?”, “se a universalização da categoria “mulheres” não for combatida, o feminismo continuará deixando muitas delas de fora e alimentando assim as estruturas de poder”.

A primeira morte pelo novo coronavírus no estado do Rio de Janeiro foi justamente de uma trabalhadora doméstica negra. Com 63 anos, ela fazia parte do grupo de risco da Covid-19 e mesmo assim teve que continuar trabalhando. Contraiu o vírus da patroa, que esteve na Itália e não avisou sobre a suspeita da doença. Mulher, que como Ribeiro apontou em sua coluna na Folha de São Paulo, não teve sequer o nome mencionado. Fiz diversas pesquisas e não encontrei o nome dela, o termo usado é sempre “doméstica”.

A realidade dessa senhora é a de muitas mulheres no Brasil, os Sindicatos das Domésticas vêm encontrando resistência por parte dos empregadores de liberarem as domésticas durante a pandemia. E quando falo domésticas, é porque 92% dos trabalhadores domésticos são mulheres, sendo que desse número, 63% são negras, conforme dados do IBGE de 2019. Além disso, só 27% das mulheres com esse tipo de trabalho tem carteira assinada, o que torna mais difícil ainda as negociações.

Se nós mulheres brancas nos dizemos feministas e temos em nossas casas trabalhadoras domésticas, a primeira coisa a se fazer nesse momento então, é deixar que essas mulheres fiquem em suas casas e que continuem sendo remuneradas. Essa é uma das primeiras ações. Mas, o que eu quero dizer principalmente é: Você assume a sua responsabilidade branca? Você luta contra esse “privilégio”? Você olha pelas suas irmãs negras?

Se você já está cansada de falar para os homens sobre a nossa luta e necessidades. Imagina, as mulheres negras, que como Audre Lorde fala no seu livro “Irmã Outsider”, também “precisam” nos educar diante de uma imensa resistência “a respeito de nossa existência [das mulheres negras], de nossas diferenças, de nossos papéis no que diz respeito à nossa sobrevivência conjunta”.

Colagem @vulvalibre na íntegra

Como ela complementa, “isso é uma dispersão de energias e uma trágica repetição do pensamento patriarcal racista”. Não podemos lutar com as mesmas armas de nossos opressores, precisamos encontrar nas nossas diferenças, formas potenciais de mudança. Pois, como mais uma vez a grande Lorde nos ensina:

“As ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa-grande. Elas podem possibilitar
que os vençamos em seu próprio jogo durante certo tempo, mas nunca permitirão que
provoquemos uma mudança autêntica. E isso só é ameaçador para aquelas mulheres que
ainda consideram a casa-grande como sua única fonte de apoio.”

*Mulher lésbica, feminista interseccional, Felipa Pinheiro é jornalista e acredita no poder da informação na luta contra o machismo, o racismo, a LGBTQI+fobia e qualquer outra forma de opressão. Sua atuação no jornalismo perpassa pelo jornalismo cultural e por temáticas voltadas aos direitos humanos.