Ilustração: Duda Nas/Revista Valente

Como o desequilíbrio entre vida profissional e pessoal tem deixado as mulheres para trás

Postado em 13/03/2021, 8:00

Por Nadiane Smaha Kruk.

Além das barreiras culturais ancoradas no tradicionalismo, existem algumas estruturas sociais que impedem as mulheres de terem as mesmas oportunidades que os homens, ou seja, impedem a equidade de gênero. A falta de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é um desses problemas estruturais, senão o principal.

Nós, ou muitas de nós, lamentamos por não dar atenção suficiente aos nossos filhos; por não conseguir ser tão competitivas profissionalmente ou, até mesmo, por colocar nossa saúde em risco devido à carga extenuante de trabalho. Essa, entretanto, não é apenas uma preocupação das mulheres, mas de todas as pessoas dispostas a exercer uma parentalidade consciente e responsável ao mesmo tempo em que batalham para desempenhar suas atividades profissionais com excelência.

No entanto, as mulheres são, na maioria dos casos, ainda responsáveis pela maior parte das tarefas domésticas, incluindo o cuidado com os filhos ou pais idosos. Como o trabalho não remunerado aumenta substancialmente com a parentalidade, a maternidade é apontada em diversos países como o principal fator da disparidade de gênero. Na Alemanha Ocidental, de acordo com Bertelsmann Stiftung (2020), enquanto os rendimentos ao longo da vida é 13% menor para mulheres sem filhos do que para homens, para as mães essa diferença é de 62%. Os pais ganham até 20% a mais do que a renda média dos homens sem filhos. Na Alemanha Oriental, graças ao sistema de creches implantado na época do regime comunista, essas lacunas são de 3% e 48%, respectivamente. No Brasil, as mães ganham até 40% menos do que as mulheres sem  filhos (PNAD, 2018).

Se as tarefas domésticas fossem divididas igualmente, alcançaríamos equidade de gênero? Terceirizar o trabalho de cuidado é plausível e desejável? No Brasil, principalmente nas grandes cidades, é comum que ambos os cônjuges trabalhem em tempo integral, sobrando pouco tempo para a vida familiar. Algumas crianças, a partir dos 4 meses de idade, ficam em creches ou sob os cuidados de babás das 7h às 19h. As tarefas domésticas são amenizadas com a contratação de serviços. Porém, isso nem sempre é economicamente viável para todas/os.

Quando o professor Peter Burke visitou a Universidade de São Paulo em 1986 percebeu rapidamente que havia muito mais professoras do que em Cambridge. Ele logo soube de uma das razões para isso: o trabalho doméstico e a limpeza eram feitos por empregadas domésticas. A equidade de gênero deve ser construída às custas das enormes desigualdades sociais? As mulheres com menor poder aquisitivo têm as mesmas oportunidades que os homens no mercado de trabalho?

No Brasil, quase metade das mulheres está fora do mercado de trabalho formal 47 meses após a licença-maternidade, e a maioria das demissões ocorre por iniciativa do empregador (FGV, 2016). Como consequência, muitas mulheres apelam para o empreendedorismo. De acordo com pesquisa realizada pela Rede Mulher Empreendedora (2019), os principais motivos para as mulheres abrirem o próprio negócio são ter mais flexibilidade de horários e mais tempo para a família.

 Na Alemanha, entre as mulheres mães de menores, em 2017 a porcentagem das que trabalhavam apenas em tempo parcial era de 69%, enquanto a de pais era de apenas 6%. Analisando os dados de diversos países, apresentados no Fórum Econômico Mundial 2020, parece haver uma relação inversamente proporcional entre a porcentagem de mulheres empregadas em tempo parcial e a percentagem de mulheres em cargos de liderança.

É possível que a atual estrutura de empregos favoreça o hiato de equidade de gênero? É difícil aceitar que a jornada de trabalho de 40 horas semanais adotada a duras penas, há mais de um século, ainda seja válida para os dias de hoje, em que o desenvolvimento tecnológico e a dinâmica urbana e social vêm sofrendo vertiginosas mudanças. Endosso o modelo de 30 horas semanais de trabalho como uma alternativa economicamente viável, principalmente quando são considerados os benefícios indiretos, de médio e longo prazo para o indivíduo e para a sociedade.

Considerada a nova doença do século, a Síndrome de Burnout atinge 32% dos trabalhadores brasileiros, o equivalente a 33 milhões de pessoas, segundo levantamento da International Stress Management Association (Isma-BR). Na Alemanha, 80% dos funcionários em tempo integral reclamam que estão constantemente sob estresse e 1 em cada 5 já experimentou esgotamento.

Algumas empresas já arriscaram reduzir a jornada de trabalho e muitas tiveram sucesso. Em novembro de 2017, a empresa Rheingans Digital Enabler foi a primeira na Alemanha a aplicar o modelo de 5 horas por dia, com uma otimização do tempo e dos processos, sem redução salarial e mantendo os demais benefícios.

Desde 2002, o centro de serviços automotivos da Toyota em Gotemburgo, Suécia, teve a jornada de trabalho dos mecânicos reduzida de 8 para 6 horas por dia, com pagamento integral. A mudança gerou maior produtividade, menor rotatividade de funcionários, menos falhas, maior satisfação e um aumento de 25% nos lucros. Existem também outros casos de sucesso na Espanha, Austrália, Áustria, EUA, etc.

O equilíbrio entre trabalho e vida pessoal está em voga. Os funcionários querem mais tempo para a família e para si próprios. Esta nova forma de valorizar o tempo provou ser apreciada, especialmente entre os Millennials, também chamada de geração Y. O tempo se tornou mais valioso do que o dinheiro.

 Um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal possibilitaria o retorno de muitas mulheres ao mercado de trabalho e supriria a carência de profissionais qualificados em diversos países. Além disso, permitiria a ambos os pais exercer a paternidade de maneira responsável e consciente, possibilitando também uma divisão mais justa das tarefas domésticas.

A diversidade no mercado de trabalho também é lucrativa. Segundo estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Produto Interno Bruto (PIB) mundial cresceria pelo menos 4% se o trabalho não remunerado fosse melhor distribuído entre homens e mulheres.

Um estudo de diversidade realizado em 2018 pela McKinsey em 12 países, com pelo menos 1.000 empresas globais, mostra que empresas com maior diversidade de gênero têm 21% mais chances de apresentar resultados acima da média de mercado do que empresas com menor diversidade.

É hora de mudança. A crise da Covid-19 aumentou a carga de trabalho das mulheres. Se a conta já não fechava na tentativa de conciliar trabalho e família, agora ficou ainda pior. No entanto, a pandemia nos trouxe oportunidade de reflexão. Nossos valores e prioridades foram colocados em xeque. Em tempos de home office obrigatório, uma janela se abriu para nos mostrar que o trabalho é uma parte importante da nossa vida, mas não a única.

*Nadiane Smaha Kruk é autora do livro “30 horas”. Engenheira, doutora em recursos hídricos e ex-professora do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).

Tags: , , ,



Portal de jornalismo especializado em gênero, feminismos e direitos humanos.
Veja a coluna da Portal Catarinas