*a autora escreve apenas em minúsculas para provocar reflexões sobre a linguagem e romper hierarquias em sua própria produção textual.

na semana passada, eu acompanhei in loco a eleição da deputada federal erika hilton (psol-sp) para a presidência da comissão da mulher, na câmara dos deputados. hoje, quase uma semana depois, todos já sabem o show de horrores que aconteceu ali. deputados e deputadas, do pl e do pp, se juntaram num bloco de ódio, vociferando ofensas contra uma deputada que, na média, apresentou mais projetos favoráveis às mulheres do que as deputadas da direita. 

segundo levantamento da agência diadorim, são mais de 20 propostas que incluem a licença maria da penha remunerada, políticas de prevenção à violência de gênero, direitos reprodutivos e de saúde, além de iniciativas de reconhecimento histórico de mulheres negras no livro dos heróis e heroínas da pátria.

erika foi eleita em chapa única, com 11 votos a favor e 10 votos em branco. nenhuma deputada conservadora apresentou candidatura própria para disputar o cargo. mais do que barrar o nome da deputada trans, as deputadas cis pareciam interessadas em transformar a eleição de erika em palanque para discursos transfóbicos e conservadores, usando a causa das mulheres mais para autopromoção do que para defesa de direitos.

clarissa tércio, deputada evangélica do pp de pernambuco, manifestou sua contrariedade ao nome de érika afirmando que é “um absurdo a presidência da comissão da mulher ser ocupada por uma pessoa que não menstrua nem nunca amamentou”. embora tenha mirado na transfobia, a deputada acertou na misoginia. afinal, existe algo mais perigoso para as mulheres do que serem resumidas ao seu suposto papel reprodutivo? 

foi em nome desse papel puramente biológico que mulheres cis foram historicamente subjugadas, violentadas, sendo colocadas socialmente como cidadãs de segunda categoria, supostamente inferiores aos homens cis. 

as mulheres se tornaram, através do olhar biologizante do patriarcado, o “outro”, o “segundo sexo”, como definiu simone de beauvouir.

hoje, quando mulheres ainda são resumidas ao útero, menstruação, parir, amamentar, etc., o que se afirma é que as mulheres que, por qualquer motivo, não possuam essas características ou não exerçam essas funções, são menos mulheres, mesmo que sejam cisgêneras. 

‘o conto da aia’, da canadense margaret atwood, deveria ter sido um aviso, mas acabou servindo como panfleto para muita gente. ao tomar a palavra após a onda de ataques que sofreu, a deputada disse: “eu quero me solidarizar aqui com todas as mulheres que, por qualquer motivo, precisaram retirar o útero ou as mamas. quero me solidarizar pelo preconceito que vocês sofrem quando um transfóbico reduz a mulheridade ao útero, menstruação, ter filhos e amamentar. várias mulheres, mesmo muitas que não são trans, também são colocadas nesse lugar de não-mulher, esse lugar da desumanização”. 

erika hilton, sem útero, é autora do projeto de lei 1621/2024, que aprimora o “programa de proteção e promoção da saúde menstrual”, incluindo nele mulheres e meninas vítimas de desastres climáticos e calamidades públicas. 

quem diria, para representar as mulheres não é necessário uma análise cromossômica, mas sim ter empenho e comprometimento com as lutas das mulheres. de todas as mulheres, sem exceções. 

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  • Lana de Holanda

    Mulher trans/travesti, escritora e comunicadora, com enfoque em gênero, direito à cidade e política internacional. Estud...

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