este texto será escrito apenas com palavras minúsculas, assim como já faço em todas as minhas redes sociais e na minha newsletter. há um bom tempo, gosto de pensar nas palavras, na linguagem, na forma com a qual nos comunicamos e como isso tudo constrói (ou desconstrói) imaginários. 

não gosto da hierarquia entre as letras, que faz com que umas sejam maiúsculas e outras minúsculas. assim como não gosto de hierarquias no geral, no dia a dia, na vida cotidiana. mas, se não posso romper com as hierarquias que me são impostas pela dureza da rotina, posso, ao menos, romper com elas na minha própria escrita. 

a linguagem, na forma que a conhecemos e exercemos hoje, foi criada pelos homens. pelos seres humanos, claro, que precisaram desenvolver técnicas de comunicação para o próprio desenvolvimento e sobrevivência da espécie.

mas, sobretudo, através do poder dos homens. o maior exemplo é o masculino genérico que temos na língua portuguesa. sete mulheres numa sala, apenas um homem, e ainda assim o termo “correto” para se referir a essas pessoas será “todos”, não “todas”. 

eu, particularmente, não gosto de “todes”, embora acho válido seu uso. considero justa toda forma de subversão do lugar comum que se tornou a hegemonia masculina nas nossas vidas. quando possível, eu prefiro usar “todas as pessoas” ou “todas e todos vocês”, ao invés de “todes”. são escolhas, e acho isso muito importante: que existam escolhas. 

que a linguagem não seja engessada, tampouco pasteurizada. linguagem é disputa. quem determina como a gente deve falar e escrever, é quem detém o poder. 

quem determina que as manchetes sobre feminicídio exponham as vítimas, enquanto ocultam os feminicidas? “mulher foi morta”, ao invés de “homem mata mulher”. quem faz essa escolha que aparece quase diariamente na maioria dos jornais brasileiros? são os editores, homens, que possuem o poder jornalístico de exibir ou de camuflar personagens. 

ter controle sobre as palavras é ter o poder de moldar a opinião pública e o imaginário social. e escolher mudar as palavras, ou nos insurgir através de letras e formas, é uma chance mínima de levantar um debate sobre como tudo isso é construído, tudo isso é escolhido, nada é natural.

por isso, talvez por rebeldia ou simples cansaço, abandonei as letras maiusculas. provavelmente, é apenas uma forma boba e patética de sentir que possuo controle sobre as minhas próprias palavras, sobre a minha própria voz (na sua forma escrita). mas, como tudo, é uma escolha. 

o masculino genérico não foi nos enviado por deus. a manipulação na forma de noticiar um caso de violência doméstica ou feminicídio, não é um fenômeno da natureza. são escolhas de linguagem feitas diariamente, conscientemente ou não, que anulam mulheres e suas histórias. então que nós, mulheres, possamos também construir nossas próprias linguagens – além de, claro, subverter a linguagem deles.

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    Mulher trans/travesti, escritora e comunicadora, com enfoque em gênero, direito à cidade e política internacional. Estud...

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