Quando eu aprendi a dançar, eu o fiz com um professor que vinha de uma linhagem de dança muito específica: ele havia sido aluno por muitos e muitos anos de uma mulher incrível chamada Renne Gumiel. Nunca me esqueço de uma viagem que fiz aos meus vinte anos para a cidade de São Paulo. Aquela emoção caipira de ir para a cidade grande, aquele medo do vai e vem da megalópole que me deixava tonta. Fomos conhecer Renée Gumiel e ver a gravação de uma cena do documentário Renée Gumiel- A Vida na Pele (2005), documentário de Sérgio Roizenblit e Inês Bogéa. A gravação daquela cena específica seria no Teatro Oficina. 

Eu me lembro perfeitamente daquela mulher, que pareceu ter vindo diretamente de outro planeta. Uma beleza e uma intensidade incomuns se desprendiam dela enquanto se movimentava. Ao mesmo tempo, parecia tão frágil em sua pele fina de velha, em suas sobrancelhas fortemente desenhadas quase na linha dos cabelos que conferia a ela uma expressão espantada.

Tinha quase 90 anos. O carinho e o amor com que todos ao redor a tratavam me comoveram profundamente. Aquele gesto de ir conhecer Renée foi um importante aprendizado sobre o honrar as origens, as linhagens de um conhecimento como a dança, poder ver de perto as matriarcas desses saberes.

Uma das histórias que mais me comoveram em relação à Renée é algo que não sei se foi inventado ou foi real, mas não tem nada a ver com sua trajetória artística. Essa narrativa ficou marcada em mim: alguém me contou que ela tinha tido um filho que deu um golpe nela quando já era idosa e havia passado por uma condição de saúde grave. Roubou todo o seu dinheiro e os seus pertences e fugiu para a França, país no qual Renée nasceu em 1913. Sumiu do mapa.

Deixou-a sozinha na cidade de São Paulo, em uma situação na qual mal podia sobreviver. Os alunos e os amigos a ajudaram a superar a situação. Renée dava aulas regulares de dança ainda naquele ano em que a vi. Até o dia em que faleceu estava em cartaz com o Teatro Oficina, dançando.   

Há de se ter cuidado com histórias de resiliência de mulheres abusadas por seus filhos ou netos, na qual fica o alívio da superação. A dançarina que se moveu até o final, mas será que ela não teria preferido poder desfrutar de uma velhice economicamente melhor e não ter que trabalhar até os 90 anos de idade?

É mais fácil, em nossa sociedade, enaltecer a mulher como guerreira do que responsabilizar os perpetradores de abusos. 

Ser mãe de seu abusador deve ser um espanto terrível: aquele de perceber que aquela criança linda que você cuidou para que não morresse em seus primeiros anos de vida agora é um ser irreconhecível: é capaz de manipular, mentir, enganar, abusar financeiramente, agredir física e psicologicamente. Como faz para se afastar de um filho violento? Algo nesse cordão umbilical tem que romper para dar espaço à força para conseguir sair dessa relação. 

Os feminismos ajudam a gente a reconhecer situações nas quais poderíamos gastar menos energia, tempo e diminuir danos. Por exemplo, nos ajudam a reconhecer um padrão de abuso. Ou perceber se você está conseguindo colocar limites entre o que você quer e o que você não quer e se esses limites são respeitados. Reconhecer a dificuldade em dizer não e procurar terapia. Superar o medo de ser julgada por “ser uma péssima mãe” e verbalizar essas situações para outras pessoas em busca de apoio emocional. Entender o momento de tentar parar de “salvar” esse filho querido e pensar em si mesma. Parar de se culpar. 

Conheço muitas histórias de filhos perdidos: esses que certas mães já perdem em vida quando percebem que eles não são pessoas com as quais se pode conviver ou confiar.

Que são pessoas que enchem suas vidas de toxicidade e problemas de ordem financeira, mental e emocional. Pessoas adoecidas que se recusam a procurar ajuda e cura. Tem o machismo dos filhos; tem o machismo da sociedade; tem uma visão distorcida de maternidade calcada no autossacrifício e na abnegação de si. O peso de tudo isso continua a sobrecarregar a vítima, ao invés daquele que comete o abuso.  

Acabei de ouvir o episódio de O Fio da Meada (podcast da Rádio Novelo) em que Branca Viana entrevista a juíza Vanessa Cavalieri. Em determinado momento ela chama a atenção para a quantidade enorme de mães e avós que pedem medidas protetivas contra seus próprios filhos e netos. Segundo ela, durante a pandemia, a violência migrou da rua para dentro de casa, aumentando muito os casos de violência doméstica e dando visibilidade a situações que ocorriam veladas dentro das famílias. 

Informações e histórias sobre filhos violentos sempre saltam aos meus ouvidos. É porque isso me toca em uma dimensão pessoal. Eu já pensei muito sobre esse assunto, já tive que ver essa situação por muitos lados para conseguir entender. Foram anos de raiva, depois uma certa aceitação e, por fim, algum repertório para saber como agir. É um terreno complexo, um planeta cheio de desafios  para quem vive o abuso e para todas as pessoas ao redor. 

O planeta do qual vinha Renée Gumiel era, para mim, o planeta da dança, das artes, da cidade grande. Eu vinha de outros mundos: eu havia nascido e crescido em uma ilha, então meu mundo era cheio de mar, de natureza, de vento.

Mas a sombra da violência de gênero é um território compartilhado por todas as mulheres.

Nem sempre são as mesmas situações, mas quase sempre são as mesmas bases: e conhecer isso deixa algo com o que podemos agir em busca de uma vida mais sã.

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  • Barbara Biscaro

    Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coorden...

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