Arte: Joanna Burigo

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas do discernimento: sem açúcar nem afeto

Postado em 01/02/2022, 9:41

Sem açúcar sem afeto

A celeuma ao redor da música “Com Açúcar, Com Afeto”, de Chico Buarque, mostrou o quanto somos facilmente pautados por conteúdo promocional e rápidos para culpar mulheres (e quanto mais se feministas) por decisões que sequer são nossas.

Mas não vou perder esta oportunidade de apontar que a feminilidade enfatizada (1) é pavimentada com açúcar e com afeto.

Isso é visível em muitos contextos e expressões, como na rima infantil que é senso comum no mundo anglófono e diz que “garotas são feitas de açúcar e tempero e todas as coisas boas” (“girls are made of sugar and spice and everything nice“). Seja em artigos acadêmicos de análise discursiva e semiótica ou na Wikipédia e outros espaços menos confiáveis da imensidão da internet, traços como doçura, carinho, sensibilidade, gentileza, passividade, modéstia, humildade, ternura e dedicação são constantemente citados como estereotipicamente femininos. Isso ficou muito marcado também, em 2016, com a exaltação da mulher “bela, recatada e do lar”, lembram?

A crítica feminista da feminilidade, refletindo o apontamento de Connell de que a feminilidade pode servir para enfatizar a hegemonia da masculinidade, importa e urge.

É excelente a síntese feita por Myra Macdonald e Josephine Dolan (2), que diz que se a feminilidade e os valores femininos na cultura patriarcal se referem a qualidades de aparência, comportamento e práticas convencionalmente atribuídas às mulheres. O pensamento feminista endossa fortemente a visão de que essas qualidades não só não são inatas, mas existem como construções ideológicas, definidas em oposição e/ou à serviço da masculinidade. Na cultura patriarcal, que atribui superioridade à masculinidade, apesar de a feminilidade ser constituída de características positivas, ela é desvalorizada sem açúcar nem afeto.

(1) conceito de RW Connell que explico em mais de uma das colunas Pílulas de Discernimento 

(2) em “Femininity and Feminine Values”, The International Encyclopedia of Communication (2013)

Os marmanjos e a garota de Ipanema

Outra oportunidade que não vou deixar passar nessa discussão situada na Música Popular Brasileira é a de apontar que, em 1962, quando foi lançado o mega hit Garota de Ipanema, Helô Pinheiro tinha 17 anos, e Tom Jobim tinha 35 e Vinícius de Moraes, 49.

A música é uma maravilha, por causa dela Helô Pinheiro teve uma carreira bem-sucedida, e até onde sei ela nunca enquadrou nenhum dos dois como abusivos, assediadores ou machistas e parece ter uma vida feliz e realizada. Mas dois marmanjos exaltando a beleza e sensualidade de uma menina é evidência objetiva e concreta do quanto naturalizamos pedofilia.

Reconhecer isso não é condenar Tom nem Vinícius, muito menos jogar pedras na linda Helô. Tampouco é cancelar a música, e ninguém aqui está sugerindo que ela não mais seja ouvida, pois é óbvio que todos têm direito a suas próprias opiniões e gostos, e a manifestá-los. Mas não podemos não concordar sobre os fatos, e dois homens feitos ganhando as paradas de sucesso global ao cantarem sobre uma adolescente gostosa é fato constitutivo da música Garota de Ipanema.

Não existe problema nenhum em ser linda e sensual, e qualquer pessoa de qualquer idade pode pensar isso sobre uma pessoa jovem. Daí a naturalizar o olhar desejoso do adulto na direção do menor, romantizando-o como sendo do amor e não do abuso, são outros quinhentos. Há uma diferença, e ela precisa ser percebida, pois não é só a indústria da música de um passado distante o que habilita homens a lucrarem com a naturalização da sexualização de meninas; até hoje o cinema, a TV e a moda são também bastante responsáveis por essa cultura.

Identidades e ideias risíveis

Finalizo a exposição de minhas opiniões sobre machismos e o cancioneiro nacional com deboche e autopromoção.

A confusão acerca das noções de “política de identidade” e empregos insidiosos e destrutivos do termo “identitarismo” feitas a partir da empáfia do “sujeito universal” me exasperou tanto que publiquei um longo texto explicando estes termos aqui no Portal Catarinas, intitulado “Identidades risíveis”, e que pode ser útil para quem, como eu, está cansada de ver preocupações genuínas com políticas públicas e corporativas baseadas em identidade sendo responsabilizadas por males sociais.

Não vou, no entanto, empreender o mesmo esforço para o termo “censura”. Deve ser suficiente apontar a perversão de sentido que é o conceito fantasioso chamado “censura feminista”. É risível achar que um movimento descentralizado e não institucionalizado como o feminismo teria o poder de censurar homens poderosos.

O patriarcado é um sistema multifacetado de dispositivos de proteção de homens cis, e fornece eyeroll eterno para mentes com lembranças. Haja paciência e sapiência para seguir desdobrando os ataques que vêm dos medos e desconfortos que sujeitos projetam ao serem desuniversalizados.

Ciladas da feminilidade

A crítica à feminilidade, se vem de mulheres padrão, é lida como hipocrisia; se vem de mulheres fora do padrão, é lida como recalque. E os critérios para essa acusação são tão subjetivos e patriarcais que frequentemente uma mesma mulher é enquadrada como as duas coisas.

Pintura íntima

Vida pessoal é material constitutivo de coluna social, e o sujeito que produz conteúdo sobre si nas redes produz também matéria prima para fofoca sobre si. É no mínimo intrigante o quanto esse interesse em estar no centro das atenções por conta de curiosidades da vida privada tenha nos tomado de assalto. Tenho achado cada vez mais cansativa essa pulsão da cultura influencer, de o sujeito se fazer visível pela via da amplificação de performances da própria intimidade.

Ainda assim, nenhum dos muitos bodes que tenho com as redes sociais se sobrepõe à alegria que me trazem as felicidades nelas compartilhadas pelas pessoas que amo. Saúdo com força as contradições da vida.

Limitação e linguagem

Descobri recentemente lendo um print de 2016 da série #PapoDeLinguista do Sérgio Freire que o Tupi apresenta o tempo de forma nominal, não verbal. Ele explica: “Em tupi existe o tempo do substantivo. Para isso, usam-se os sufixos RAMA (futuro, promissor, que vai ser) e PÛERA (passado, velho, superado, que já foi). Ybyrá – árvore. Ybyrárama – muda (a futura árvore). Ybyrápûera – tronco, toco de árvore (a ex-árvore, a árvore que já foi).”

Toda linguagem representa o mundo de formas particulares e, importantemente, diferentes. Em Tupi o conceito de tempo não é representado pela abstração de uma linha imaginária que vai do passado ao futuro; nesta língua, a marcação da passagem do tempo acontece pela observação da concretude das coisas.

É muito bonito, e também abre precedente para maiores reflexões, como a do comentário feito pela minha amiga linda Silvia Giovannoni Webster após ver meu story com o print do linguista, que apesar disso cá estamos, combatendo a ignorância de quem cria e aprova projetos e leis que impedem o alargamento da nossa linguagem para acomodar as existências que o português, calcado no binário de gênero, não dá conta de representar.

Gente limitada é também bastante limitante.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo