Yuri Tolochko, fisiculturista do Cazaquistão, se casou com Margot, uma boneca hiper-realista russa/Foto: Reprodução Instagram

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas do discernimento objetificação e feminilidade

Postado em 16/11/2021, 17:24

Na coluna “Pílulas de Discernimento”, Joanna Burigo traz pequenas notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político que estão em debate nos fóruns das redes sociais.

Piranha Pride 

Eu morro de saudades de uns quinze, dez anos atrás, quando Paris Hilton se vestia no pior estilo piranha pride e Gaga aparecia sempre tão monstruosa e parecia que o legado da Madonna, de subversão da feminilidade enfatizada, estava finalmente substituindo noções tradicionais de feminilidade branca.

Paris Hilton casou essa semana fazendo um cosplay tão forte de bela, recatada e do lar que mais parecia a Ivanka Trump. A Gaga nunca mais saiu daquela personagem uó de juntos e shallow now. E até a Madonna e a Pabllo Vittar e quase toda a blogueiragem influenza agora se parecem demasiado, tanto entre si quanto com uma espécie de versão “Mulheres Ricas” do Walter Mercado.

O Instagram realmente foi uma das piores coisas que aconteceram na nossa história recente.

Incel-stagram

A imagética de feminilidade enfatizada acentuada pelo Instagram é a culminação concreta do imaginário misógino da masculinidade incel. 

Homogeneização social

Harmonização facial é eufemismo para homogeneização facial. O que acaba acontecendo é que todo mundo fica igual, e com a maior cara de boneca inflável.

Male gaze

Eu digo que tenho, mas não tenho realmente saudades de quando podíamos simplesmente culpar os homens e as indústrias do cinema, da beleza e do sexo pela objetificação das mulheres. Mas ainda preferia fazer isso a fazer o que me vejo sendo obrigada a fazer agora, nestes últimos  anos (os anos de aceleração dos filtros do Instagram…), que é ter que criticar mulheres pelo tanto de afinco, tempo e dinheiro empregados na concretização material corporal do desejo de ser objeto de desejo do male gaze*. E mais: vender essa bonequização de nossas existências como se fosse empoderamento. Haja discernimento.

* Male gaze: termo cunhado em 1975 pela crítica de cinema Laura Mulvey, que veio a nomear um útil conceito para a teoria feminista: o ato de apresentar mulheres, nas artes, a partir de uma perspectiva cis-masculina-heterossexual, e para o prazer visual deste espectador.

Pense e dance

A febre das dancinhas pode (não só, mas também, e muito) ser compreendida como manifestação contemporânea da prática machista de, ao mesmo tempo, infantilizar e sensualizar mulheres. Aliás, a meu ver, este é o mais perverso dos dispositivos patriarcais, cuja função é subjugar nossas subjetividades ao prazer visual de homens, nos tratando antes de qualquer coisa como imagem agradável e inofensiva. Argh.

Atentas

O que eu gostaria de dizer para cada moça que se presta a parecer uma boneca inflável para o prazer visual de homens cis “””hétero””” é: eles não merecem, querida, deixa de ser tonta e foca em você.

Misoginia purinha

É misoginia purinha enquadrar como moralistas mulheres que questionam a objetificação feminina. Nem ligo pra esse enquadramento. Sou piranha com orgulho e alegria, de moralista não tenho nada. Mas pra joguete patriarcal não sirvo. E meu sonho é que todas as meninas e mulheres, cis ou trans, se livrem desse desejo submisso de agradar homem.

Plena consciência

Eu tenho plena consciência da minha aparência, e do quanto ela cabe no padrão de feminilidade que tanto crítico. Mas também tenho pleno entendimento de que o que a *feminilidade enfatizada* enfatiza é justamente a hegemonia da *masculinidade hegemônica*. (E quem postulou isso não fui eu, não, mas RW Connell na sua Ordem de Gênero.) É justamente por isso que me autorizo tanto a tocar fogo nesse padrão, uai.

O patriarcado é uma estrutura complexa, e a misoginia e o machismo são muito bem amarrados com a feminilidade, tão constituída de atributos positivos, como beleza e cuidado, que, mais frequentemente do que não, operam como dispositivos de negativação das nossas existências reais. A demanda pela melhoria, seja na aparência ou na capacidade de prover atenção, afinal, só está aí porque a ideia de que mulheres precisam “melhorar” é naturalizada.

Na nossa sociedade ser uma boa mulher significa ser bonita e querida, acima de qualquer coisa. E ai ai ai de quem não for. Então é preciso reconhecer que a feminilidade, embora não possa ser reduzida ao que o patriarcado faz dela, é, sim, instrumento empregado contra nós. Tanto é que nos coloca umas contra as outras quando ousamos questioná-la. Não podemos não dar conta disso, tenhamos “rostinho de filtro de Instagram” ou não.

Feminilidade como linguagem

Faço questão de falar sobre feminilidade como linguagem justamente porque não me interessa problematizar o sujeito da feminilidade, mas sim a objetificação do sujeito pela via do emprego acrítico da feminilidade. Discernimento, gente.

Feminino, feminismo

Eu falo da homogeneização da aparência e expectativas por cuidado das mulheres para apontar que existem padrões visíveis de uma feminilidade que enfatiza a hegemonia da masculinidade*.

O objeto da minha crítica não são as mulheres, nem os sujeitos da feminilidade, mas sim a objetificação e exploração (de qualquer pessoa!) pela via da feminilidade. O objetivo da minha crítica é o oposto de abrir precedente para achincalharmos mulheres por conta de escolhas.

Muito do engajamento que venho recebendo desde que fiz crítica aberta à prática homogeneizante da “harmonização facial”, que acaba por deixar mulheres com cara de boneca inflável, consistiu de comentários ridicularizando esta aparência, e de reiterações do que, pessoalmente, cada um acha feio ou bonito.

Mulheres podem ser o que quiserem, feias ou bonitas, fazendo ou não intervenções cosméticas; isso não é da conta de ninguém além da mulher que toma a decisão de fazer o que bem entender com sua aparência.

Eu critico a padronização porque vejo nela um exercício de homogeneização das nossas subjetividades a partir de características hegemônicas, supremacistas brancas, e composta por significantes de uma feminilidade que só faz sustentar o poder** dos homens cis.

Reduzir a crítica a procedimentos estéticos a “problemáticos por deixarem mulheres mais feias” é irrelevante, ou pior: tão misógino e machista quanto dizer que mulheres são mais bonitas naturalmente. Feminilidade e masculinidade não são naturais. Não são essência. Não são metafísicas. São construtos da hegemonia do patriarcado pela via de linguagens inscritas em corpos. Mulheres não existem para agradar ninguém visualmente, então de que serve estacionar a reflexão no que deixa as mulheres mais ou menos bonitas?

Não é para falar mal da aparência de mulheres que sou feminista. A atenção feminista está voltada ao que faz com que mulheres se ocupem tanto em manter as aparências, e em refletir acerca de quais aparências e práticas de cuidado são louvadas pela sociedade, e quais operam para reduzir a aceitação e apreço social por mulheres.

* Lembrando que masculinidade hegemônica e feminilidade enfatizada são nomenclaturas da Ordem de Gênero conforme a autora australiana Raewyn Connell.

** Inclusive o poder sobre liberdade de expressão da sensualidade, algo fundamentalmente humano que, se não vivêssemos numa sociedade fundamentalmente patriarcal, provavelmente veríamos homens cis hétero manifestando bem mais…

Bônus: raiva e cultura influencer

Nota sobre a relação entre emoções e sucesso na internet: a raiva é um sentimento altamente rentável. Não me refiro à raiva já processada e transformada em potência política, mas à raiva em estado puro, a que surge antes de qualquer racionalização, a que se manifesta em ímpeto, a que promove ações virulentas e que, por isso mesmo, paira no mundo de formas detrimentais…

Essa raiva que nos mobiliza a odiar é ouro para as redes sociais: uma pesquisa da Universidade de Yale publicada em agosto deste ano na Science Advances demonstrou que pessoas que empregam táticas raivosas nas redes sociais ganham mais adesão de público do que com quaisquer outras táticas comunicativas. E a pesquisa também observou que as redes sociais incentivam esse comportamento; mais de doze milhões de tweets foram analisados, e os usuários mais repostados e curtidos são justamente os que expressam ultraje com retórica inflamada.

Sendo assim, é não só prudente mas urgente que a gente desenvolva recursos, internamente individualmente, e externamente coletivamente, para não sucumbir à raiva que emana das redes sociais, seja a origem um comentário ou “cancelamento” feito por um influencer, ou uma “notícia” escandalosa e sem fonte confiável, ou o jorro de significantes de “disputa” “ideológica” inflamado por políticos e filósofos.

É mister lembrarmos constantemente que mobilizar raiva gera movimento, que fomenta engajamento algorítmico, que resulta em sucesso de público, que é o que quer o patrocinador. Lucros corporativos não se importam com coisas como ética e inclusão, mas sim com celebridade fazendo dinheiro acumular.

Já falei em outro post que a cultura influencer consiste de platitudes entregues via retórica inflamada com aparência de profundidade, e que coisas como educação e religião são usadas como plataformas discursivas com que se faz, na verdade, marketing pessoal.

Que a gente tenha muita atenção aos usos oportunistas da raiva, e saiba viver mais conforme a recomendação de Audre Lorde, de fazer usos políticos (ou seja, coletivos) dela.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo