Pessoas se reúnem para formar a bandeira da Parada do Orgulho LGBTQ+ em Sydney. Foto: REUTERS/Loren Elliott (Via g1).

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas do discernimento: amor, admiração e #OrgulhoLGBTI+

Postado em 01/07/2022, 18:41

Em Pílulas do Discernimento, Joanna Burigo – mestra em Gênero, Mídia e Cultura, professora no MBA em Diversidade da Universidade La Salle, coordenadora da Emancipa Mulher, curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk, e conselheira do Portal Catarinas e do Boleto+1 – traz notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político em debate nas redes sociais.

JUNHO, MÊS DO ORGULHO! 

No dia primeiro de junho de 2022 decidi que passaria o mês compartilhando diariamente, no meu perfil de Facebook, notas bonitas sobre “o vale” (gíria cringe para “a comunidade LGBTI+”). Junho é considerado o Mês do Orgulho LGBTI+ ao redor do mundo em referência a um movimento que aconteceu em 1969, em Nova York, conhecido como a Rebelião de Stonewall. A tarefa de escrever coisas boas diariamente sobre a comunidade LGBTI+ foi fácil, ao contrário da luta travada por Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, grandes mulheres no centro deste marco histórico transformador. E é em honra delas, por todas, todes e todos que o movimento segue.

Ilustração: Bernardo França, via Revista Galileu

Estas notas alegres foram compiladas para o portal Catarinas para que, durante todos os outros meses, a gente continue apoiando o ativismo em prol de todo mundo que não cabe nas definições limitadas e limitantes da cisheteronormatividade. A coluna é longa – são trinta dias de ativismo – mas está repleta de pessoas e trabalhos marcantes, dicas de filmes, livros e autores, marcos históricos da ciência e dos esportes, e toda sorte de informação. Aproveita essa leitura – e compartilha, gata.

01/06

Começou junho, e vou tentar escrever alguma lindeza sobre o vale todos os dias do mês. Será que consigo? Vou tentar, e vou começar com as sapatão, então, que é pra me inspirar a conseguir, porque se tem uma coisa que sapatão faz é fazer as coisas. Quem são as melhores pessoas, e por que são as mulheres lésbicas? A pergunta é retórica. Puro amor, admiração e #orgulholgbti!

02/06

Hoje quero lembrar que se não fossem pessoas queer o mundo provavelmente não conheceria os conceitos de camp e kitsch. Aproveito e compartilho o excelente “Notas sobre Camp”, da Susan Sontag, porque se tem uma coisa que mulheres e a população queer sabem fazer bem é cultura, bem. Quem são as melhores pessoas, e por que são as não estritamente cisheterossexuais?

03/06

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1,9% da população global seja composta por pessoas intersexuais, e há especulação sobre o número de ruivos globalmente chegar a 2% da população. Ou seja: se você já viu um ruivo, também já viu uma pessoa intersexual. Se você não sabe quem elas são, é porque a cultura cisheteronormativa as apaga. Bora educar os olhos para enxergar o pessoal intersexual brilhando? Quem são as melhores pessoas, e por que são as pessoas intersexuais?

04/06

Espero, do fundo do meu coração feminista, que todas as pessoas homofóbicas que eu e você conhecemos tenham um mês bem desconfortável por causa do glitter que a gente vai jogar na internet. Quem são as melhores pessoas, e por que são as ativistas debochadas?

05/06

Hoje venho com pesquisa de Belloc, Burigo e Duarte publicada aqui no Catarinas em 2020, que revela o crescimento relevante de candidaturas e representação parlamentar de pessoas travestis e transexuais: de 82 candidaturas (8 eleitas) em 2016 para 294 candidaturas (15 eleitas) em 2020, um aumento de 87,50%. Quem são as melhores pessoas, e por que são as parlamentares trans?

Arte: Bealake

06/06

Vamos lembrar dos atletas Dave Kopay, jogador de futebol americano que em 1975 se tornou o primeiro na National Football League (NFL) a se declarar homossexual, de Reneé Richards, a tenista que em 1977 passou a ser a primeira atleta trans a disputar um torneio feminino, e ainda no tênis, Martina Navratilova, que em 1981 assumiu a orientação sexual no auge de sua carreira. Quem são as melhores pessoas, e por que são esportistas LGBTI+?

07/06

Como dito na introdução, o mês de junho é celebrado por conta dos tumultos de Stonewall. Naquela madrugada a polícia tentou invadir um bar gay muito popular no Greenwich Village, e frequentadores reagiram com força, resultando em uma derrota humilhante para a polícia, e atraindo a atenção da mídia. No primeiro aniversário dos distúrbios, marchas ocorreram em NY, e também em Boston, Minneapolis, Chicago, São Francisco e Los Angeles, dando início ao movimento a que hoje damos continuidade. Quem são as melhores pessoas, e por que são as que lutam por direitos?

08/06

Você já ouviu falar de Sophia Louisa Jex-Blake? Ela foi a médica, professora e feminista lésbica que liderou uma campanha para garantir o acesso das mulheres à educação universitária, quando, com outras seis mulheres, que ficaram conhecidas como “As Sete de Edimburgo”, estudou medicina na prestigiosa universidade da cidade escocesa em 1869. Jex-Blake foi a primeira médica praticante na Escócia e uma das primeiras em todo o Reino Unido. Foi também uma das principais ativistas pela educação médica para mulheres, e esteve envolvida na fundação de duas escolas de medicina para mulheres, em Londres e Edimburgo, numa época em que nenhuma outra as educava. Fundada em 1874, a London School of Medicine for Women foi o primeiro e único lugar onde uma mulher poderia obter um diploma de medicina no Reino Unido por muitos anos. Entre a abertura e 1911, o número de mulheres médicas no país disparou de duas para 495, e o hospital que ela estabeleceu forneceu empregos para médicas e pacientes com atendimento de alta qualidade por 80 anos. Quem são as melhores pessoas e por que são as médicas queer?

09/06

Vamos listar direitos conquistados, já que muitos estão em risco. A Constituição Federal de 1988 assegura dignidade, mas o Brasil ainda é reconhecido internacionalmente pela intolerância e violações de direitos das pessoas LGBTI+. Para a gente não baixar a guarda é bom lembrar que foi com muito glitter e festa, sim, mas também com muita luta e articulação entre sociedade civil e parlamentares que foram emplacadas a criminalização da homofobia e transfobia, e a constitucionalidade da educação sobre gênero, que foram alcançados os direitos ao nome social, casamento e união estável, pensão e divisão de bens e herança, e adoção. Quem são as melhores pessoas e por que são as que batalham por mudança social pela via jurídica?

10/06

Hoje venho fazer não #publi do maravilhoso Museu Transgênero de História e Arte, fundado em 2019 por Ian Habib, homem trans, artista, escritor e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para “criar incentivos, ferramentas e alternativas à produção de dados sobre violências cotidianas às vivências transgêneras no Brasil”. O MUTHA possui dois arquivos principais, um deles on-line e gratuito sobre a memória da população trans. Quem são as melhores pessoas e por que são os homens trans das artes?

11/06

Trago esse desenho, que realmente não sei de quem é, do que parece ser um homem cis branco se equilibrando no que parece ser uma psicodelia de arco-íris, e onde está escrito: “Ah, as coisas que você vai precisar desaprender para ser uma pessoa minimamente decente!”. Quem são as melhores pessoas, e por que são as que não arregam pra cisheteronormatividade falogocentrada e supremacista branca?

Imagem: reprodução

12/06

Dia dos namorados e todos os outros dias são dias de celebrar todas as formas de amor. E a luta LGBTI+ é uma luta por todas as formas de amor. É uma luta por direitos relacionados a coisas como o amor. Para que as instituições entendam o amor para além da cisheteronormatividade. Para que a sociedade entenda a família para além da cisheteronormatividade. Para que as famílias cisheteronormativas entendam o amor fora da cisheteronormatividade. Para que as narrativas de amor fora da cisheteronormatividade ensinem lições de aceitação, respeito e alegria para quem só conhece a cisheteronormatividade, e por isso internaliza e naturaliza seus horrores. Não faz sentido, não é justo nem é bom que direitos relacionados ao amor (e aí constam direitos como os de união e casamento e regimes de bens, os de concepção, contracepção e planejamento familiar, de saúde sexual e tantos mais) sejam acessíveis apenas ou desproporcionalmente para pessoas cis e heterossexuais. A luta LGBTI+ é uma luta pela liberdade de sentir e agir em desejos mais amplos do que os contidos nas narrativas cisheterocentradas, inclusive o amor, em todas as suas manifestações, de afeto e intimidade a dignidade e inclusão. A luta LGBTI+ é pela ampliação da liberdade de amar, ser amado, respeitado e desejado de forma ampla: romanticamente, mas também pela família, por amigos, por outros afetos, e até nas instâncias institucionais, como no mercado de trabalho, na formulação de leis, na produção de conhecimento. A luta LGBTI+ não é uma luta só por amor. Mas é uma luta de amor, e bastante por amor. E falando em amor e amores, calhou de ser aos 12/06/2022 também a Parada Livre de Porto Alegre, evento organizado por uma turma brilhante de gente fina, elegante, sincera, de luta e de glitter. Quem são as melhores pessoas e por que são as que se organizam para reorganizar o amor?

13/06

Sigo animada com os registros diários de lindezas sobre o vale que decidi fazer até o final do mês. Hoje trago informações* sobre dois faróis da humanidade, cuja sabedoria e expressão escritas e faladas pavimentam caminhos para liberdade.

Audre Lorde, autodenominada “negra, lésbica, feminista, mãe, poetisa, guerreira”, fez contribuições duradouras nos campos da teoria feminista, estudos críticos de raça e teoria queer por meio de sua pedagogia e escrita. Entre seus trabalhos mais notáveis ​​estão “Coal ” (1976), “The Black Unicorn” (1978), “The Cancer Journals” (1980) e “Zami: A New Spelling of My Name” (1982). “Escrevo para aquelas mulheres que não falam, para aquelas que não têm voz porque ficaram com muito medo, porque somos ensinadas a respeitar o medo mais do que a nós mesmas. Fomos ensinadas que o silêncio nos salvaria, mas não”, disse Lorde uma vez.

Audre Lorde no Atlantic Center for the Arts em New Smyrna Beach, Flórida, em 1983. Foto: Robert Alexander/Getty Images.
James Baldwin. Foto: Ted Thai/Coleção de Imagens LIFE/Getty

​​Escritor e crítico social, James Baldwin é talvez mais conhecido por sua coleção de ensaios de 1955, “Notes of a Native Son”, e seu romance inovador de 1956, “Giovanni’s Room”, que retrata temas de homossexualidade e bissexualidade. O romance se destacou entre os críticos literários por apresentar personagens todos brancos, ao contrário dos outros romances do ativista dos direitos civis que centram as experiências nos negros. Baldwin passou a maior parte de sua carreira literária e ativista educando outras pessoas sobre identidade negra e queer, como fez durante sua famosa palestra intitulada “Raça, Racismo e a Comunidade Gay” em uma reunião do capítulo de Nova York da Black and White Men Together em 1982.

Quem são as melhores pessoas e por que foram Audre Lorde e James Baldwin?

(*Textos e fotos: NBC News. Versão em português minha.)

14/06

Um abraço bem apertado em todo mundo que teve, ainda tem e terá que conviver com familiares por quem não são verdadeiramente aceitos e amados. Gente que até finge que tolera, mas que não perde oportunidades de tecer comentários preconceituosos. Que abraça e diz que ama, mas que no fundo tem pena e/ou nojo. Que nos recônditos da intimidade, no fundo bem no fundinho, tem mesmo é medo da própria sexualidade.

Meu abraço de hoje (e todas as minhas palavras de luta, sempre) são pras pessoas de coragem e firmeza no coração, que não têm como evitar tristes convivências, mas atravessam a pura sobrevivência e decidem ser felizes nessa vida.

Quem são as melhores pessoas, e por que são as que tiveram que se ensinar – e aprenderam com louvor! – que dignidade, amor próprio e autoestima não podem depender do que pensam, dizem, falam ou fazem os homofóbicos que se apresentam como sendo da família?

15/06

Saúdo Alison Bechdel, cartunista americana conhecida pelos quadrinhos “Dykes to Watch Out For” e livros gráficos de memórias “Fun Home” (adaptado e agraciado com o Tony Award de Melhor Musical) e “Are You My Mother?”, por ser ganhadora do prestigioso Prêmio MacArthur “Genius” e por ter originado o “teste de Bechdel”.

Arte: Alison Bechdel

“A REGRA” – Quer ver um filme e comer pipoca?  

– Bom, não sei. Eu tenho uma regra. Somente assisto filmes que satisfaçam três requerimentos básicos. Um, tem que haver ao menos duas mulheres nele… Que, dois, falem uma com a outra sobre, três, algo que não seja um homem.

– Rigorosa, mas boa ideia.

– Sério. O último filme que eu pude assistir foi Alien… As duas mulheres falam uma com a outra sobre o monstro.

– Quer ir na minha casa comer pipoca?

– Agora sim.  

O “teste” é uma medida da representação das mulheres na ficção: ele pergunta se uma obra apresenta pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem. Parece pouco, mas até Wall.E falha — aplique você mesma o teste em livros e filmes que conhece e confira. (Leia também: Luz. Câmera. Gênero!: O Teste Bechdel, que escrevi para o CINEVITOR).

O “teste” obviamente não se originou como tal, mas como o diálogo visto num de seus quadrinhos, veja acima. Foi uma revelação que, desde que irrompeu, nos deu um instrumento prático e infalível com que romper com certas práticas patriarcais e misóginas na produção de obras narrativas e audiovisuais. Genius mesmo, dona Bechdel. Muito obrigada. Quem são as melhores pessoas e por que são as intelectuais sapatão?

16/06

O décimo sexto dia deste mês calhou também de ser um feriado cristão – Corpus Christi – e me regozijo na pesquisa do Datafolha de 2018, que achei no Guia Gay SP, e que diz que nós LGBTI+ somos 20 vezes mais ateus do que a população média brasileira, e somos 1/5 dos que compartilham essa visão (não) teológica de mundo no país. Outra maneira de olhar esses dados: no Brasil, 1% da população se identifica como ateia, mas esse número sobe para 20% por parte de quem se identifica, também, como LGBTQI+. Quem são as melhores pessoas e por que são as que não sucumbem aos terrores que mui facilmente estão atrelados à metafísica, sobretudo quando monoteísta?

17/06

Vamos novamente à política: você sabia que nas eleições para prefeituras e vereança nas câmaras municipais de 2020 o Brasil bateu recordes históricos de candidaturas e de eleição de pessoas LGBTI+ em todas as regiões do país? Este ano tem eleições novamente, e eleições gerais – então vamos bater recordes eleitorais mais uma vez elegendo deputades estaduais e federais, senadores e governadores abertamente LGBTI+? Vamos. Quem são as melhores pessoas e por que são as que votam LGBTI+?

18/06

Pessoas pan e bissexuais existem em configurações múltiplas. Ainda há muito a elaborar acerca das nomenclaturas da complexa teia de desejos e afetos que entrelaça a humanidade, e esse é um exercício que não raro causa desconforto. Mas pessoas devem ter autonomia para experienciar desejos e afetos não-cisheteronormativos sem vigilância e questionamentos sobre o que seriam seus verdadeiros desejos e afetos. Das trocas consentidas entre adultos quem sabe são os adultos que consentem as trocas. Quem são as melhores pessoas e por que são as que sabem que pan e bissexualidade não são bagunça?

19/06

Venho saudar as lésbicas do futebol. Sei bem o quanto elas vêm usando a combinação de imenso talento com a bola e enorme carisma atrelada ao esporte mais pop do planeta para elevar discussões e práticas sobre gênero. A notícia de hoje é que a futebolista estadunidense Megan Rapinoe fez uma defesa irretocável para a inclusão de pessoas trans no esporte. Ela disse, em entrevista para a Revista Time, que o esporte não é a coisa mais importante da vida, mas que “a vida é a coisa mais importante da vida.”

Com poucas e boas, Rapinoe muito candidamente relembra todo mundo que a vida das pessoas está sendo colocada em risco, que sujeitamos crianças a um maior risco de suicídio, depressão, abuso de drogas e pouca saúde mental por conta de uma visão de mundo limitante e limitada do pensamento conservador e religioso dominante, que prefere ser cruel com crianças trans a vê-las sendo felizes e fazendo coisas – como praticar esportes.

Olha lá se não é a sapatão mostrando pra todo mundo que a luta LGBTQI_ é pela vida, e tem no seu coração a saúde e bem-estar das crianças. Ai ai, essa Megan só bate bolão, danada! Quem são as melhores pessoas e por que são as guerreiras do futebol de mulheres?

20/06 Vou me exibir, e nem é #publi, mas já está indo para a sua terceira edição o MBA em Diversidade e Inclusão nas Organizações da Universidade La Salle – no qual tenho o prazer, orgulho e honra de ser professora da disciplina de Comunicação e Marketing para a Diversidade. O curso é composto por um time dedicado de professores, coordenadores e auxiliares administrativos e pedagógicos, que trabalham com alegria e dedicação a partir do desejo genuíno de ampliar conhecimentos e práticas para a inclusão e a diversidade. E as duas turmas pelas quais já passei chegaram até nossas aulas com fome, com sede, com garra, com energia, com criatividade e com muita vontade mesmo de fazer exatamente o mesmo. Me regozijo no aumento do interesse pela aquisição formal de conhecimentos produzidos sob a luz do rigor da ciência, e de boas práticas de gestão pautadas em dados que apontam para os benefícios da inclusão e da diversidade. Quem são as melhores pessoas e por que são as que querem mudança, e também se organizam, planejam, trabalham e estudam para a mudança?

21/06

Hoje falo da importância dos estudos queer, onde orientação e identidade sexual e/ou de gênero são (também) categorias de análise, e onde se sabe que papéis, roteiros, normas e tantas outras manifestações sociais marcadas sob a égide do gênero e acerca de sexo e sexualidade ocorrem para aquém e além de qualquer essência biofisiológica, e são sociais independentemente de natureza ou metafísica. Isso soa abstrato mas existe na concretude do real – e atravessa as vidas de todos nós. Quem são as melhores pessoas e por que são as que desvendam o caráter narrativo e normativo da cisheterosexualidade?

22/06

Vamos falar sobre siglas e bandeiras. Resistência e orgulho sempre existiram, mas foi a partir da Revolta de Stonewall que ganhou força isso que organizamos como movimento LGBTI+. Desde então vêm surgindo marchas de resistência ao orgulho lésbico, gay, bissexual, pansexual, transgênero, queer, intersexual, assexual, entre vários outros. As letras das tantas siglas representam  grupos de pessoas pela orientação sexual e/ou identidade de gênero. Pessoas são singulares e embora exista “o movimento” como um todo, grupos organizados por letras e bandeiras particulares têm reivindicações próprias. Quem são as melhores pessoas e por que são as que sabem que letras, bandeiras e símbolos são formas linguísticas de buscar e/ou marcar visibilidade, reconhecimento, distinção, respeito e desejo por igualdade em todos os espaços?

23/06

Sigo firme e forte nos registros diários de lindezas sobre o vale, e hoje é quinta-feira e vou de jabá e #tbt do Tem saída? Perspectivas LGBTI+ sobre o Brasil, livro publicado pela Editora Zouk, no selo #CDMJ, em 2020. Essa necessária compilação de vozes dos ativismos e pesquisas LGBTI+ eu tive a honra de organizar junto de Winnie Bueno, Andressa Duarte, Guilherme Gomes Ferreira, Tamires De Oliveira Garcia e Taynah Ignacio. A coleção Tem Saída? inclui dois volumes: Ensaios Críticos Sobre o Brasil e Perspectivas LGBTI+ sobre o Brasil, e ambos reúnem constelações de intelectuais que estão pensando e propondo alternativas para as múltiplas crises que enfrentamos como país, sempre a partir das perspectivas feminista e LGBTI+. Quem são as melhores pessoas e por que são as que sabem que têm saídas?

Arte: divulgação

24/06

Hoje não deu. No começo de junho resolvi escrever belas notas sobre o vale diariamente, em celebração ao mês do #orgulholgbti. Mas hoje não consegui.

Hoje o presidente do Brasil disse ser “inadmissível” que a menina que lutava por seu direito pelo procedimento de abortamento (que no Brasil é legal em qualquer ponto da gestação, quando em casos de risco de vida para a gestante, estupro ou anencefalia fetal) – e que, desde o começo dessa história de horror vinha sendo obstruída do acesso a esse direito por uma juíza perversa – tenha sido tardiamente, porém finalmente, amparada pela justiça e comunidade médica para acessar o direito que, repito, já era seu.

O presidente considera inadmissível que uma criança acesse seus direitos.

(Também hoje a suprema corte dos Estados Unidos revogou a decisão ‘Roe v. Wade’, que garantia o direito à realização legalizada e regulamentada de procedimentos de  abortamento durante os dois primeiros trimestres de gravidez nos EUA desde 1973.)

Quem são as piores pessoas, e porque são as que naturalizam a misoginia? A pergunta é retórica. Puro terror feminista frente aos horrores da manutenção do patriarcado.

25/06

Hoje venho jorrar aquele mangueiraço de glitter rosa em RuPaul’s Drag Race.

Um ano antes de Sasha Velour sugerir que incorporaria Judith Butler no Snatch Game, publiquei um texto sobre RPDR e performatividade. A drag acabou não interpretando a teórica no que penso ser um dos melhores quadros do reality show sobre queens, mas no episódio final da temporada 9 (2017) recebeu seu apoio num vídeo emocionante.

Em 2018 escrevi sobre o spin-off RuPaul’s Drag Race All Stars, e aproveitei a ocasião para costurar a série com o documentário Paris is Burning e Lady Gaga pela via da teoria queer de J. Jack Halberstam e linguística de Jean Baudrillard.

O programa mudou o panorama da mídia, e RuPaul famosamente se autodeclarou um gênio do marketing por vender arte subversiva drag para cem milhões de motherfuckers nesse mundo.

Quem são as melhores pessoas, e por que são motherfuckers que sabem o que significa sashay away e shantay you stay?

Ru Paul. Imagem: reprodução

26/06 

Ontem resgatei dois textos meus sobre RPDR, num dos quais menciono o documentário Paris is Burning. Hoje vou resgatar outro texto meu, sobre mulheres da indústria audiovisual, para saudar Janet Mock, pulso firme por trás de Pose (2018-2021), seriado genial e fundamental para a transgressão da cisheteronormatividade que fundamenta narrativas seriadas cisheterocentradas de que Nova York é palco. O texto celebra as igualmente geniais Michaela Coel e Phoebe Waller-Bridge. Aqui vai um trecho:

“São parte canônica dos estudos de gênero debates sobre representações da comunidade gay e trans negra e latina, cuja cultura da cena ballroom, inventada durante a violenta crise da Aids nos anos 1980-90 em Nova York, é fonte de parte significativa da linguagem, iconografia e tradições LGBTI+ da contemporaneidade. RuPaul criou um império midiático inspirado nessa era, e as intelectuais feministas Judith Butler e bell hooks famosamente discordam sobre Paris is burning (1990), filme da cineasta Jennie Livingston que documenta justamente esta cena.

Pose, a mais recente e bem-sucedida versão ficcional dessa importante história de origem, emplacou quando Janet Mock foi trazida para a produção de Steve Canals com FX junto dos soberanos da TV atual e remodeladores da narrativa queer na história do audiovisual, Ryan Murphy e Brad Falchuck. Janet Mock é a roteirista, diretora, produtora- executiva e autora de dois best-sellers autorais que, em 2019, entrou num acordo multimilionário histórico com a Netflix que a tornou a primeira pessoa trans a garantir um contrato geral com um grande estúdio, e no mesmo ano ainda recebeu seu Peabody Award e Television Academy Honors, dois AFI Awards e indicações ao Emmy e ao Globo de Ouro pela série.”

Quem são as melhores pessoas e por que são as Maravilhosas do Audiovisual?

27/06 

E agora, uma nota sobre as Paradas de Orgulho ao redor do mundo em 2022.

Muita gente foi às ruas no sábado (25) em La Paz (Bolívia), Cidade da Guatemala (Guatemala), Sydney (Austrália), Lima (Peru) e em muitas outras localidades. Tristemente, em Oslo (Noruega) o evento foi cancelado após um ataque a tiros que deixou mortos e feridos num bar na sexta-feira (24), e em Istambul (Turquia) a polícia impediu que centenas de pessoas se reunissem para a parada, fazendo dezenas de prisões, já que autoridades locais haviam proibido a realização do evento. Também no sábado aconteceu a trigésima edição do Dyke Day, um evento adjacente à Parada de NY para “lésbicas de todos os gêneros” (que, segundo as organizadoras da edição de Los Angeles, é “todo mundo exceto homens cis”.)

A Parada Livre de Porto Alegre foi no mesmo dia da Parada de Los Angeles, 12/06. E era lá em L.A. que estava estava nossa Anitta, no mesmo evento em que Christina Aguilera eternizou seu espírito camp, que reinará através dos tempos vestindo um cintar%lh0.

A Parada de Londres ainda está por acontecer, em 02 de julho – e a 26ª edição da imensa Parada do Orgulho LGBTI+ de São Paulo, que este ano aconteceu no dia 19, teve a temática “Vote com Orgulho – por uma política que representa”.

Quem são as melhores pessoas e por que são as que não falham em reafirmar seu o compromisso com a luta política?

Christina Aguilera no palco da parada de Los Angeles, em 12 de junho de 2022. Foto: MoPhoPix/SplashNews/SplashNews.com, via Daily Star.
Dyke Day em Los Angeles, 2022. Michelle Groskopf para The New York Times, via Instagram @nytimes.

28/06 

Hoje, há 53 anos, se dava o que ficou conhecido como Stonewall, uma sucessão de motins contra a brutalidade e violência policial na direção de pessoas LGBTI+ ocorrida nos arredores do bar Stonewall Inn, no Village, em NY. Considerado um dos eventos mais importantes na direção da organização de movimentos modernos LGBTI+, essa é uma história que merece ser contada através dos tempos. Ela também evoca outras histórias de outros espaços, que também merecem ser contadas através dos tempos. E foi para contar um pouco da história do drag no Brasil, que em 2019 convidei Abigail Foster – drag queen do meu amigo Gengiscan Pereira, pesquisador da cena – para esse all T no shade sobre drag brasilis. Te diverte, henny.

Abigail Foster – drag queen do pesquisador Gengiscan Pereira. Foto: arquivo pessoal

29/06

A nota do dia é uma dica que trago diretamente da Revista DIVA: 11 filmes LGBTI+ para ver depois do junho do orgulho. De clássicos cult a documentários emocionais, que tal assistir um por mês até nos encontrarmos novamente para a celebração de 2023? Aqui estão as sinopses de 11 filmes icônicos que retratam vidas queer (por Lucan Fairweather):

  1. Paris is burning (1990): o documentário narra a cultura drag ball underground de Nova York na década de 1980, uma proeminente subcultura LGBTQI criada por jovens afro-americanos e latinos. Dirigido por Jenny Livingston, o documentário é considerado uma peça inestimável da história, que explora raça, classe, gênero e sexualidade na América.
  2. A gaiola das loucas (1996): este filme de comédia americano é a versão em inglês do filme e musical franco-italiano La Cage Aux Folles. Robin Williams e Nathan Lane estrelam como Armand e Albert, um casal gay de meia-idade que é dono do clube drag de Miami The Birdcage. Quando o filho de Armand, Val, anuncia seus planos de se casar com a filha de um senador republicano, o casal abertamente gay tenta esconder seu estilo de vida para causar uma boa impressão.
  3. Nunca fui santa (1999): esta comédia romântica adolescente satírica é estrelada por Natasha Lyonne como Megan Bloomfield, uma líder de torcida que é enviada para um acampamento de terapia de conversão por seus pais para curar seu lesbianismo. Em vez disso, Megan se apaixona pela adolescente lésbica Graham, interpretada por Clea DuVall. Explora a sexualidade e a autoaceitação, bem como a aceitação das crianças queer pelas famílias. O filme icônico tem um culto de seguidores.
  4. Rent, Os boêmios (2005): este drama musical de rock é uma adaptação cinematográfica do musical da Broadway de 1996 de Jonathan Larson com o mesmo nome. A história segue a vida de um grupo de amigos “boêmios” no início dos anos 90, em Nova York, e suas lutas com a sexualidade, as drogas e a epidemia de AIDS na época. O filme também é estrelado por muitos do elenco original da Broadway. O aluguel ainda continua sendo um fenômeno cultural dentro da comunidade LGBTI+.
  5. Meus encontros com Amber (2020): esta comédia-drama irlandesa conta a história de dois adolescentes enrustidos na Irlanda de 1995, que decidem fingir um relacionamento um com o outro para esconder suas sexualidades em uma cidade rural cheia de homofobia. O filme comovente segue os dois personagens principais, Eddie e Amber, em sua jornada para aceitar seus self-queer.
  6. Revelação (2020): este documentário americano dá uma visão aprofundada da forma como as pessoas transgênero, particularmente as mulheres trans, são retratadas na mídia e as repercussões sociais disso. A experiência reveladora é estrelada por muitas pessoas transgênero que estão envolvidas na indústria cinematográfica, como Laverne Cox, Alexandra Billings, Chaz Bono e Lilly Wachowski.
  7. Orgulho e esperança (2014): esta história verídica segue os ativistas gays e lésbicas que ajudaram a arrecadar dinheiro para as famílias afetadas pela greve dos mineiros britânicos de 1984. O filme é estrelado por grandes nomes como Bill Nighy, Paddy Considine e Andrew Scott. A comédia-drama mostra a solidariedade entre os ativistas queer e os mineiros da época, e como o Partido Trabalhista incorporou os direitos dos homossexuais em seu programa partidário após pressão do Sindicato Nacional dos Mineiros.
  8. Moonlight: sob a luz do luar (2016): começando em Miami, no auge da epidemia de crack nos EUA, esta história segue o personagem principal Chiron em três fases diferentes de sua vida, nas quais ele luta com sua sexualidade, identidade e vida doméstica abusiva. O filme, que tem um elenco todo negro, foi elogiado como um dos melhores filmes do século XXI. Também fez história como o primeiro filme LGBTI+ a ganhar o Oscar de Melhor Filme.
  9. A morte e vida de Marsha P. Johnson (2017): este documentário de David France conta a história de Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, duas figuras principais nos distúrbios de Stonewall de 1969. As duas estiveram fortemente envolvidas no movimento de libertação gay e direitos transgêneros da cidade de Nova York, bem como na campanha anti-AIDS ACT UP. Também analisa a misteriosa morte de Marsha, originalmente considerada suicídio, apesar das circunstâncias suspeitas.
  10. Seahorse (2019): este documentário segue o homem gay transgênero Freddy McConnell em sua jornada emocional para começar uma família e sua decisão de carregar um bebê sozinho. A história íntima e comovente mostra Freddy se preparando para a concepção até o parto. Dá muita visão sobre as experiências e emoções das pessoas transgênero, bem como a reação da sociedade em relação às pessoas transgênero e os efeitos que isso tem.
  11. Rebel Dykes (2021): este documentário é um dos favoritos do QG da DIVA, e fornece uma porção essencial de história queer. Acompanha a vida de uma comunidade de mulheres na Londres pós-punk dos anos 1980, que se conheceram através da arte, da política e do sexo, e mudaram o mundo com suas atividades criativas e ativismo.

30/06

Finda junho, e com ele meus 30 dias de registros sobre o que há de mais belo e bom e justo no vale. E vou terminar resgatando um dos meus conceitos favoritos, e o mais potente veneno antimisoginia: o amor pelas mulheres proposto no “contínuo lésbico” da feminista, poeta, professora e escritora Adrienne Rich.

A sororidade pode ser pensada e definida de muitas formas.

Penso nela como as aplicações práticas de uma noção: a de que vivemos no patriarcado, e devemos desestabilizar o protagonismo dos homens a partir das alianças entre mulheres.

Sororidade pode ser pensada também como as próprias alianças entre mulheres que resultam na desestabilização do poder masculino.

Há anos penso no conceito de sororidade dessa maneira, e penso também nessa maneira de sororidade como sendo resultante do que Rich chamou de “contínuo lésbico”.

O contínuo lésbico é um conceito que não é sobre desejo, mas sim sobre a união política entre nós, e que promove e sustenta o protagonismo das mulheres sem a necessidade de balizar, pelos homens, as nossas empreitadas.

A sororidade do contínuo lésbico para mim é esta: a da aliança conscientemente antipatriarcal para desestabilizar o poder dos homens, priorizando a aquisição e distribuição dele entre nós.

E parte intrínseca desse contínuo – aliás, a razão dele ser chamado “contínuo” lésbico e não apenas “lesbianismo”, pensa bem – é amar as mulheres, nossas ideias, nosso trabalho, nossas visões de mundo, em toda nossa diversidade.

O conceito desliza da seara do desejo para se plantar na seara do sociopolítico, nos encorajando a desestabilizar o protagonismo que a sociedade patriarcal garante aos homens, balizando nossas ações e pensamentos em nós mesmas.

Rich famosamente escreveu que “as conexões entre as mulheres são as mais temíveis, as mais problemáticas, e as forças mais potencialmente transformadoras do planeta.” E euzinha aqui termino esses nossos trinta dias de ativismo com a pergunta do mês: quem são as melhores pessoas, e por que são as que sabem que sem tocar fogo no patriarcado, todo o resto é cosmético?

Adrienne Rich. Foto: CCBY 2.0 via Wikipedia

Termino um mês de registros diários orgulhosa com tantas notas positivas, e mais ainda que a compilação delas esteja sendo publicada no aguerrido Portal Catarinas, na forma desta coluna Pílulas do Discernimento Especial Junho LGBTI+. Quem são as melhores pessoas, e porque são vocês, Catarinas e simpatizantes? A pergunta é retórica. Puro amor, admiração e #orgulholgbti e feminista.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo