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Coluna da Joanna Burigo

Pílulas de Discernimento: puro suco de patriarcado

Postado em 20/09/2021, 15:38

Na coluna “Pílulas de Discernimento”, Joanna Burigo traz pequenas notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político que estão em debate nos fóruns das redes sociais.

Não atire no mensageiro

Tenho a impressão de que algumas mulheres odeiam o feminismo e as feministas porque são o feminismo e as feministas quem escancara o quanto as mulheres estão abaixo dos homens nas lógicas hegemônicas de valoração social.

Até entendo ser mais fácil odiar quem expõe o jogo em que estamos perdendo do que enxergar que o campo em que somos jogadas é minado. Mas se aluem, pô.

Gênero e feminismo 

Tratar de gênero apenas regurgitando conceitos, sem dar a eles os devidos créditos  (muito menos se dar conta da velocidade das voltas que o próprio discurso dá), possibilita a proliferação de estudos queer sem a devida fundamentação feminista, o que pode muito rapidamente levar estes estudos a operar nas lógicas hegemônicas patriarcais falogocêntricas, consequentemente atrapalhando o desenvolvimento do que o feminismo ainda apanha por ousar analisar. E suspeito que seja misoginia o obstáculo para as leituras que levam a esta fundamentação.

Desafios feministas

Um desafio feminista é, reconhecendo que o patriarcado se mantém também por artimanhas insidiosas, eliminar o puritanismo que acomete muito do ativismo de gênero que se pensa incontestavelmente progressista. O melhor dispositivo para essa tarefa é a dessacralização das coisas do corpo, e, para enxergar o grau de dificuldade dessa necessária empreitada, basta pensar nos discursos acerca de reprodução, maternidade e paternidade. Haja discernimento. Paciência, sapiência, fogo no patriarcado e senso crítico pra nós.

Fascismo no feminismo?

Quem já esteve em aula minha pode atestar: já há anos eu falo que RadFem TERF (Feminista Radical Transexcludente) e SWERF (Feminista radical que exclui as trabalhadoras do sexo) são o braço fascista do feminismo.

Aparentemente Judith Butler falou isso recentemente, e o Guardian censurou. Que fique aqui este registro, então.

Como explica este blog, várias horas depois de publicar uma entrevista com a lendária teórica Judith Butler, o Guardian excluiu vários parágrafos onde Butler e a entrevistadora Jules Gleeson discutem criticamente o movimento de gênero TERF (feminista radical transexcludente), uma ideologia de direita que se opõe aos direitos dos transgêneros e privilegia o “sexo biológico” sobre o gênero. Uma exclusão deste tamanho, pós-publicação, sem uma nota do editor, é muito incomum.

Ainda segundo o site, para Gleeson, entrevistar Butler foi um projeto de desmistificação de uma pensadora frequentemente descaracterizada, bem como de trazer suas ideias seminais para os dias atuais. A pergunta e a resposta sobre feministas anti-gênero e pensadores de direita não foram apenas um aparte curto. Elas colocaram a compreensão de Butler sobre identidade, o ponto central da entrevista, em relação a seus maiores críticos – e o debate político atual.

Butler mandou um e-mail para o Guardian perguntando sobre sua escolha de cortar a resposta, mas não obteve resposta.

Economia do cuidado

Todo mundo todas, todes, e sobretudo todos precisa reconhecer que deposita, em mulheres, a expectativa por receber cuidados. Nas séries Pose e It’s a Sin, por exemplo, essa expectativa inconsciente foi tornada explícita pela via de duas personagens, que são de suma importância para o bem estar das demais personagens das duas séries, mas cujas vidas pessoais, interesses, desenvolvimento e quetais sequer constam como preocupação dos e das roteiristas. Para a enfermeira Judy Kubrak, interpretada por Sandra Bernhard em Pose, e para a melhor amiga Jill Baxter, atuada por Lydia West em It’s a Sin, não foram criados arcos nem histórias; nas duas narrativas, as duas existem apenas para cumprir a função “maternal” de cuidadoras de personagens que ou não têm mãe ou têm com suas mães relações conflituosas.

Puro suco de patriarcado

O patriarcado cisheteronormativo supremacista branco não se instala por mérito. É à força mesmo. À ferro, fogo, exploração, estupro, genocídio, fetichização, escárnio combinados em jantares, como naquele do vídeo da nata coalhada do poder brasileiro zoando o Bolsonaro. 

#FemininoFeminismo

A #femininofeminismo que uso nos meus textos publicados nas minhas próprias redes sociais, e que nomeia o programa mensal que faço junto com Paula Guimarães no Instagram do Portal Catarinas (@portalcatarinas), existe, também e principalmente, como compilação do meu esforço para desestabilizar acusações sistemáticas, históricas e falaciosas de misoginia, moralismo e recalque comumente atribuídas às críticas feministas ao feminino. 

É importante que o feminismo se adone de léxicos sobre feminilidade, que exponha para implodir a feminilidade enfatizada*, e que estimule a criação de outras possibilidades do feminino e de do feminino e de ser mulher. É nessa difícil toada que estou. 

Quando faço críticas feministas à feminilidade ou à beleza não é para sugerir que uma ou outra sejam negativas, problemáticas ou detrimentais, nem que devam ser aniquiladas, muito menos que sujeitos devam abrir mão de exaltar as próprias.

Também é importante salientar que não equaciono feminilidade à beleza, apenas aponto que os discursos sobre feminilidade e beleza são atravessados por naturalização de práticas de controle e opressões, e que é preciso muita atenção aí.

O objetivo central da trajetória de educadora feminista sobre gênero em que me coloquei é expor que, apesar da lógica reprodutiva da espécie humana que, indiscutivelmente, exige gametas complementares chamados no senso comum de “feminino e masculino”, as formas como a gente reconhece e enquadra feminilidade e masculinidade não são próprias da natureza nem da metafísica, e se apresentam como linguagens.

Essas linguagens são importantes para a manutenção da ordem hierárquica e injusta de gênero, e penso que decodificar as primeiras ajuda a subverter a segunda. E com as feministas que muito se gabam de beleza e aparência femininas, seja com orgulho da própria ou em celebração da dos outros, o que a gente faz? Eu, pessoalmente, reviro os olhos em tristeza.

Quieta, na minha, sem fazer alarde (já que é muito normal confundirem críticas a mulheres e ao feminino com misoginia) (ou, nesses casos, com recalque…), lamento o ridículo todas as vezes que uma feminista bravateia a própria capacidade para cumprir requisitos da feminilidade enfatizada*.

Ora, se a gente sabe que o patriarcado gosta de mulheres submissas (“belas e recatadas”, afinal), e temos registro histórico do que faz com as dissidentes (alô “bruxa” como criação discursiva de demonização das feias ou profanas), por que insistimos ainda na exaltação desta submissão específica?

Feminismo como plataforma para performance de feminilidade é dissonância cognitiva.

Seja quem prepara o melhor jantar para o “conje” ou quem tem o look mais “instagramável” ou a bunda mais sexualmente livre, não há razão para nos ocuparmos de cumprir tais expectativas.

*Parte da Ordem de Gênero conforme RW Connell, é sustentáculo das masculinidades hegemônica e subordinada.

Imaginários feministas

Ainda é preciso contar muitas novas histórias e criar muitos novos imaginários. Precisamos muito de outros jeitos de representar mulheres, precisamos ainda de muitos jeitos de representar pessoas trans, precisamos de jeitos de representar pessoas intersexo, precisamos de jeitos radicalmente críticos de representar pessoas cis brancas, precisamos criar novas histórias e contar outros imaginários.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo