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Janelle Monáe acerta na temática (uma antologia da moda na américa) com esse Ralph Lauren futurista | Crédito: reprodução.

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas de discernimento: Met Gala – “o mistério do mundo é o visível”

Postado em 04/05/2022, 14:29

Em Pílulas do Discernimento, Joanna Burigo, mestra em Gênero Mídia e Cultura (LSE), conselheira editorial do Portal Catarinas e coordenadora Emancipa Mulher, traz pequenas notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político que estão em debate nos fóruns das redes sociais.

Mulheres e feminismo

Mulher porreta sempre existiu. O feminismo não existe para engendrar mulheres porreta. O feminismo existe para destruir o patriarcado.

Não tem como uma mulher, por mais porreta que ela seja, dar conta sozinha de derrubar o patriarcado. Na melhor das hipóteses, uma mulher, sozinha, consegue se proteger de alguns dos artifícios do patriarcado, ou arranhar alguma engrenagem patriarcal, ou interromper um dos muitos dispositivos de proteção de homens cis que o compõem como sistema.

Mas só o feminismo pensa no patriarcado criticamente como a estrutura social que é, e formula e oferece alternativas.

Discernimento, etc.

Dancinhas

O fenômeno de dancinhas de redes sociais realmente pode ser um barato. Dançar é massa, é uma atividade notoriamente social, cria comunidade e afetos positivos, gera endorfina e alegria. Ademais, é duro não ter no mínimo apreço por qualquer “desafio” que consiste de balançar o esqueleto de forma não competitiva, por pura diversão. Mas as dancinhas propriamente ditas, em geral, são muito enfadonhas.

Tudo nas redes sociais fica muito parecido muito rapidamente. É como se na internet existisse um equivalente da força centrífuga, que assola conteúdos contra a parede do rotor, amalgamando e achatando tudo. E as dancinhas são um bom exemplo disso: são sempre os mesmos passos, no mesmo enquadramento. É pá pá: coxa pra cima, pá pá: bunda pro lado, pá pá: passa o braço ao redor da cabeça, pá pá, bate palma e rebola. Ou alguma variação suave disso.

Entendo que, para viralizar, as coisas precisam ser relativamente fáceis e simples. No caso das dancinhas, fáceis e simples o suficiente para que as pessoas mais sem ritmo nem gingado consigam replicá-las. E tudo bem; não é ilógico reconhecer que conteúdos de fácil replicabilidade serão mais facilmente replicados, nem que existe muito potencial para diversão num processo fácil que envolve dançar. 

Mas as dancinhas virais, para aquém e além da distração e entretenimento que promovem, acabam por solapar diferenças.

Isso é recorrente na internet, e um exemplo além das dancinhas são os filtros, outro ainda os desafios sexy. E estes todos, de certa forma, culminam na maciça reificação do próprio feminino que enfatiza a hegemonia da masculinidade…

Virose

Antes de casar, tá louca, louca? Desenrola, bate e joga de ladinho! Desafio: quebrar estereótipos com gerador automático de trends. (A repetitividade homogênea retórico-estética das redes sociais é meu ranço de milhões.)

Falogocentrismo

Estou exausta com o péssimo hábito egoico e irresponsável de celebridades que, em suas contas nas redes sociais, confluem a própria fama e alcance com capacidade pedagógica.

A habilidade para ler, estudar e fazer notas não é garantia da capacidade de ensinar, muito menos com critério e rigor.

As leituras e notas que sujeitos (por mais inteligentes que sejam!) fazem de textos importantes não significam que esses sujeitos tenham, também, a formação para ensinar as teorias contidas nestes textos. Muito menos como elas conversam com outras teorias. Muito menos seus furos e contradições.

Hoje qualquer sujeito que atravessa as fronteiras do binário de gênero se arvora a ensinar teorias decoloniais, marxistas, feministas.

Respeitar as mulheres que pavimentaram esse caminho não respeitam. Seguem se colocando no centro. Falogocentrismo eles não querem estudar.

Charlatanismo

Você saber dançar no ritmo de samba não te torna passista. Não te torna sambista. Não te torna nem alguém que sabe sambar. Você é alguém que sabe dançar no ritmo de samba.

Você saber cantar sem desafinar não te torna cantora. Não te torna música. Não te torna nem alguém que sabe cantar bem. Você é alguém que sabe cantar sem desafinar.

Você fazer uma carbonara deliciosa não te torna chef. Não te torna um expert em culinária italiana. Não te torna nem cozinheiro. Você é alguém que faz uma carbonara deliciosa. 

Você ter perdido peso com uma combinação específica de dieta e atividades não te torna um preparador físico com especialidade em nutrição. Nem profissional da área. Não te torna nem alguém que deveria dar conselhos sobre o assunto. Você é alguém que perdeu peso com uma combinação específica de dieta e atividades.

Você ter lido Paul Preciado, meia dúzia de posts do blog da Sara Ahmed e textos da Butler na Folha não te torna especialista em gênero. Mal te torna estudante de gênero. Você é alguém que leu sobre o assunto.

E assim por diante.

O que autoriza pessoas sem qualificações adequadas a ganharem fama e fortuna ensinando sem o rigor que o conhecimento requer? Picaretagem sempre existiu, e não sei se a internet é só um novo covil para o velho charlatanismo. Mas haja discernimento para viver online.

Na base fundamental

O patriarcado (que é cisheteronormativo e supremacista branco) está na base fundamental de quase todos os problemas sociais.

Dinheiro, política, religião e imagem são frequentemente enquadrados como sendo a origem de vários problemas sociais, mas eles estão a serviço da manutenção da hegemonia do patriarcado. Estão no centro de muitos problemas sociais, indubitavelmente. Mas não são sua origem. São veículos que escamoteiam o mais fundamental e original abuso de poder: o cis masculino branco.

All that jazz

Por falar em cultura influencer, celebridades e mais do mesmo quando se trata de fama e fortuna, vocês já assistiram Chicago?

O filme, que completa 20 anos em 2022, é baseado no musical da Broadway de 1975, que por sua vez é inspirado numa peça teatral escrita em 1926 pela jornalista Maurine Dallas Watkins, pautada na vida real das criminosas cujos julgamentos e sentenças ela cobria para o Chicago Tribune. 

Ainda na era do cinema mudo, em 1927 a história fez sucesso sob a forma de comédia dramática produzida por Cecil B. DeMille e dirigida por Frank Urson. O sucesso foi repetido em outro longa, de 1942, dirigido por William A. Wellman, e estrelando Ginger Rogers no papel de Roxie. Há inúmeras versões bem sucedidas para os palcos, e a mais recente adaptação para a Broadway é também a estreia da estrela de “Baywatch”, Pamela Anderson, nos palcos musicais. Aos 54 anos, a gata fica entre 12 de abril e 5 de junho deste ano, como Hart, que ela chamou de “papel dos sonhos”. 

O simbolismo contido na narrativa de ascensão e queda de Velma Kelly e do desenho da carreira de Roxie, e o que o “soft power” do advogado Billy Flynn tem a ver com o sucesso e fracasso dessas suas duas clientes, é atemporal para a avaliação crítica dos jogos do patriarcado e do capital na indústria cultural.

E além disso, as músicas, figurino e deboche constante contra a moral e os bons costumes são deliciantes. Cinco estrelas. 

BBB 2022

Eu não assisti ao BBB 2022, assim como não assisti a nenhuma das edições anteriores do BBB. Notícias sobre o BBB, assim como notícias sobre o Elon Musk ou o Vladmir Putin, são notícias que recebo contra a minha vontade.

Mas fiquei sabendo que Arthur Aguiar, o cara responsável pelo aumento nas buscas online em março deste ano a respeito do significado do termo “gaslighting” foi o vencedor desta edição. 

O Met Gala e o Baile da Vogue

É possível escrever uma breve nota com perspectiva feminista sobre estas duas glamourosas festas, que já há anos movimentam celebridades, mídia e transações financeiras, ambas adjacentes à revista Vogue – que, muito mais do que uma revista, é ícone, índice e símbolo de status, luxo, poder e glória? Não uma breve nota. Mas faremos um breve registro mesmo assim.

As duas festas aconteceram nos últimos dias – o Baile de Carnaval da Vogue, na sexta-feira 29 de abril no Copacabana Palace na cidade do Rio de Janeiro, com o tema “Brasilidade Fantástica”, e o Met Gala na segunda-feira, 02 de maio, no Metropolitan Museum of Art de Nova York, este ano com o tema “Na América: uma antologia da moda”.

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Baile da Vogue 2022 | Crédito: Reprodução

O Baile da Vogue já acontece há 17 anos, e é uma festa dedicada à moda e expressões artísticas e midiáticas, recheadas de celebridades de A a Z, com apresentações musicais. Um tema diferente dá o tom à cada edição, e convidados precisam ir à caráter ao evento. Este ano, reporta Thaís Monteiro da meio&mensagem, o evento retorna celebrando a Semana de Arte de 1922 e o diálogo do Modernismo com a moda, arte, design e demais campos que a revista cobre em suas publicações editoriais” e com “uma postura mais consciente da publicação sobre apropriação cultural.”

A revista especializada do mercado publicitário considera o evento de 2022 —o primeiro em dois anos por conta da pandemia de Covid-19, e que superou as metas de patrocínio e teve faturamento recorde— “educativo“.

Já o Met Gala – ou, como ensina a Wikipédia, o Costume Institute Gala ou Costume Institute Benefit, ou ainda, o Met Ball é uma cerimônia anual de gala criada em 1948 como forma de arrecadar dinheiro para o então recém-fundado Costume Institute, instituto de moda do Museu de Arte de NY. A festa é parte do legado da ex-editora-chefe da Vogue EUA, Diana Vreeland, que serviu como “consultora especial” do Costume Institute.

Hoje, o baile mais sofisticados do calendário social da Big Apple é uma das principais fontes de financiamento do Instituto, tendo acumulado milhões de dólares desde que a legendária e atualíssima editora-chefe da edição estadunidense da Vogue, Meryll Streep em O Diabo Veste Prada, Anna Wintour, assumiu a presidência em 1995.

Mistério

Fecho esta coluna citando Susan Sontag citando Oscar Wilde – “São apenas pessoas superficiais que não julgam pelas aparências. O mistério do mundo é o visível, não o invisível”.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo