Foto: divulgação

Coluna da Antonilde Rosa

Na trama das tranças existem os saberes ancestrais matemáticos, artísticos e filosóficos

Postado em 03/04/2017, 16:59

No dia 8 de março, fiz o lançamento da série “Escritas de mulheres negras também importam!” cujo objetivo visa publicações de textos abordando sobretudo estudos, pesquisas e produções em geral de trabalhos desenvolvidos por mulheres negras, tanto no ambiente acadêmico, quanto nos outros lugares do cotidiano delas, em busca do reconhecimento das outras formas de saberes e assim, multiplicarmos os espaços e ampliarmos o eco das vozes das intelectuais da periferia igualmente!

Nesse mês as publicações serão exclusivamente com algumas mulheres negras que tratam especificamente com as temáticas das mulheres negras. Nesse projeto a autoria dos textos será das convidadas para que assim promovermos espaços de protagonismos e que haja representatividade, e garantir que cada pessoa ou  grupo seja protagonista de suas narrativas; de suas histórias!   

Hoje a minha convidada é a Luane Bento dos Santos Mestra em Relações Étnico-raciais e Docente de Sociologia. Ela compõe o grupo da primeira turma de cotas para negros no Brasil na UERJ. Esta política pública foi muito contestada e seus beneficiários humilhados no ambiente acadêmico. Nas Universidades houve e ainda há professores que sabotam e humilham os cotistas negros. Na UERJ alguns professores se recusaram a dar aulas aos negros ingressos pelas Políticas de Ações Afirmativas, ao ponto de, no curso de pedagogia, criarem no primeiro semestre de 2003, turmas separadas para cotista e não cotista. No curso de direito, um professor de processo civil, chegou até, inexplicavelmente, repetir todos os cotistas negros. No curso de letras um professor não quis dar aulas, segundo suas palavras, para “pobres e macacos”. No mesmo sentido, no curso de ciências sociais a professora de economia sempre afirmava que o desempenho havia caído desde que a política de cotas foram implementadas e durante sua disciplina reprovou boa parte dos cotistas.

A autora em sua dissertação de mestrado “Para além da estética”: uma abordagem etnomatemática para a cultura de trançar cabelos nos grupos afro-brasileiros” defende a tese as técnicas artísticas dos trançados expressavam inúmeros conhecimentos, saberes e fazeres que podíamos considerar matemáticos. Ela afirma ainda que; quem pensa que trançar cabelos é uma técnica corporal apenas, está enganado! Quem pensa que trançar cabelos é esconder o fio crespo, “os parentes africanos” é visceralmente abobado! Trançar cabelos é praticar um fazer artístico, trançadeiras desenham, modelam, transformam em artes pelos! Trançar cabelos é manter a memória de um fazer ancestral herdado de um trânsito atlântico não desejado mas ocorrido. Quem trança conta uma história, quem trança conta os fios, o espaço, as dimensões, intercalam e intercruzam. Quem trança faz matemática, a academia diz etnomatemática, entretanto quem trança não se apropria, quem trança domina conhecimentos que levam a comparações matemáticas. Trançar cabelos é carregá-los, dá-los procedimentos e sentidos, é a expressão de técnicas e ideias que são matemáticas.

Na trama das tranças!
Por Luane Bento dos Santos

Nasci na cidade de Niterói, estado do Rio de Janeiro. Sou a segunda filha viva de meus pais, minha mãe teve quatro gravidez, porém somente duas gestações de sucesso. Fui a primeira neta de minha avó paterna e durante dez anos a única neta. A felicidade pelo meu nascimento foi tanta que ao chegar em casa do hospital meus familiares pediam pra ver se eu era menina mesmo, havia dezesseis anos que não nascia uma menina na família de minha avó paterna. Minha chegada foi muito festejada!

A presença de minhas avós foi muito importante em minha vida, através das mãos delas tive meus primeiros contatos com as religiões de matrizes africanasꓽ Umbanda e Candomblé. Lembro-me de ficar encantada com os centros e terreiros que elas frequentavam. Segundo minha mãe carnal, eu sou a herdeira espiritual de minha avó materna, ainda estou por descobrir o que isso representa.

Minha trajetória escolar foi marcada por diversos traumas de origem racial. Considero que o ambiente escolar me fragilizou muito e os resultados podem ser evidenciados nas vezes que me vejo com baixa autoestima ou nas descrenças de meu potencial intelectual. Devido a isso, durante muito tempo fui uma estudante tímida, retraída e de poucos amigos (aliás até hoje sou de poucos amigos, pois sou muito desconfiada). Todo o meu ensino fundamental no município e no estado foi bastante constrangedor. A chegada ao ensino médio não modificou a situação de inferiorização. Porém, ao longo do ensino médio eu já me encontrava desconfiada da estrutura social, havia dentro de mim um profundo incômodo sobre a minha existência como negra.

Acredito que a diferença que ocorreu no ensino médio também se caracterizou pelo motivo de ter mudado de ambiente, mudando de escola. Cursei meu ensino médio numa escola pública de referência em Niteróiꓽ Liceu Nilo Peçanha.  Lá tive contato com dois professores brancos que sempre tocavam na questão racial brasileiraꓽ Professora Ângela de história e Professor Alexandre de Biologia. Eles não passavam nenhum trabalho sobre o nosso papel (o papel do negro) na história, mas sempre falavam da desigualdade racial e não permitiam em suas aulas por questões éticas brincadeiras racistas.

Penso que estes momentos e minha educação familiar que sempre pautou a existência de racismo e a necessidade de estudar para alcançar outra posição social, foram muito importante na minha formação e na busca que iniciei na universidade por construir uma identidade negra por vias positivas e afirmativas.  Dentro de casa aprendi a ouvir rap com meu irmão, quando eu tinha treze anos ele viajou para São Paulo e trouxe o álbum dos Racionais Mc’sꓽ Raio X do Brasil. Ali eu ouvi  pela primeira vez um discurso que denunciava todas as opressões que negros e negras, principalmente os jovens negros na periferia brasileira passavam.

Outro ponto que considero influenciador foi à preparação e entrada dele (meu irmão) na universidade. Ele não concluiu o curso, mas a felicidade de minha mãe ao vê-lo passar foi um incentivo para a minha determinação em entrar posteriormente e cursar uma faculdade.  Imagina a felicidade de uma mulher negra doméstica, que só estudou até a segunda série do ensino fundamental e trabalhava em casa de “família” desde os oito anos de idade, uma pessoa que passou fome, diversas dores e muitas humilhações ao longo de sua história de vida, poder  ver  seus dois filhos estudarem em uma universidade pública. Filhos que ela teve que criar sozinha devido ao falecimento de meu pai. Ela não teve apoio da minha família paterna e nenhum apoio da família materna destruída pelo racismo e viciada nos pensamentos e comportamentos destruidores pós escravidão.

Para sobreviver ao ambiente inóspito da UERJ eu fui junto a outros alunos negros compor coletivos de estudantes e ali naquela forma de organização negra pude aprender muito sobre o pensamento social brasileiro, sobre os negros, história e cultura africana e afro-brasileira. Entendo que fazer parte dos coletivos e associações negras, foi crucial para o desenvolvimento de minha pesquisa de mestrado. No movimento negro aprendi a questionar a estrutura e aprendi que na África surgiram as primeiras civilizações humanas. Por esses motivos, no curso de graduação busquei abordar as questões raciais que envolvem a construção corpórea negra pautada no cabelo. Escrevi o TRabalho de Conclusão de Curso intitulado “Para ficar bonita tem que sofrer!” ꓽ a construção de identidade capilar de mulheres negras no nível superior (2010), que  a meu ver teve um considerável  alcance, tendo em vista que foi citada em alguns textos acadêmicos e artigos como o de Marcele Feliz do Observatório de Favelas “Além do fioꓽ a estética negra e o racismo” (2014).

Para o mestrado eu não queria mais estudar como mulheres negras construíam suas percepções sobre corpo, conclui que nossas ideias sobre nossos corpos são atravessadas pelo racismo e daí resolvi articular as ideias vagas que tinha sobre a possibilidade de elaboração  matemática nos trançados para o mestrado. Como passei minha graduação em Ciências Sociais trançado cabelos, sempre procurei aprender as diversas técnicas de  penteados afro e nessa busca me deparei com um trançado que me levou a associá-lo a matemática do ensino fundamental. Então, pedi explicação a uma amiga trançadeira sobre o processo de construção da trança e ao vê-la desenhar percebi que havia elaborações de natureza matemática na técnica corporal de fazer tranças.

Após descobrir isto comuniquei a uma amiga que tinha o marido doutor em educação matemática, ele me informou que as associações que fazia eram etnomatemáticas. Naquele momento passei a pesquisar sobre etnomatemática e em 2011 junto a outros amigos me candidatei ao mestrado em relações étnico-raciais defendendo um projeto de pesquisa que previa estudar as tranças como manifestações artísticas de natureza matemática. No entanto, para a dissertação me fixei em abordar apenas os aspectos etnomatemáticos, de gênero e étnico-racial. A dissertação foi nomeada comoꓽ Para além da estéticaꓽ uma abordagem etnomatemática para a cultura de trançar cabelos nos grupos afro-brasileiros (2013). 

Adornar cabelos crespos com trançados tem sido uma arte praticada por diversas mulheres negras ao longo da diáspora africana. A arte de trançar cabelos, manipular os fios com agilidade e produzir belezas que rememoram a práticas ancestrais é um comportamento muito comum nos territórios que foram ocupados por africanos e seus descendentes. Mais comum é ver este ofício ser praticado pela figura feminina negra. São as mulheres negras as principais interlocutoras desta herança cultural. Elas sutilmente têm sinalizado para a sociedade brasileira, marcadamente racista, sexista, machista e classista, que é possível re-existir, se reconfigurar, mas não esquecer ou deixar de fazer um oficio ancestral. As mulheres negras carregam muitos conhecimentos que não notamos por não sabermos olhar, identificar ou  atribuir o que seja conhecimento.

Todas nós mulheres negras, trançadeiras, trancistas, cabelereiras étnicas quando trançamos, dividimos, mapeamos o cabelo, recorremos à geometria para fazer desenhos geométricos. Ouvi duas jovens mulheres negras que trabalham na cidade do Rio de Janeiro, por dois meses e etnografei no salão afro delas e pude constatar o que minha experiência particular e minha intuição feminina e ancestral me diziamꓽ o fazer das tranças é permeado por saberes etnomatemáticos. Imagina as tranças que muitas vezes doíam, podiam ser instrumento de ensino de matemática na escola e contribuir na redução da evasão escolar, principalmente na evasão escolar da população negra.  

Escrevi a dissertação “Para além da estética”: uma abordagem etnomatemática para a cultura de trançar cabelos nos grupos afro-brasileiros” e a defendi na instituição educacional CEFET-RJ por acreditar que as mulheres negras carregam muitos conhecimentos e que nossas práticas culturais rechaçadas desde o sistema colonial são de extrema beleza e cheias de saberes, somos arquivos vivos do desconhecido. Precisamos nos re-olhar, rever o que é nosso e que por século após século foi folclorizado, exotizado, colocado no lugar de ignorância e não civilidade. Não iremos re-inventar a rodar até porque nossos ancestrais já a iniciaram. Entretanto, precisamos desconstruir para construir com nosso olhar atento os saberes que carregamos. Nossas ancestrais escravizadas, vilipendiadas esperam por isso, nossas irmãs que vivem no que o Serviço Social chama de ponta, aguardam por outros espelhos.

Acredito que pensar o ensino, a educação com os elementos culturais negros e africanos não seja nenhuma novidade, tendo em vista as orientações das diretrizes e bases para a educação da história e cultura africana. No entanto, sofisticar a produção, esmiuçar os detalhes, é dar continuidade a luta e apresentar outras vias de pensamento, articulações e proposições sobre o que somos, o que fazemos e como fazemos. É urgente acordar para tantos saberes que trazemos e não dimensionamos. Tranças, trançadeiras e matemática são um dos exemplos, mas quando se trata do universo feminino negro, sabemos que os conhecimentos e as formas de existências são diversas.

Nossos passos são filosóficos, nossa lida é entranhada por um jogo de dar generosamente ao outro afeto. Mulheres que trançam transmitem afeto, ao enfeitar, ao possibilitar o outro se ver transformador, cuidado e acolhido. Não podemos deixar de descrever nossas estratégias de sobrevivência, manutenção do legado e o conhecimento como tem sido a prática de trançar cabelos nas famílias negras e mestiças, o uso das tranças como modo de sustentabilidade para mulheres que buscam autonomia e a utilização delas  para as mulheres negras militantes que estão desejosas por expressar os símbolos étnicos e identitários em seus corpos.

Abordar estes signos, símbolos, processos de linguagens, políticos e sociais é fantástico e com certeza abordá-los em busca das minúcias é bastante inovador e provocador. Por isso, é importante salientar quais ideias estão nas cabeças das trançadeiras, estas mulheres precisam ser visualizadas como portadoras de grandes ideias, pois elas conforme demonstrou a pesquisa referenciada acima, transladam conhecimentos abstratos que são perceptíveis para olhos treinados, porém são passíveis de aprendizados, na medida em que podem ser ensinados nos contextos familiares como notoriamente tem sido feito, bem como podem ser resgatados e levados para a educação de tantas à crianças, adolescentes e adultos que se traumatizam com o ensino de matemática por não saberem que dentro de seu contexto de sociabilidade negra há possibilidade de aprender e abstrair os teoremas escolares.

Nesta trama de saberes que envolvem as técnicas e práticas de trançar cabelos, alimento crenças que as atividades realizadas por nós mulheres negras são fortes candidatas para a concretização de nossos sonhos. Tais práticas podem possibilitar o aprendizado do que foi violentado, deturpado e deformado pelo marco colonial. Assim entendo, piamente que através de nossos fazeres podemos mostrar e trazer a leveza do aprender africano, afro-brasileiro, afro-diaspórico que não se impõe como verdade, porém se abre como uma possibilidade.

O mestrado não foi fácil, mas tive apoio financeiro, fui bolsista da FAPERJ.  Em 2012 me tornei mãe de Camilly e atualmente leciono no ensino médio nas modalidades de Educação de Jovens e Adultos-EJA, formação de professores e ensino regular. Dentre as atividades profissionais, domésticas e religiosas, tento permanecer na vida acadêmica. Ano passado prestei prova para o doutorado do Museu Nacional- UFRJ, infelizmente não passei na entrevista. Hoje mudando o foco e me encontrando mais e mais na educação e pensando o ensino de matemática, pretendo me candidatar para o Doutorado em Educação. e quem sabe, “ensinar a transgredir”, com diz Bell Hooks.




Antonilde é cantora, formanda em Bacharelado em Canto Lírico pela UFG. Ativista dos Feminismos negro,é integrante da Rede Sonora - música(s) e feminismo(s), do Atlânticas- Coletivo de Mulheres Negras da UFG e também do Coletivo Rosa Parks – que desenvolve Estudos e Pesquisas sobre Raça, Etnia, Gênero, Sexualidade e Interseccionalidades.
Veja a coluna da Antonilde Rosa