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Imagem: Unsplash.

Coluna da Marlene de Fáveri

Feminismo nosso de cada dia: por falar em direito ao orgasmo, é dia dele

Postado em 31/07/2022, 8:30

Domingo, 31 de julho de dois mil e vinte e dois. Estamos fartas de tantas violências de gênero nas nossas vidas provocadas pelo machismo estrutural e estruturante que se alastra na sociedade. Somos golpeadas diariamente com a retirada de direitos, miséria social, misóginia, racismo, homofobia, violências e outras mais. Um teatro de horrores cujos atores são, pamem, aqueles que têm o dever de nos proteger.  

Resolvi falar do direito ao orgasmo porque, na maioria das relações ainda é tabu e, a negação dele, uma violência. Na data de hoje, 31 de julho, é celebrado o Dia Mundial do Orgasmo, criado em 1999 por iniciativa de lojas inglesas ao detectarem que em torno de 80% das mulheres não sentiam prazer íntimo e sexual: o orgasmo. Para além do apelo comercial, para que serve esta data?  O assunto repercute e estimula debates sobre como estamos vivenciando nossos prazeres. O não direito ao prazer sexual é uma forma de violência? Afirmo que sim. 

Quanto da vida as mulheres se permitem olhar seu próprio corpo com erotismo? Não muito, conjecturo. Na cultura e na forma como fomos criadas e educadas não nos disseram que nosso corpo é também fonte de prazeres.

Pelo contrário: tivemos uma educação castradora de nossas vontades porque devíamos obedecer aos homens da família, casar com um homem e parir, zelas pelos filhos e aguentar o que viesse. Foi assim na geração de nossas avós, mães e muito da nossa, as que viveram pelo menos meio século. Quantas de nossas avós e mães casaram por obrigação, tiveram filhos em penca e faziam sexo como débito conjugal e sem vontade?

O mesmo débito conjugal que, hoje, o procurador da República Anderson Santos quer “recuperar no casamento”. É o mesmo que declarar o homem livre de qualquer culpabilidade sobre violências aplicadas pela desobediência da mulher em servi-lo. É o mesmo que defender o estupro em relações estáveis sem nenhuma preocupação com os desejos, o corpo e a vontade da mulher. É a naturalização das violências de gênero e do estupro na coisificação das mulheres. 

Quando foi que nos tiraram o direito ao orgasmo? Quando foi que o tornaram pecado? Pois o misógino Tomás de Aquino, pelo século 13, decidiu que as mulheres eram inferiores e pecadoras. Elaborou todo um conjunto de normas e comportamentos que elas deveriam seguir para serem boas católicas (situo o catolicismo e não desconsidero outras crenças).

Se na Antiguidade a mulher era vista como um ser intermediário entre o homem e o animal, como disse expressamente Aristóteles (principal filósofo grego e propagador das ideias helenistas), o cristianismo primitivo até tentou conferir dignidade moral e certa paridade de direitos às mulheres. Mas foi só de início e durou pouco.

Quando a poderosa Igreja Católica Medieval se outorga o comando das almas, e isso faz uns 700 anos, o pensamento de Aristóteles volta com força, e aqui entra o tal Tomás de Aquino (depois virou santo – santo?)  que, na Suma Teológica – no original, 1250 páginas manuscritas em letras bem miúdas em duas colunas – selou as bases da construção da vida moral, das paixões, dos hábitos, da beatitude, das ações humanas, seus vícios e pecados. Esse compêndio de ideias tornou-se a fonte mais consultada e reproduzida tanto que adquiriu autoridade, senão maior, igual da Bíblia. Nele, as mulheres são bestas a serem dominadas, castradas das vontades, renegadas, seu sangue menstrual é venenoso, demoníacas bruxas dadas ao sexo devasso. 

Ora, a Bíblia foi escrita quase mil anos antes de Tomás de Aquino publicar a Suma Teológica. Ele ignorou o Livro de Cantares onde se lê que paixão e prazer sexual são a base da união carnal. Está em Gênesis: “Sede férteis e multiplicai-vos!” pois que é quando o homemse une à sua mulher tornando-se os dois uma só carne” (1:22-24) O que eram a bodas senão o sexo da noite nupcial? “Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, corça de amores e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias”, lemos nos Provérbios, como podemos ouvir em “Orgasmo feminino: o que a Bíblia fala sobre isso?”. Não, o sexo não foi feito só para procriar, e nos primórdios do catolicismo estão os discursos de união com prazer no ato sexual: a união carnal é abençoada!

A religião, além de ser ‘ópio do povo’, escondeu os versos da felicidade orgástica e encerrou o erotismo no rosário de pecados. E das confissões de culpa nos confessionários. Daí em diante, foi ladeira abaixo.

O catolicismo comprou os discursos e partiu com tudo sobre as mulheres e seus corpos, malditas propagadoras dos mal, das pestes, da luxúria, sedutoras e malvadas, queimadas nos tribunais da Inquisição.

A quem servia essa filosofia? Para justificar inferioridades das mulheres, das pessoas negras, das aborígenes, das pobres, das prostitutas e de todas as origens étnicas e raciais que não servissem ao modelo branco, ocidental, patriarcal e eurocêntrico. Era o capitalismo a dar sua cara mais afiada na exploração do trabalho de outrem, e sem culpas. As energias para o trabalho e o sexo só para fazer bebês – futuros mão de obra a ser explorada no corpo e dominada a alma – sem prazer, evidentemente.  

Assim, alguns dos Iluministas construíram detalhadamente as diferenças naturais entre os sexos: os homens, dotados de razão, senhores de si, controlavam as emoções; já as mulheres, guiadas pela emoção, inferiores e, portanto, excluídas das profissões e dos direitos políticos e sociais. As ciências médicas, pelo século 19, apoiadas na filosofia, acreditavam que a instabilidade do sistema nervoso as tornava perturbadas, irracionais, descontroladas. O fato de possuírem útero, ovário, amamentar e menstruar as tornava frágeis e, sobretudo, histéricas. Portanto, amputaram-lhe também o direito ao prazer sexual. 

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A teoria do útero errante defendia que a histeria resultava dos efeitos neurotóxicos de um “útero frustrado” que procuraria gratificação através de movimentos erráticos na cavidade abdominal | Imagem: reprodução.

Então, o que foi destinado às mulheres? O confinamento nas funções de mães e esposas, obrigadas a casarem ainda na puberdade para não caírem em tentação já que eram dadas às luxúrias e, portanto, serem rigidamente controladas. 

Cá estamos nós brigando ainda por nossos direitos. O que tem a ver estas digressões históricas sobre o nosso orgasmo? Tudo. Não fosse a religião transformar o sexo em pecado, a filosofia dizer que era contra a ordem natural dos seres, as ciências médicas – e a outras, como a psicologia, a psiquiatria, a ciência criminal, a antropologia – dizerem que era patologia ou doença e histeria, por certo não estaríamos em guerras sem fim contra o conservadorismo que quer amordaçar nosso gênero e nosso sexo. 

Esses discursos vêm até hoje pelas vertentes religiosas – não é assim que os conservadores fundamentalistas e escrotos de plantão pregam?

O que é o texto da tal “escola sem partido” na exclusão dos temas que falam dos direitos das mulheres? O que é a demonização de uma criança estuprada aos dez anos por exercer o direito ao aborto? Como entender um médico estuprar a paciente durante um parto senão o ódio às mulheres? São aparatos ideológicos para que não tenham direitos nem dignidade nem prazeres.   

Então, como estamos saboreando nossos orgasmos? Esses mesmos que nos fazem transbordar e cair do andaime numa explosão de felicidade e prazer absoluto? Carlos Drummond de Andrade profetizou em sublime frase: “Quem não sente no corpo a alma expandir-se até desabrochar em puro grito de orgasmo, num instante infinito?” 

Numa palestra, eu falava da perseguição ao nosso gênero e sexo, porquanto aos nossos prazeres, e disse que o prazer mais bem acabado que conheço é o prazer sexual. Uma mulher argumentou que para ela há mais prazer no ato de embalar um filho, ter saúde, um marido, comer bem, etc. Claro, relativizo e respeito as escolhas e as formas de afetos bem como quem vive com alegria na assexualidade. Falei de meu lugar: meu mundo é erótico e a sexualidade tem lugar de prioridade. 

Variações sobre o mesmo tema, a busca pelo prazer pode se tornar obsessiva com a autocobrança de performances sexuais perfeitas e a autoexigência de orgasmo por penetração. Há estudos sobre a “ditadura do orgasmo” ou a obrigação de ter orgasmo com penetração em todas as relações desconsiderando a diversão e o erotismo, bem como uma “ditadura do Ponto G” que, sabemos, não existe.

Qualquer (auto)obrigação nesse sentido não é satisfatória, mesmo porque a sensação de prazer é pessoal, intransferível, íntima e envolve estímulo, parceria e cumplicidade. Acompanho as discussões propostas pelo perfil Sexo Amor e Psique que ampliam nossa forma de olhar e vivenciar a sexualidade.   

Uma pesquisa realizada em 2018 pela Escola Prazerela constatou que apenas 36% das mulheres brasileiras têm orgasmo durante o sexo. Para 74% delas, a masturbação é o melhor caminho para chegar ao clímax, e somente 16% afirmou que sente prazer na penetração. O que esses números revelam? Machões que ainda acham que o script falocêntrico é sua melhor performance, precisam se informar. Mesmo com tantas informações, ainda se reproduz uma educação que valoriza o falo viril e se apropria do corpo das mulheres e as comanda, o que reforça a masculinidade tóxica.

É significativo perceber que 59% das mulheres afirmam ter mais prazer quando vão além da penetração. Ou seja, o estímulo nas zonas erógenas, em especial a vulva, o clitóris, os grandes e pequenos lábios está no topo dos prazeres femininos, não desconsiderando que todo o corpo é templo de erotismo. 

E por falar em clitóris, este órgão tão desconhecido e importante na sexualidade das mulheres, é ignorado por grande parte dos homens (lembro que falo de relações hetero, mas não desconheço outras uniões afetivas). No documentário “Clitóris, Prazer Proibido” ficamos sabendo detalhes deste grão – que é divinamente divino – e todas as relações de poder e saber de homens das ciências, e das disputas em torno deste pequeno órgão acolhido na vagina das mulheres.

A quem o orgasmo feminino assusta? O orgasmo é político! Saiba que a palavra ‘clitóris’ está censurada no Instagram, pois a política de uso da plataforma proíbe conteúdos sobre sexualidade. No século 21! 

Por que homens ainda têm medo do poder da vagina? E do clitóris, porque fogem? Vamos lá: quantas vezes você, durante uma relação sexual, desejou que o parceiro usasse a boca e provocasse suas carnes, mas ele nem notou? Foi porque você não disse, não pediu, a culpa é sua. E foram as mulheres educadas para pedir, interferir, solicitar, falar sobre seus desejos? Não. Nossas bisavós, avós, e também nossas mães – com raras exceções – eram solicitadas no “dever conjugal” pelos maridos que metiam, mesmo sem lubrificação, gozavam e dormiam. Jamais uma mulher reclamaria, e, se o fizesse, seria punida. “Era triste e doía quando ele me procurava”, “eu fazia por obrigação”, “se não deixasse ele me batia” – foram alguns relatos que ouvi. E na nossa geração, mudou? Mudou, mas nem tanto. Os dados da Prazerela evidenciam tabus e medo e vergonha ainda. 

Vamos pela outra ponta: os homens de hoje conhecem o corpo feminino? Contam-se em poucas mãos parceiros que sabem lidar com a sexualidade feminina e conhecem como funciona.  As mulheres, ou uma grande parte delas, estão se informando, buscando conhecer o próprio corpo, elas conversam entre si, praticam a sororidade. E os homens? A imensa maioria não sabe onde mora o clitóris, do que se alimenta, que sua cor, como se reproduz, para que serve sendo evidente que o erotismo passa longe e o cuidado ali é zero. Se desconhece este lugar erógeno, vai saber estimular outros lugares do corpo? Não vai.

Então, o baixo índice de prazer sexual das mulheres, para além do desconhecimento do próprio corpo por razões culturais e religiosas, decorre do desconhecimento dos parceiros.

Fico pasma que tem homens que tiveram até três ou mais relações estáveis, estão separados, já nos seus pelo menos meio de meio século vividos, e não sabem nada de como funciona o corpo e o orgasmo feminino (por isso mesmo foram largados, ora!). Com tanto tutorial pelas redes, não é possível que não tenham curiosidade e não usem cérebro para se informar. Bah! Desculpem leitores e leitoras, mas é inevitável reclamar.  

Uma amiga disse outro dia que “se eles se esforçassem, não tivessem vergonha de aprender, perguntassem, se informassem, percebessem quando ela goza e valorizassem o orgasmo dela, eles seriam mais felizes, e ambos ganhariam”. Concordo. O índice de violências seria bem menor se os homens aprendessem a lidar com o corpo e a sexualidade das mulheres, haveria mais amor e menos guerra.

Pessoas felizes, realizadas nos afetos e na sexualidade, tem mais qualidade de vida, lidam com os problemas com leveza, produzem mais endorfina e riem mais. Acham pouco?

Meninos deveriam ser educados desde cedo para o respeito, e crescer sem a toxidez que os violenta na afirmação e cobrança de masculinidades nocivas, com o entendimento que todas as pessoas merecem ser felizes e compreendidas. E também meninas, a conhecer o corpo e cuidar dele e gostar-se. Aprenderem na juventude a serem pessoas atentas no cuidado de si e das parcerias afetivas e sexuais para serem, na idade da iniciação sexual, bons amantes. Isso é querer demais? O direito ao orgasmo é um dos direitos que as pessoas têm de serem felizes neste mundo. Como resumiu a amiga Urda Alice Klueger “o orgasmo é todos os dias”. Amei!

Bem, eu não disse ainda que para orgasmos não precisa de parceria, mas ter parceria para transar e não ter orgasmos é broxante. Portanto, faremos a revolução do orgasmo – as mulheres podem, junto com os homens, com outras mulheres, não importa. Todo orgasmo é revolucionário e quem goza é mais feliz! 

“Para as mulheres como eu, a integridade não é castidade, não é fidelidade, não corresponde a nenhuma das palavras antigas. Integridade é o orgasmo. É algo sobre o qual não tenho qualquer controle”.

Doris Lessing.

Marlene de Fáveri, 31 de julho de 2022. Domingo, Florianópolis. 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri