Mulheres palestinas em um centro de distribuição de ajuda da UNRWA em Damasco/Foto: reprodução

Coluna da Marlene de Fáveri

Feminismo nosso de cada dia (21) – as guerras e o ódio às mulheres

Postado em 06/03/2022, 13:42

Domingo, seis de março de dois mil e vinte e dois. Estou em Turvo na companhia de minha mãe, que necessita de cuidados. Já disse em outras crônicas como tenho aprendido a cuidar mais, exercitar a paciência e compreender a mulher que, aos 83 anos, resiste ao Parkinson, tem dificuldades de locomoção, se atrapalha nas datas e pergunta uma dezena de vezes por dia as mesmas coisas. Aprendi que responder de novo e de novo é uma forma de cuidado e respeito por sua condição e limites.

Minha mãe é uma mulher que viveu  a sina de muitas e muitas outras mulheres camponesas: não pode escolher seu destino e, como quase todas as mulheres de sua geração, esperava-se que casassem, tivessem filhos em penca e fossem boas donas de casa. E, como muitas e muitas delas, seus maridos foram educados para tratá-las assim mesmo, como mães, donas e casa e não como mulheres. Sofreram, como também minha mãe, violências morais, psicológicas, patrimoniais e, muitas vezes sexuais. Delas esperava-se obediência ao marido, e tiveram seus desejos ignorados.

Dia desses eu deitei com minha mãe até ela dormir, como tenho feito quando estou com ela e, como também sempre faço, a beijei no rosto, na testa, segurei suas mãos. De repente, ela fixou o olhar num detalhe longínquo da memória como se olhasse para o nada e, minutos depois, disse como que em confissão: “Teu pai nunca me deu um beijo”. Gelei. Emudeci e centrei nos afagos para que ela não me visse chorar. Ficou uma ferida que, se sangra em mim, imagino nos sentidos dela.

A cada vez que vemos um noticiário sobre a guerra, a única guerra que aparece nas mídias, minha mãe se compadece e diz “Meu Deus, quantas crianças no meio dessa guerra! Quanto sofrimento para as mães!” Expliquei a ela que esta que vemos é entre países da Europa mas que outras guerras estão acontecendo no mundo em países como Iêmen, Somália, Síria, Afeganistão, Etiópia e Palestina, para citar algumas – nas quais as mulheres, as crianças e as pessoas idosas são as que mais sofrem dos bombardeios, ataques, tiros, corpos mutilados, fugas, das partidas para campos de refugiados, das perdas materiais, dos abandonos, das violências dos estupros, de fome e sede, sobretudo das perdas humanas.

Disse-lhe sobre a crise humanitária no planeta e da desigual distribuição de renda bem como das vacinas contra a Covid-19. Expliquei que, no Brasil, 53 milhões de pessoas hoje passam fome e esta é outra guerra na qual  mais de 20 milhões de mulheres estão vivendo em situação de vulnerabilidade e fome.

“Por que isso? Por que guerras? Por que tanta fome e miséria”, perguntou ela. Demonstrações de força bélica e domínio do mundo por algumas potências que matam sem culpa para ter mais poder, mais dinheiro, mais matéria prima, disputas por mais território, mais exército de reserva emburrecido, mais acumulação de capital, para vender mais armas, por conflitos políticos e ideológicos e étnico raciais, e que isto é fascismo que verte nos ventres mais podres da humanidade. Ela ficou pensativa e depois disse: “O que será de meus netos e netas? O que será das crianças?”. É, mãezinha, o que será de todos nós num futuro próximo?

Mas, quem produz as guerras? O sistema do patriarcado afirma-se numa cultura da violência na qual os homens devem demonstrar força, coragem, destemor, macheza e honra patriótica.

Jana Rambow nos mostra que “A cultura de violência, pautada na virilidade, cria um interesse maior por armas, e assim, o patriarcado e o militarismo dão “insumos” um ao outro” e que “servem como instrumentos de dominação numa sociedade patriarcal”.

Estas prescrições de gênero exigidas dos homens são estimuladas, soldados mortos são laureados com honra heroica, generais recebem medalhas, viram nomes de ruas e monumentos, ou seja, as guerras aparecem nos livros como coisa de homem e sempre do ponto de  vista masculino.

E as mulheres? Elas estão no enfretamento com todas as perdas, medo, na guarda dos filhos, busca de alimentação e cuidados com feridos. Não esqueçamos que mulheres também estiveram nos campos de batalha, como por exemplo as mais de um milhão delas que estiveram nas linhas de frente  no Exército Vermelho combatendo as tropas nazistas, como demonstrou Svetlana Aleksiévitch na obra A Guerra Não Tem Rosto de Mulher.

Nesta semana, indignadas e perplexas, ouvimos áudios indigestos do deputado Arthur do Val (Podemos, SP) com frases machistas, sexistas e desrespeitosas para com as mulheres ucranianas – “Elas são fáceis, porque são pobres” e que “nas cidades mais pobres, elas são as melhores”, dentre outras representações de dar ânsia de vômito. É revoltante o tratamento do homem/branco/abonado para com mulheres em situação de guerra e de extrema vulnerabilidade. É inaceitável.

Sabemos que, em áreas de guerras e conflitos, meninas e mulheres sempre foram e continuam sendo vítimas de estupros e violência sexual como arma recorrente para desmoralizar pessoas, famílias e a sociedade. Estuprar é a prática imunda de desonrar o inimigo através da violação dos corpos de suas mulheres e meninas – foi assim nas duas guerras mundiais, no Vietnã, na Coréia, no Paraguai e em todas as demais guerras.

Na Iugoslávia, por exemplo, além de todas as atrocidades, havia “campos de estupro” onde as mulheres eram obrigadas a ter relações sexuais com vários soldados à exaustão e, grávidas, ficavam presas por meses até a impossibilidade de abortar. Era a forma de promover a “limpeza étnica” e a possessão das mulheres como símbolo do sucesso masculino sobre o corpo que seria de propriedade do inimigo.

Portanto, nas falas do ignóbil deputado está implícita uma arma de guerra: as mulheres são presas fáceis porque vulneráveis e pobres. Machos tóxicos, o grupo privado de amigos por certo o defendem. Canalhas. Sugiro ler a carta do jornalista Jamil Chade endereçada ao infame deputado.

Neste ano inóspito entre guerras, o Dia Internacional da Mulher é uma data para denunciar o armamento, os negacionismos, os genocídios, os ecocídios, o machismo e todas as violências sobre vidas e corpos das mulheres. Das meninas e também meninos. Ando tão atordoada com estas maldades que me doem a mente, as carnes e os ossos. Somente neste ano, quatro mulheres por semana foram assassinadas por feminicidas, isso em Santa Catarina. Esta e as outras tantas violências, como minimizar? Estancar?

Somo minha voz às vozes das mulheres que não se calam e têm esperanças, com as que lutam no cotidiano pelo pão de cada dia, com aquelas que sabem o valor da democracia e das escolhas políticas na promoção de políticas públicas e direitos sociais, com as que levantam bandeiras por dignidade. As saúdo, certa de que sem lutas e projetos de paridade e igualdade de direitos não teremos futuro, sem as pautas feministas não teremos tempo para apaziguar tantas dores. Nossa rebeldia e nossa voz são alicerces que se movem pela paz. Sonhamos juntas pois sem a força e a voz das mulheres não haverá porvir.

Eles, os fascistas – e, pasmem, algumas delas – odeiam poesia. Então, um poema de força:

Rebele-se!

Renegue dogmas que usurpam os prazeres da carne

com requintes de vilania – exercite o desejo!

Combata naturalizações que desqualificam pessoas

com normas espúrias e tirania – acolha as diferenças!

Rejeite o patriarcado que acorrenta, ameaça e submete

mulheres com selvageria – abrigue a equidade!

Conteste todas as leis que castram a voz e, por decreto,

jamais silencie – reivindique o livre arbítrio!

Repudie violências que atravessam corpos e os

aniquilam com covardia – empodere mulheres!

Insurja-se contra decretos que coagem meninas e as

silenciam todos os dias – exija autonomia!

Renegue, combata, rejeite, conteste, repudie e

insurja-se – pratique a rebeldia!

Exercite, acolha, abrigue, reivindique, empodere

e exija – exercite a democracia!

 

Marlene de Fáveri, 6 de março de 2022. Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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