Em setembro de 2022, às vésperas de uma das eleições mais tensas da história recente brasileira (embora em 2026 a coisa não esteja nada tranquila), um grupo de mulheres da sociedade civil, do qual eu fazia parte, lançou a #ElasSim, campanha para estimular votos e ampliar a presença de pessoas historicamente marginalizadas no Poder Legislativo.

A proposta partia de uma constatação tão simples quanto constrangedora: o Brasil é majoritariamente feminino e negro, mas seus espaços de poder continuam longe de refletir a composição da população.

O manifesto original, publicado em 5 de setembro, apresentava a campanha como herdeira propositiva do #EleNão, cuja linguagem visual claramente serviu de inspiração, embora comunicasse posições opostas. As peças parecem pertencer ao mesmo universo gráfico porque foram concebidas para dialogar entre si. 

“Ele Não” concentra a rejeição em uma figura específica; “Elas Sim!” afirma coletivamente a presença das mulheres. A oposição não é apenas verbal: a primeira imagem é mais contida e negativa, a segunda mais expansiva e celebratória.

Nas duas, o fundo escuro é salpicado por pontos luminosos/coloridos, lembrando um céu estrelado – que, no caso do Elas Sim!, era mesmo, já que nela foi usada a primeira imagem científica do universo capturada pelo Telescópio Espacial James Webb, disponibilizada pela NASA em julho daquele ano. 

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Crédito: reprodução.

Quatro anos depois da enorme mobilização de mulheres contra Jair Bolsonaro, não bastava dizer quem não deveria ocupar o poder. Era preciso discutir quem deveria. Daí a passagem deliberada do “ele não” para “elas sim”.

O foco era – e ainda é – um Legislativo que se pareça mais com o Brasil. A campanha defendia especialmente candidaturas feministas, negras, indígenas, LGBTQIAPN+ e de pessoas com deficiência, e articulava representação a compromissos políticos concretos: combate à violência política e às desigualdades de gênero e raça, direitos sexuais e reprodutivos, educação, igualdade no trabalho e corresponsabilidade pelo trabalho doméstico e de cuidados.

A mobilização principal ocorreu em 7 de setembro de 2022, disputando o feriado simbolicamente nas redes por meio das hashtags #ElasSim, #EmDefesaDaDemocracia e #Eleições2022.

Isso porque, naquele dia, em pleno período eleitoral, Jair Bolsonaro usou as comemorações oficiais do Bicentenário da Independência do Brasil em atos que misturaram cerimônia de Estado e campanha — prática que, em 2023, o Tribunal Superior eleitoral (TSE) considerou ser abuso de poder e desvio de finalidade, tornando inelegíveis o ex-presidente e seu então vice, Walter Braga Netto. 

Naquele dia mesmo a revista feminista argentina Marcha publicou uma entrevista sobre a campanha em que Izabel Belloc e eu falamos sobre a concepção, estratégia e objetivos da iniciativa.

A entrevista registra também uma decisão importante: embora algumas das mulheres responsáveis pela articulação aceitassem ser identificadas publicamente1, outras preferiam não sê-lo, em razão do ambiente político do momento. 

A ação, inicialmente prevista para 7 de Setembro, continuou até o encerramento do primeiro turno. Em 26 de setembro, a campanha lançou o Guia #ElasSim de Diversidade no Legislativo, reunindo informações sobre os cargos e ferramentas, projetos e reportagens, e a Marcha voltou a registrar a iniciativa em sua cobertura das eleições 2022.

Marcos da luta por representação

A Elas Sim não apareceu no vácuo, e pertence a uma história brasileira de iniciativas que deslocam a discussão sobre diversidade na política de uma reivindicação abstrata para uma pergunta concreta: quem efetivamente consegue chegar ao Parlamento? 

O VoteLGBTQIA+ atua desde 2014 para aumentar a participação política e a representação LGBTQIAPN+, combinando visibilidade de candidaturas, produção de dados e mobilização eleitoral.

Em 2016, o #MeRepresenta já aproximava eleitoras e eleitores de candidaturas comprometidas com direitos humanos. A plataforma tornou-se especialmente importante por reunir numa mesma arquitetura política organizações feministas, negras e LGBTQIAPN+, posteriormente incorporando também povos tradicionais e outras agendas.

Também em 2016 começou a experiência da Bancada Ativista, que em 2018 se transformaria numa candidatura coletiva à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), composta por pessoas de diferentes gêneros, raças, territórios e identidades — entre elas Mônica Seixas, Erika Hilton e Chirley Pankará. A experiência está documentada nesta reportagem sobre os mandatos coletivos eleitos em 2018.

Em 2018, surgiu o Mulheres Negras Decidem, transformando a enorme sub-representação das mulheres negras na política em objeto de pesquisa, formação, incidência institucional e mobilização eleitoral.

Na mesma linhagem, a articulação que originaria a campanha Eu Voto em Negra passou a combinar formação de candidatas negras e estímulo deliberado ao voto nessas mulheres.

Um registro antigo de campanha por mais diversidade no legislativo, é o “Mulher, seu voto não tem preço!”, da União Brasileira de Mulheres (UBM), criada ainda nos anos 1990. Em 2018, quando foi retomado em parceria com o mandato da deputada Leci Brandão, já acumulava cerca de 25 anos de história. 

A iniciativa convocava mulheres a usar seu peso eleitoral para ampliar a presença feminina nos espaços de poder, associando representação a uma plataforma política mais ampla: combate ao racismo estrutural, igualdade salarial, Estado laico, direitos LGBTQIAPN+ e aumento da participação das mulheres no poder.

É a partir desta lógica que, décadas depois, surgiriam outras campanhas aqui listadas defendendo que : não basta que grupos sub-representados tenham direito ao voto; é preciso transformar o voto em instrumento para mudar quem ocupa o poder.

Força, impacto e legado das lutas feministas 

Em 2020, o campo ganhou novas ferramentas2. O Instituto Marielle Franco, Mulheres Negras Decidem, Coalizão Negra por Direitos, Educafro e outras organizações criaram a Plataforma Antirracista nas Eleições (Pane), que levou a disputa para dentro das próprias regras eleitorais, pressionando por distribuição proporcional de financiamento e propaganda para candidaturas negras. 

O histórico está documentado pelo Instituto Marielle Franco. No mesmo ano surgiu eleitoralmente a Agenda Marielle Franco, construída com cerca de cem organizações, e que se apresenta como agenda antirracista, feminista, popular e LGBTQIAPN+ para candidaturas de todo o Brasil. A iniciativa continua existindo.

Também a partir de 2020, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) passou a promover Aldear a Política, transformada posteriormente na estratégia da Bancada do Cocar: não apenas defender direitos indígenas perante o Estado, mas eleger indígenas capazes de disputar o próprio Estado por dentro. A organização dessa estratégia pelas mulheres indígenas está documentada pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga).

Naquele mesmo pleito, a Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência publicou uma agenda nacional de propostas para candidaturas e campanhas eleitorais, incorporando à disputa institucional a participação política das pessoas com deficiência. 

Em 2022 coexistiam as campanhas #ElasSim, #MeRepresenta, Vote LGBTQIA+, Mulheres Negras Decidem, Agenda Marielle Franco, Aldear a Política/Bancada do Cocar, e Mulher, seu voto não tem preço!. 

A novidade da Elas Sim não estava em descobrir a sub-representação — movimentos feministas, negros, indígenas, LGBTQIAPN+ e PcD já faziam esta denúncia havia muito tempo —, mas em condensar essas reivindicações numa mesma convocação eleitoral positiva e explicitamente voltada ao Legislativo. 

Estou segura de que haviam outras iniciativas, e todas reforçam o objetivo principal dos registros que estou fazendo neste material: mostrar a força, impacto e legado que as lutas feministas têm no tecido social.

E o que movimentos como os que vimos até aqui clamam há anos apareceu, em 2026, formulado institucionalmente pela própria Justiça Eleitoral.

Em 2024, o TSE já havia lançado a campanha “Representatividade. Isso é democracia”, estimulando a participação política de pessoas negras, povos originários, mulheres, quilombolas, pessoas com deficiência, comunidade LGBTQIAPN+, idosos e jovens, tanto como eleitoras quanto como candidatas. 

Em 2025, o Tribunal apresentou #VotoNaDemocracia como identidade oficial das Eleições 2026, promovendo o próprio voto como exercício da democracia e a defesa da legitimidade do próprio processo eleitoral. E em 2026, o TSE lançou a campanha nacional Representatividade 2026, veiculada em televisão, rádio e redes sociais entre maio e julho, incentivando candidaturas de mulheres, pessoas negras e indígenas.

Vista essa perspectiva histórica, a Elas Sim! pertence a um movimento muito maior, cuja mensagem vem em diferentes nomes e formatos, mas preserva uma ideia fundamental: disputar quem pode ser votado, quem consegue ser eleito e, importantemente, quais corpos têm o direito de legislar sobre as vidas de todos os outros. E, na maioria delas, a articulação de origem é feminista. Que fique o registro.

Notas de rodapé

1. O Catarinas foi uma das oito organizações formalmente identificadas como apoiadoras da Elas Sim!, ao lado de Jornal Livre SC e 8M Criciúma, também de SC, Comitê Mineiro de Apoio à Causa Indígena, de MG e, do RS, Emancipa Mulher, Juntas!, Boleto+1 e Coletivo O Melhor de Cada Uma (este último fundado por Ìyá Sandrali de Campos Bueno, hoje vice-presidenta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM, órgão vinculado ao Ministério das Mulheres).

2. Aqui vale registrar um ineditismo: em 2020, Carolina Iara tornou-se a primeira parlamentar intersexo das Américas. Eleita covereadora em São Paulo, em 2022 ela também foi eleita codeputada estadual na Alesp – as duas vezes em mandatos coletivos da Bancada Feminista do PSOL.

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  • Joanna Burigo

    Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC e autora de "Patriarcado Gênero Feminismo" (Editora Zouk, 2022). Formada pela PU...

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