Em sua oitava crônica, a historiadora reflete sobre violências históricas expostas pela pandemia/Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (8) – ou, das outras guerras no cotidiano

Postado em 03/05/2020, 11:41

Domingo, três de maio de dois mil e vinte. Passei a semana tentando organizar livros, pastas, cadernos, blocos, guardados, mas me dispersava em cada objeto, cada livro, cada poema, cada carta, cada lembrança. Tive a certeza de que não dou conta. Como descartar livros e suas histórias? Como abrir uma pasta com centenas de escritos, sem lê-los? Concluí que não posso me angustiar com isso, deixei para depois. Melhor escrever. Na próxima semana volto para minha clausura no interior, com minha mãe, e fica assim, as coisas nos seus lugares – sim, haverá pós-pandemia, e precisarei de ajuda.

Na semana, Araci, minha aluna dos tempos em que iniciei a dar aulas na Universidade, me perguntou, assim, do nada: qual número do teu calçado? Então me pediu o endereço: “Professora, vais receber um calçado de minha marca”. Já recebi! Outra amiga, Angelita, solícita e amorosa, me trouxe o sortimento do supermercado. Também ensinei, pela telinha, minha filha Tashi a fazer polenta! Coisas dos acontecimentos que traduzem aquilo que fomos, o que fizemos, o que tocamos, o que agradecemos. Assim, também de solidariedades e gentilezas se vive com a certeza de que os afetos são imprescindíveis. Tenho sofrido com a dor da querida Urda, que perdeu seu companheiro Athaualpa. Tinha alma e virou estrela. Não fosse o fato de me obrigar a catar algum calendário para me encontrar no dia da semana e do mês, a semana não teria passado, tantos dias quase iguais na clausura.

Me dei conta de que desde dia vinte de março escrevi oito crônicas. Ainda fiz poesias e escrevi longas digressões memorialísticas que não cabem aqui. É que escrever a pena livre incita os lampejos d’alma, dá liberdade e acalma. Muito me alegram e me animam os depoimentos de leitoras e leitores, como leem as crônicas, como se identificam e também se aliviam. Esses depoimentos me dão ganas de continuar. Com as palavras, ouso desenhar o que Drummond chamou de “sentimento do mundo”. Então sigo, expressando meus sentidos.

Acho que devo uma explicação. Uma leitora perguntou o porquê do uso da palavra incontingência no título das crônicas. Elenco quatro fatores que me fizeram refletir sobre o que caracterizaria essa pandemia. Ainda em março já no isolamento, fomos surpreendidos por decretos de isolamento/afastamento nos noticiários sobre números de infectados e de óbitos, me dei conta do esgarçamento do que seria a pandemia.

As pandemias que nos antecederam foram vorazes, embora o mundo não fosse globalizado como hoje. As migrações e deslocamentos das populações eram bem menores.

Apesar da negação de certas autoridades, com certeza não era uma ‘gripezinha’. Percebi logo que mudanças nos comportamentos e nas relações as quais nos atingiriam por muito, mas muito tempo.  Sem que me desse conta, ia narrando as emoções desde a partida para visitar minha mãe e o forçado exílio; o fiz à tinta, de um sopro.

Foto: arquivo pessoal

Essa certeza do imponderável me veio com as incertezas médico-científicas para esta pandemia, suas consequências e alcance global. Intitulei como “crônica da incontingência da clausura, ou do vírus invisível”; e postei no facebook. Dia seguinte, Paula Guimarães, editora do Portal Catarinas, do qual sou colunista, solicitou minha permissão para incluir a crônica no Portal, e reafirmou o convite para continuar escrevendo – então, numerei.

Por que usei incontingência? Sabe-se que contingenciamentos são comuns em tempos de crises; são ações deliberadas por conta de urgências circunstanciais. Admitamos que nesta pandemia as ações seriam contingenciais por um tempo. Sabemos que epidemias são sazonais: vêm, desarrumam relações, depois vão-se. A vida se refaz e, mesmo com todas as perdas econômicas e afetivas, o mundo não acaba. Todavia, dentro dessas incertezas tive uma certeza: o isolamento e os cuidados não seriam momentâneos. A ciência não teria meios a curto prazo para expulsar de vez esse medonho invisível, dada a sua eficácia contaminadora e as proporções geométricas como se propaga. Democrático? Na morte física, sim; na morte social, não.

A desigualdade de classe separa quem é obrigado a se expor para sobreviver daqueles que têm condições de se isolar com relativo conforto.

No dia dezoito de março, atônita diante da expansão do vírus de como se espraiavam os detalhes do medonho, fiz minha primeira anotação: “Invisível, real, contagioso, letal. Democrático?”.

Da mesma forma, associei a palavra incontingência às minhas palestras e aulas na disciplina História e Relações de Gênero (Udesc), quando afirmava que a violência contra as mulheres é incontingente – é real, é certo, é verídico que está acontecendo agora, e acontecerá amanhã, e depois de amanhã, num tempo mais do que presente… Por mais que não queiramos, as violências contra as mulheres, bem como violências sexuais contra crianças e adolescentes, é incontingente. Nenhum decreto, lei ou norma vai abolir estas violências, infelizmente. São práticas advindas do patriarcado e do machismo estrutural, também responsáveis pelas manifestações de racismo, homofobia, aporofobia (rejeição às pessoas pobres), lesbofobia, e outras mazelas que ardem nos corpos e mentes, produtos de uma cultura na qual relações de poder sempre promoveram desigualdades.

Na história do Brasil vemos esse paradoxo na ‘bondade’ dos senhores que mantinham cativos sob seu chicote, no genocídio dos nativos, na exploração absoluta e perversa da mão de obra dos pobres, sempre com a conivência e prepotência das autoridades religiosas.

As mulheres são as mais afetadas nos seus corpos violados, nas suas vontades castradas, sob os domínios de pátrios poderes e das prescrições das igrejas.

Desde o Brasil colonial, as violências de gênero têm provocado danos irreversíveis às mulheres. Diante da realidade das estruturas que mantinham as mulheres em estado de servidão, feministas questionaram prescrições como a de que lugar de mulher é em casa e subserviente aos mandos de um homem. Estes questionamentos ganharam força na década de mil novecentos e setenta, e na década de oitenta, com a abertura democrática, fomos afirmando nosso lugar de sujeitos da história. Naquela década, comecei a perguntar e buscar respostas para as penúrias a nós impostas, e a questionar nossas prisões. Foi quando escrevi poemas, como este:

Por muito tempo, mulher, guiaram teus passos
Curvaram teus ombros, castraram tuas vontades
Sentiram teu prazer, lambuzaram teu corpo
Ignoraram teus desejos, subjugaram teu intelecto
Domesticaram tua força, calaram tua voz
Fizeram-te escrava.
Agora basta!  Mostra tua face, não fiques calada!

O primeiro dos quatro fatores que me levaram a compreender a palavra incontingência se encontra nos discursos e pronunciamentos de vários ministros e de um presidente que se outorga donatário das instituições. Sobre isso sugiro a leitura do artigo Júlia Costa no Portal Catarinas. Ali, analisa os gatilhos de um desses discursos, e que podem ser lidos na esteira das guerras de imagens e dos pronunciamentos de governos ditadores, gananciosos, totalitários, sociopatas, autocratas à moda dos regimes totalitários.

Um segundo fator cotidiano e voraz, é o visível aumento da violência doméstica durante o isolamento social – e isso enquanto o pavoroso ministro das relações exteriores associa o vírus corona como acelerador de um plano global e, num delírio tosco, imagina como inimigos, dentre outras questões, a “ideologia de gênero”. O que sinto, para além do asco, é vergonha. Os discursos de certas autoridades como por exemplo a ministra da goiabeira, ignoram que as adversidades e violências contra as mulheres  se avolumam com o confinamento. Estatísticas comprovam que ficar em casa, para as mulheres, não é estar em segurança; pelo contrário, houve um aumento de denúncias de ataques, feminicídios, estupros, assédios, sempre subnotificados.

Foto: arquivo pessoal

Me pergunto: que demônios têm nas têmporas homens que matam mulheres, estupram crianças, mulheres, meninos e meninas? Os mesmos problemas com a violência durante a quarentena que acontecem no Brasil são vividos em outros países da América Latina, com mulheres confinadas em casa com seus agressores. Jessica Gustafson afirma que “o tema da violência contra a mulher é complexo e envolve questões culturais que perpassam não só os indivíduos, mas as instituições formadas por eles.”

O feminicídio é, por essência, incontingente.

Outro fator que fez pensar a incontingência são as penúrias da fome, do desemprego, do trabalho não pago, das demissões, que, mesmo com a minguada ajuda emergencial do governo, quando chega, não supre as necessidades básicas das famílias. Se para mulheres da classe média e alta o isolamento não altera em muito o cotidiano, para as mulheres pobres, trabalhadoras formais e informais, além da urgência em prover o sustento da família, tem que lidar com as tarefas da escola, amainar os medos, proteger-se da doença, proteger a si e aos seus, sobrecarregando-as.

Muitas mulheres, e também homens, estão trabalhando em home office; professores e professoras das redes de ensino estão sendo obrigadas a lidar com tecnologias que desconhecem, preparar aulas online e muitas vezes sem condições técnicas. Estão adoecendo de estresse e desconforto. As mulheres sofrem mais com o isolamento. Por outro lado, li nas redes sociais, algumas mulheres reclamando de tédio, sem ter o que fazer em casa. Provavelmente são mulheres que têm outra mulher a fazer os trabalhos domésticos. As desigualdades sociais e econômicas, características do capitalismo na sua forma e exploração, são também incontingentes.

Faz parte ainda das incontingências o drama enfrentado pelos profissionais da saúde. Nesta área, a mão de obra feminina representa 72% de ocupação, conforme estatísticas recentes do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). O número desses profissionais contaminados por Covid-19 é assustador e, a maioria são mulheres que trabalham como enfermeiras, técnicas de enfermagem, e médicas. Ainda, conforme a pesquisa, há a diferença salarial por gênero, já que as mulheres recebem menos que os homens, com discriminação evidente. Elas estão mais vulneráveis, precisam sair de suas casas, enfrentar os riscos às suas vidas e lidar cotidianamente com a morte, muitas vezes sem a proteção necessária. Muitas são negras, evidenciado que, além da classe e do gênero, a questão da raça é visível. E tem que dar conta de suas casas, filhos, cuidados, e protegerem-se, e o que demanda mais tempo.

Essas guerras agravadas no cotidiano das mulheres me dizem da incontingência do que vem pela frente.  Passados, nesse momento em que escrevo, quarenta dias daquelas primeiras impressões, a crise sanitária agrava-se de forma trágica; a distância entre continuarmos saudáveis ou doentes diminui. Teremos algum dia a sorte de viver num tempo livre de incontingências? Um tempo de felicidade, harmonia, cidadania plena, democracia, direitos humanos resguardados? Um tempo de despedidas com dignidade, sem máscaras e silêncios? Um tempo sem medos? Um tempo em que possamos nos tornar seres humanos mais justos, solidários e fraternos?

Escrevo de minha casa, em Florianópolis. A mesa está sempre repleta de papéis, cadernos, canetas e um computador; assim é minha clausura. Tenho tanto a escrever e pouco tempo para dizer tudo o que penso.  Não, não me vou agora, não serei vítima deste nefasto grudento… É, “a gente nunca sabe…”, na dúvida de Saint-Exupéry.

Marlene de Fáveri, Florianópolis, 3 de maio de 2020.

Leia outras crônicas da autora. 

 

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri