Marlene de Fáveri escreve sobre como se constrói a masculinidade tóxica no dia a dia/Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da Incontingência da Clausura (17) – ou a masculinidade tóxica e as violências de gênero

Postado em 05/07/2020, 17:39

 

Domingo, cinco de julho de dois mil e vinte. Que semana esta última! Não bastasse o alerta de alto risco com a pandemia, vários bairros da cidade de Florianópolis foram afetados por um ciclone que causou estragos nas ruas e residências, deixando tudo às escuras.  Mas, como sempre diz minha mãe, tudo passa. Será que a pandemia também passará? Nesta semana tive notícias de pessoas conhecidas que estão acometidas do medonho invisível, deixando-me mais apreensiva. Planejo voltar para o interior em alguns dias onde terei companhia de minha mãe, de gatos, pássaros, mosquitos e muito verde, e para longe desta guerra de medo.

Somado a esta peste e à intempérie, assistimos a um teatro de absurdos protagonizado por um governo de bravatas, um ferrabrás das cavernas.   Vergonhosamente, hoje somos o país das mentiras, da patifaria, da farsa e do risível como tragédia anunciada e vivida. Reféns de genocidas e fascistas e da miséria econômica e social, assistimos a cada dia mais capítulos envolvendo a família cujo patriarca é uma contradição ambulante, rodeado de milicianos ávidos de poder. O país que já foi a sexta economia do mundo chafurda no abissal mar de miseráveis e carcomidos humanos.

Preste atenção nas saídas do bazófio mandante às ruas: recusa-se ao uso de máscara e está sempre ladeado por um bando de homens exibindo músculos e feições furiosas que lembram pitbulls. Quando interrogado, responde com gestos grosseiros e palavradas que açoda fiéis numa orgia de poder tóxico e asfixiante.

Foto: arquivo pessoal

Pasmem: existem mulheres que o seguem. Vimos faz pouco a outrora “namoradinha do Brasil” encenando seu gozo supremo ao zombar das memórias dos mortos pela ditadura militar. A outra, a da goiabeira, num disparate abominável, associou o estupro de vulneráveis ao não uso de calcinhas, justificando a violência. Ambas, e ainda outras como a que foi detida por ameaçar de morte as filhas dos membros do STF e por disseminar fake news, são figurantes auxiliares do projeto ideológico militarizado com o uso da força. A distopia tal qual narrada em O conto da Aia nos persegue.

Assegurar masculinidade através da força física e performance de atleta é subterfúgio para esconder defeitos e/ou frustrações. As sociedades se fundamentam no sexo biológico como definidor de comportamentos específicos, esperados tanto de homens quanto de mulheres, e assim constroem-se as prescrições de gênero. O conceito de gênero remete a uma construção social e cultural que determinaria comportamentos considerados apropriados para homens e para mulheres, com base no sexo ao nascer e definindo funções, papéis, atributos, atividades, orientação sexual, dentre outras.

Todavia, a masculinidade pode advir de várias fragilidades. Os meninos, com raras exceções, crescem cheios de proibições: não devem chorar nem demonstrar fragilidade, não devem procurar ajuda nem falar de suas emoções, seus brinquedos são carrinhos e armas, e espera-se que sejam competitivos e demonstrem força. Uma educação pautada nestas características estereotipadas condiciona os meninos a agir e pensar como se fossem afirmações verdadeiras e norteadoras de comportamentos. Eles também sofrem com tais prescrições e talvez muitos preferissem não ser violentos.

Essa educação tóxica está ligada à identidade masculina, e daí advém o ódio a homossexuais, transexuais, mulheres e outras identidades. Assim, muitos homens se sentem protegidos pela exacerbação da masculinidade aliada à virilidade e às violências. Eles as validam para si e sobre outras pessoas, sendo as mulheres os principais alvos da fúria desta toxidade.

Nesse raciocínio, o “mito da virilidade” associa privilégios aos homens que usam das violências para se sentirem como “homens de verdade”. Vivemos hoje, no Brasil e em outros lugares, a exacerbação desta masculinidade tóxica como afirmação de poder e posse, agravada pela estrutura patriarcal, classista, racista, lgbtfóbica e sexista. Há um paradoxo entre aqueles que se declaram “cidadãos de bem” e ao mesmo tempo provocam a violência, ostentam armas, pregam a volta do AI-5 e o consequente fechamento das instâncias democráticas.

Faz algum tempo que ouvimos frases ditas pelo indigesto presidente, como: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”, sobre o polo turístico do país. “Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar porque não merece”, frase em ofensa a deputada Maria do Rosário.  “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”, disse numa entrevista, exacerbando sua homofobia. “Todo mundo ia atrás de galinha no galinheiro na minha cidade. Alguns mais malandros, iam atrás da bezerrinha, da jumentinha. Era comum. Não tinha mulher como tem hoje”, admitindo ter praticado zoofilia. “Os gays não são semideuses. A maioria é fruto do consumo de drogas”, demostrando homofobia tóxica. “Meu filho namorou metade do condomínio” disse ele com ênfase ao apetite sexual e à virilidade do filho e que objetifica mulheres. “Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu”, em resposta à pergunta se um filho seu namorasse uma mulher negra. “E deu um dado alarmante, quando se fala em higiene: no Brasil, ainda, nós temos por ano mil amputações de pênis por falta de água e sabão”, ignorando as mortes por abortos, feminicídio, racismo, fome e outras tantas. “Eu tenho pena do empresário no Brasil, porque é uma desgraça você ser patrão no nosso país, com tantos direitos trabalhistas. Entre um homem e uma mulher jovem, o que o empresário pensa? ‘Poxa, essa mulher está com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade’…”, numa absoluta misoginia e desconsideração para com e a maternidade das mulheres trabalhadoras.

Essas frases, ditas por um homem público na altura do cargo que ostenta, evidenciam preconceitos estereotipados que estavam acobertando masculinidades vivenciadas no cotidiano das relações privadas e públicas. O mito do “homem cordial”, na expressão embusteira que formou imaginários, esconde racismos e sexismos absorvidos na estrutura da sociedade brasileira. A esse homem público uns lunáticos chamam de mito, num total e absurdo desconhecimento do sentido da palavra. “Todo mito é também uma farsa, e toda farsa é cômica e risível por natureza”, disse Rita Von Hunty. A farsa como tragédia: é o que temos.

Essa toxidez aparece no cotidiano e suas franjas. Pessoas que conhecemos, e/ou nós mesmas, fomos marcadas por esse tipo de violências. Dia desses, uma ex-aluna me contou que engravidou de um violentador e, ao entrar num consultório para interromper aquela gravidez, foi acostada pelo médico numa parede: “Não tenha medo de engravidar, pois já está grávida”, ele disse antes de estuprá-la.

A crueldade desta narrativa é inenarrável. Disse-me também de uma colega de classe que tinha pânico de sexo porque, quando menina, o amigo de seu pai a obrigava a segurar o pênis até ele gozar no rosto dela.

Estas narrativas borbulharam em minha memória. Lembrei de situações que ouvi, e também das que vivi, as quais me dão gastura e me revoltam. Por exemplo, daquele que batia na mulher com o cano da espingarda e a obrigava a ajoelhar-se e lhe servir com sexo oral. Da amiga que, bem doente, foi obter alívio com um espírita, e foi abusada com sevícias em nome de deus. De uma mulher agricultora cujo pai a obrigou a casar-se com o homem escolhido por ele – ela tinha quinze anos, e o marido a estuprou na noite do casamento a ponto de ela ter que ser hospitalizada.

Lembrei-me do estrupício que seduziu a colega de aula, usurpou seus parcos bens e a chutou como a animal. Da colega de moradia de estudante cujo namorado bateu com fúria até desfigurá-la quando ela comunicou que estava grávida, gritando que só a queria para diversão pois se casaria com a noiva de sua cidade do interior. Da aluna, estuprada por colegas do ensino médio que engravidou e quase morreu com um aborto feito às escondidas. Do menino que foi currado pelos colegas no banheiro da escola porque não queria jogar bola. Daquele professor que durante anos assediava alunas, estuprou uma delas e o respectivo processo foi arquivado. Outras alunas se encorajaram e também denunciaram, mas um homem da Lei entendeu como “perturbação da ordem”, e também arquivou o processo.

Daquele namorado medonho que pediu uma “prova de amor” e, como ela recusou, obteve à força e depois ainda disse: “Tu não eras mais virgem, some daqui”, De acordo com ela, ele havia sido o primeiro e ela nunca mais sorriu como antes. Da moça branca que enamorou-se de um homem negro e o pai a expulsou de casa: “Se casar com este degenerado, não é mais minha filha”, disse ele. Daquela estudante que quando ficou grávida e o pai a expulsou de casa sem que a mãe pudesse impedir. Ou, da fala de um amigo que ouvia na adolescência que “tirar a virgindade de uma menina era um troféu que todo homem tem que ter no currículo”. Da aluna que…

Poderia citar outras das tantas narrativas ouvidas em décadas lecionando temas de gênero e das relações de trabalho e amizades, todas contadas com a memória da dor. Em que essas memórias se aproximam das falas do inominável presidente? No cúspide, são carregadas de masculinidade tóxica e desarrumada na afirmação da virilidade através da força e das armas. A arma é representação do falo. Umberto Eco mostrou que o machismo leva à intolerância e ao desdém pelas mulheres e que uma característica marcante do fascismo é a exacerbação do próprio machismo.

Esse comportamento define uma estreita noção de que só haveria um tipo de masculinidade e de ser homem: exercitando competitividade,  domínio,  virilidade,  macheza e  hipersexualidade. Como já disse, a toxidez é também dolorida porque na educação desses homens foram prescritos papéis que talvez não quisessem desempenhar. O documentário O Silêncio dos Homens revela os danos causados à autoestima  e a angústia que homens sentem pela supressão das emoções. Muitas vezes é contra as mulheres que canalizam suas fúrias.

Vejam bem: a crítica à masculinidade tóxica não é uma demonização da masculinidade em si, mas do conjunto de comportamentos que explodem em violências. Também, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde, homens vivem menos devido às expectativas culturais e sociais associadas a seu gênero. Exemplos são as mortes no trânsito, brigas e por descuido com a saúde.

Assim, estamos imersos em três guerras: a pandemia que já ceifou mais de sessenta mil vidas no país, a masculinidade tóxica estrutural que se reproduz nas falas do presidente, e o desgoverno que promove um nacionalicídio à medida que destrói projetos e sonhos. Sobre este desgoverno, soma-se o agravante com o absoluto caos na esfera educacional. Entram e saem ministros da educação sem a menor competência, justo na área que tem o dever de dar suporte para um ensino que promova justiça social e respeito às diversidades. As violências de gênero não terão fim sem que se eduque crianças e jovens para um mundo de relações solidárias e despidas de violências. Retomo Rita Von Hunty: “Ser um homem não viril é um ato revolucionário”.

Sei que esta crônica transpira minhas iras. Mas é preciso dizer, falar, denunciar. Mesmo que nos queiram calar, desobedeceremos! No mês de junho corrente, foi assinado o Manifesto do Levante das Mulheres Brasileiras, denunciando as políticas genocidas em curso tanto em relação ao  coronavírus quanto a vulnerabilidade de jovens negros e negras e ao aumento das desigualdades e do empobrecimento da população. “Irmanadas. Diversas, mas não dispersas. Não temos dúvida do nosso poder” dizem. E sentenciam: #𝗠𝘂𝗹𝗵𝗲𝗿𝗲𝘀𝗗𝗲𝗿𝗿𝘂𝗯𝗮𝗺𝗕𝗼𝗹𝘀𝗼𝗻𝗮𝗿𝗼.

Seremos insurgentes. Sigamos nas lutas.

Marlene de Fáveri, 05 de julho de 2020. Florianópolis.

 

 

 

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri