Nessa crônica Marlene reflete acerca da violência racista a partir da sua trajetória de historiadora e das vivências na comunidade rural/Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (13) – ou, do racismo impregnado e de memórias

Postado em 07/06/2020, 9:54

Domingo, sete de junho de dois mil e vinte.  Entramos no mês de junho, e quase metade do ano já é passado. Que ano inóspito este! Não bastasse estarmos vivendo sob o signo do medo de um ataque às mucosas por um virulento seboso, um tenebroso inverno se aproxima e, com ele, o espectro do mal. Sim, “A cadela do fascismo sempre está no cio”, na frase assombrosa e tão atual de Bertold Brecht. A falta de sensibilidade, a irracionalidade e o total descaso deste desgoverno ao tratar da pandemia são criminosos e genocidas.

Nesta última semana, tive que ir ao supermercado para uma compra maior para minha mãe. Embora o lugar assegure a exigência do uso de máscara, álcool e evite aglomerações, fui sob forte tensão. É-me sempre tensa uma saída de casa, mesmo com todos os cuidados, principalmente porque uma parte significativa das pessoas ignora os riscos e se expõe. O Guevara, ou o Tchê, sumiu por dois dias. Reapareceu assim, de repente, como se nada tivesse acontecido. Nem deu bola para meus verbos indignados. Esses gatos! Enquanto isso, o senhor Aires, o jardineiro, trocou as telas de proteção do jardim, que ficou lindo!

Ando com saudades de tudo, só que de um jeito diferente. Acostumei-me a cuidar de minha mãe, a compartilhar conversas e acordar cedo, respirar o verde e ouvir galinhas cacarejando, gatos miando, pássaros gorjeando, cuidando da horta e do jardim, colhendo frutas e verduras. E se eu mudar para o interior? É de se pensar.

Minha mãe e eu passamos algum tempo desta semana entre notícias da pandemia, do desgoverno e suas trapalhadas e assistindo às manifestações antirracistas em algumas cidades estadunidenses. O mundo se move, enfim, e tomara que desses protestos venha uma ação global contra todas as formas de racismo.

Observando as imagens dessas manifestações, minha mãe perguntou: “Mas porque estão queimando o carro da polícia?”. Embora ela acompanhe noticiários e entenda os acontecimentos, sua memória anuvia e mistura uma notícia à outra. Relembrei que esse movimento começou com o assassinato de George Floyd, um homem negro morto por um policial branco. Ela lembrou a imagem e disse: “Ah, sim, eu vi, me lembro, uma coisa horrível, né?” Sim, horrível e hediondo, mãe.

Como professora de História da América, sempre pontuei os horrores praticados nos países que têm em comum o legado do sistema escravagista. Então expliquei-lhe sobre o racismo estrutural, o passado escravocrata, tanto lá nos estados do Norte, quanto no Brasil e na América Latina, e as consequências dessa vergonhosa história. A colonização aconteceu sob a tortura de mulheres e homens negros, na mais aviltante exploração de seu trabalho e de seus corpos.

O Brasil fez sua independência e manteve o regime escravocrata que durou quase quatrocentos anos. Nos Estados Unidos, a declaração da independência garantiu a liberdade para homens brancos e com posses, mantendo o severo regime da escravidão, feita em nome da liberdade, da felicidade e de um deus. Essas nações nasceram ignorando os direitos da maioria da população excluindo as pessoas de origem africana de quaisquer direitos. Paradoxos que nos fazem pensar.

Expliquei para minha mãe que houve um tempo em que pessoas eram propriedades de outra pessoa. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, houve um sistema onde pessoas eram vendidas e compradas por quilo ou arroba, trocadas por café, tabaco ou farinha. Eram exploradas, queimadas, perseguidas, estupradas, mutiladas, açoitadas e mortas pelo fato de serem negras. Esses países têm uma dívida profunda para com as populações de origem africana.

Foto: arquivo pessoal

Expliquei também que lá, onde pessoas estão indo às ruas com tanta resistência, é porque a escravidão foi tão cruel, mas tão cruel que mesmo com a abolição, depois de uma guerra civil, pessoas brancas que não aceitavam a liberdade de pessoas negras criaram leis severas que separavam até os espaços onde podiam ir – ônibus, cinema, ruas, elevadores, igrejas, escolas, parques, etc.

As pessoas negras não tiveram as mesmas oportunidades que as pessoas brancas e foram excluídas de seus  direitos e cidadania. E falei que esses brancos racistas formaram grupos para assustar, expulsar e matar pessoas negras, incendiar casas de famílias negras. Chamados ku klux klan, porque eram contra a integração e ascensão social dos escravos recém libertos. Pasme, mãe, esses grupos existem ainda hoje.

Disse-lhe também que a lei Jim Crow  permitia a segregação, ou separação, principalmente nos estados do sul dos Estados Unidos, e durou até sessenta anos atrás.  Foram tão terríveis essas leis que negaram os direitos aos negros e negras, submetendo-os à humilhação pública, assédios e assassinatos. Acho que nenhuma pessoa negra nascida nos Estados Unidos desconhece sua História e seu passado banhado a sangue, e o porquê está indo às ruas. Anda hoje é assim: matam pessoas negras simplesmente por serem negras. “Que coisa isso, né? Até na Igrejas eram proibidos de ir?”, pergunta ela. Sim, mãezinha, muitos padres e pastores concordavam e apoiavam esse regime.

Puxo pela memória e lembro que quando eu era pequena, minha mãe me levava junto para a igreja. Recordo um padre missionário dizendo, de modo teatral, que as mulheres tinham que obedecer aos maridos e serem boas mães e esposas, ou seriam pecadoras e iam para o inferno. Da mesma forma, os padres e pastores diziam que os negros e as negras tinham que obedecer a seu donos, ou seriam açoitados e ainda iriam direto para o inferno. Ela entendeu a comparação e seguimos numa conversa sobre religião, mulheres e pecados.

Conhecemos muitas pessoas que se dizem cristãs, vão à missa, rezam, têm altar em casa, mas são racistas, preconceituosas, homofóbicas, sexistas e votam em fascistas. Paradoxos de doer nos ossos.  Me incomodam essas pessoas cheirando a enxofre.

O papa Francisco, nesta semana, condenou o racismo, como também tem condenado a exploração de trabalhadores e trabalhadoras, as violências contra as mulheres e as ideologias nefastas e criminosas. Como é possível que essas pessoas seguem o papa e a religião ao mesmo tempo em que repetem esses comportamentos indignos?? Vai entender. É mesmo assim: a religião, quando não emancipa, emburrece. Muito me admira esse comportamento paradoxal. Eu respeito quando alguém se diz conservador justificando-se pela melhoria da vida de algumas pessoas. Mas, aqueles que se dizem “de direita” e se incomodam com os princípios democráticos, com os direitos humanos, com a cidadania e direitos sociais, são a priori fascistas. Estas, eu não tolero.

“É, existe mesmo o racismo”, disse minha mãe depois de nossa conversa. Então lembrei fatos de minha infância. Morávamos no meio rural, no interior do interior de Nova Veneza, sul de Santa Catarina. Era costume que proprietários de terra tivessem agregados ou famílias que moravam na terra e ali trabalhavam e viviam em condições muito precárias. Também era costume que as mulheres fossem visitar alguma vizinha que tivesse tido um bebê, levasse uma lembrancinha ou algum alimento para a mãe parturiente.

Foto: arquivo pessoal

Bem, nas proximidades de nossa casa, foi morar um agregado e sua família. Minha mãe foi visitar a recém parturiente e me levou; eu devia ter uns cinco anos. Não lembro, mas minha mãe contou que eu, como nunca tinha visto pessoas de cor negra, me aproximei de uma menina, com mais ou menos minha idade, passei os dedos no seu braço e olhei para os meus dedos para conferir se a cor ficava na minha mão. Hoje sinto vergonha desse gesto, mesmo que não me lembre. Imagino o constrangimento da menina e de sua mãe. Apesar de inocente, o gesto reflete uma cultura de absoluto preconceito e desqualificação para pessoas não brancas. Na época praticamente não havia pessoas negras naquela comunidade rural, e não tínhamos nenhum meio de informação. Ouvíamos música sertaneja na rádio, e vez por outra meu pai ouvia os noticiários.

Cresci ouvindo de meu pai e familiares que um trabalho mal feito era “trabalho de negro” ou “trabalho de bugre” (índio), entre piadas e pilhérias. Uma das primeiras histórias familiares que ouvi narrava sobre um antepassado que fora morto por um índio. Morreu “com uma flechada e o fígado ficou na ponta da flecha”. Evidente que formou-se em mim um imaginário de medo de índios. Quando anoitecia, diziam: “entra logo senão um índio vem te flechar.” Eu olhava para a mata próxima à casa e, apesar do medo, queria muito ver um índio para saber como era.

Passaram gerações e as representações foram sendo reproduzidas para outras pessoas em conversas dos adultos e as crianças como eu ouviam e formavam imagens desqualificadoras.  Mais tarde, quando fui estudar em Florianópolis, descobri que havia muitas pessoas negras. Numa ocasião, me enamorei de um rapaz negro, e foi quando percebi a crosta dura do preconceito: aos olhos da maioria da grande família, eu estava transgredindo as normas da comunidade étnica.  Ali rompi em boa parte com as engrenagens daquela educação enviesada e preconceituosa.  Alan Carlos Ghedini, meu ex-aluno, numa fala recente, disse:

“O racismo acaba meio que se reinventando e se imortalizando geração após geração, quando  deveria ser eliminado”, e que “o racismo é uma ferida moral na cara da civilização ocidental.” Sem uma educação para o respeito e a dignidade, não mudam as estruturas.

O racismo é impregnado desde que nascemos. Uma das formas de controle para que não houvesse casamentos interétnicos se dava sobre os possíveis namoros. Se um filho ou filha de uma família branca se engraçasse com alguém que não fosse ítalo-germânico, ou no máximo, polonês, a briga era certa. Lembro de uma mulher que casou com um “serrano”, um “brasiliani”, como chamavam os brasileiros, e sofreu com a não aceitação da família. Diziam que ela ia passar fome e sofrer por escolher casar um homem não considerado branco. Era assim: não ter cor branca era banimento na esfera familiar.

Essas lembranças me vêm com fúria. As representações sobre pessoas não brancas – negras, índias, não ítalo-germânicas – eram de inferioridade, e nos eram passadas como se fosse a única verdade. Crescíamos com todos os preconceitos incrustados na pele e na alma. Quantas dores e sofrimentos; quantos amores não vividos; quantas exclusões e desqualificações por conta da cor da pele.

Então, a morte recente de um homem negro não é só a morte física de um homem negro:  é sua asfixiante morte provocada por um homem branco, que por certo tem família, vai aos cultos ou missas, é considerado pelos seus pares como um “homem bom”. Mas é também e infelizmente um fato histórico e mostra o quanto temos que mudar e aprender. George Floyd era um homem negro, e o racismo estrutural, misturado aos fascismos, tirou-lhe a vida. Dia desses, escrevendo sobre o Assassinato em Minneapolis, expressei meu lamento:

…uma cor, uma dor, um
coturno nas veias: asfixiava
Um era negro, suava;
precisava respirar.
Outro era branco, babava
no prazer de matar.
Menos de nove minutos
– o assassino sorria;
o negro, em agonia.
O racismo é cruel:
Mata todos os dias.

A respiração ofegante do homem negro é a mesma que tem massacrado milhões desde que homens brancos construíram impérios sobre o sistema capitalista e explorador que matou e mata homens e mulheres negras. Já basta! No Brasil vivemos situações tão trágicas quanto as que vemos pelas notícias de longe. Vidas negras importam. A vida de mulheres importa. Em meio a uma pandemia sem precedentes na história contemporânea, as mulheres pobres sofrem mais, elas estão sobrecarregadas de trabalho e cuidados com filhos.  As mulheres negras ainda sofrem as humilhações da raça, da classe e do gênero. Há que se mudar as estruturas.

O mundo será o mesmo depois dessa pandemia e dessas manifestações? Ambas põem a nu o capitalismo selvagem e o racismo incrustrado na cultura e no nosso cotidiano. Não basta se dizer antirracista: é preciso praticar a alteridade e saber ouvir, escutar, enxergar, agir, denunciar, indignar-se e dar as mãos.

É de se indignar, mãezinha.

 

Marlene de Fáveri, 07 de junho de 2020.  Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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