O avô e a avó da colunista, Antonio Zanelato e Henriqueta, com seus doze filhos; seis dela e seis da irmã que faleceu no parto/Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (12) – ou, de quarentenas, partos e memórias

Postado em 31/05/2020, 11:54

A colunista lembra-se de outras quarentenas, aquelas dedicadas ao pós-parto

Domingo, trinta e um de maio de dois mil e vinte. Me dei conta que o mês de maio já é passado. Hoje faz setenta e três dias de clausura. Era dezoito de março quando “estourou” a bomba do confinamento obrigatório e necessário em Santa Catarina. Nesta semana fez frio de doer os ossos dos dedos e avermelhar o nariz; tinha esquecido como faz frio aqui no sul profundo. Minha mãe parece não sentir tanto quanto eu, talvez porque se acostumou aos trabalhos inadiáveis e necessários à reprodução da vida desde antes do sol nascer, fizesse o frio que fosse.

Nestes dias, estivemos na horta e tiramos ervas daninhas que teimam em crescer mais que as plantas; e já colhemos rúcula e rabanete! Minha mãe cansa logo, e reclama: “mas eu tenho tanta coisa para fazer e não estou fazendo nada de útil”. Eu digo que passou oitenta anos fazendo tudo, agora tem que deixar que os outros façam as coisas. A cultura do trabalho está impregnada, uma cultura da educação camponesa numa colônia italiana, onde o ócio era sempre perder tempo.

Os limões amadurecem rápido, e o vento derruba abacates e nozes. Estas últimas minha mãe recolhe e, pacientemente, quebra a casca com um martelo, separa a parte comestível e armazena; faz muitos anos que temos nozes em casa, colhidas assim. Guevara e Tchê continuam a me barrar os passos, com olhar de esfomeados mas também ternos e carinhosos – estou me apaixonando por eles, logo eu que não curtia gatos!

Do atordoamento inicial quando a pandemia chegou até nós, e já que estava no interior com minha mãe, resolvi vestir a camponesa e ajeitar as árvores, os arredores da casa. E costurar máscaras para doar. O primeiro mês passou entre saudades e um desalento com as notícias que davam medo. Com o passar das semanas seguintes, as estratégias para proteger-me, e à minha mãe, foram sendo experimentadas de forma que agora fazem parte de meu cotidiano: sair de casa só o necessário, aproveitando uma única saída para resolver tudo; usar máscaras assim que ponho o pé fora de casa e embebedar as mãos.

Marlene em trabalho na casa da mãe, onde passa a quarentena, em Turvo, Sul de Santa Catarina/Foto: arquivo pessoal

Uma vez na rua, no mercado, na farmácia, no banco, tomo todo o cuidado e distanciamento. Antes era comum conversar nas filas, nos balcões das lojas, nos encontros de rua; agora, paira um silêncio de afogar a vontade de perguntar, falar, futricar. A distância entre as pessoas e o uso da máscara nos inibe, limita e nos faz olhar com certas desconfianças.

Voltar da rua preordena outro ritual: trocar o calçado, lavar as mãos, lavar ou alcoolizar tudo o que trouxe, lavar a máscara e se certificar que tudo o que encostou é higienizado: bolsas, roupas, sacolas plásticas, partes do carro onde manuseou. Ufa, uma trabalheira feita sob tensão. O cotidiano sofreu um avario, saiu do prumo, interferindo nas nossas práticas usuais, bem como nos limites da liberdade para encontros afetuosos. É angustiante.

Todavia, se a palavra angústia significa sofrimento, aperto, sufoco, neste momento pandêmico o sentido se alarga com as incertezas dentro de uma crise política sem precedentes na história do Brasil e a consequente crise econômica e de valores. Graciliano Ramos, lá em meados dos anos mil novecentos e trinta, misturando à crítica social a dor do amor e do abandono, disse das mentalidades conturbadas em época de mudanças, numa obra que chamou de Angústia. Vivemos essa angústia do estranhamento do devir, na desconfiança e nas incertezas.

Na semana que passou, circulou nas redes um pronunciamento do presidente da Argentina, no qual pergunta: “É angustiante salvar-se?”, referindo-se às angústias sentidas pelas pessoas em afastamento e quarentenas. “Angustiante mesmo”, disse ele, “é ficar doente e não poder salvar-se e o Estado te abandonar”. Concordei. Resignei-me a meu claustro. Isso me leva à inconcebível e criminosa forma como o mandante deste país tupiniquim debocha dos mortos e suas famílias, como lida com desprezo às medidas de higienização e preservação da vida.

Estamos sem rumo, sem leme, sem comando, sem projetos nem medidas para conter o avanço da pandemia. Que destino, que tragédia anunciada.

Dia desses, numa conversa sobre a quarentena e o Covid-19, fez minha mãe misturar esta às suas quarentenas pós-parto: “Ah, eu fazia de tudo. Tinha os filhos e no outro dia já estava de pé, fazendo os serviços”, disse. Num surto da memória a vi ali sentada à mesa como a vi há meio século, acostada para um mísero descanso em seu vestido claro de listras azuis esticado e grávido. Esse detalhe marcou minha infância e grudou em minha memória, tanto que em meados da década de mil novecentos e oitenta, registrei essa lembrança com o que foi o quarto rebento de minha mãe:

Os vestidos de minha mãe eram dois
Listrados, com pregas no ventre.
Lavava, cozinhava, costurava,
Capinava, plantava e colhia.
Era calor de novembro e ela
Sentia pontadas do que era seu
Quarto rebento – ela sofria.
Eu achava que ela era de aço.
E, assim, veio Maria.

A mãe da colunista no dia do casamento/Foto: arquivo pessoal

A conversa entre mulheres à mesa esticou e, sem noticiários atrapalhando, já que desligamos a televisão, ela comparou quarentenas: “Mas era diferente, a gente não ficava dentro de casa”.

Sua memória correu para o passado e seus olhos marrons visualizaram um infinito cone, e dali retirou detalhes de minha vinda ao mundo:  que eu fui apartada de seu ventre pelas mãos de sua mãe, a nona Henriqueta, que era parteira “desde sempre”.

Eu custei para nascer, minha mãe passou muito mal, tanto que, logo após o parto, a levaram de carroça para o hospital de Meleiro – e lá fui registrada por meu pai, tanto que sou meleirense na identidade – onde ela ficou para refazer-se. Era seu primeiro parto.

Trago na memória imagens da minha nona, mãe de minha mãe, por vezes saindo apressada com alguém que vinha chamá-la para atender a uma parturiente a qualquer hora do dia ou da noite. Saia a pé, de carro de boi ou aranha (carroça), com sua bolsa de apetrechos e umas providências, já que não podia prever quando voltaria. O trabalho voluntário de parteira fazia parte de suas convicções religiosas, e jamais negou auxílio na “boa hora” de uma mulher, fosse quem fosse.

E ela cuidava que as parturientes tivessem um descanso, uma “pequena quarentena”, dentro do possível, e ficassem bem antes de minha nona voltar a seus inúmeros afazeres de uma família numerosa.

No dia de seu enterro, e faz uma década, em cima da hora foi-me atribuída a tarefa de falar sobre minha nona em homenagem. A pequena igreja de Vila Maria estava lotada de pessoas que a conheciam desde sempre, o que aumentou a minha responsabilidade de tirar da memória um pequeno discurso. Então, olhei-a com as mãos cruzadas e segurando um rosário, me veio uma ternura imensa e falei sobre as mãos que ali, no caixão, segurando o rosário, eram as mesmas que apartaram-me do ventre de minha mãe, e também fizera o parto ou apartara a maioria das pessoas presentes naquela cerimônia de despedida. Senti olhos marejando, como os meus, por toda gente ali na igreja.

Foto: arquivo pessoal

Naquele tempo, não faz muito porque eu era menina, uma urgência por um acidente de trabalho, ou os quase anuais partos das mulheres da casa e da vizinhança, já que era prescrito que fossem parideiras, desde o ocorrido até chegar a um socorro era um transtorno. Havia que buscar um cavalo ou boi na pastagem, encilhar ou cangar, juntar pertences necessários e partir. Morávamos a uma distância de 20 quilômetros até o hospital próximo, por estradas de terra, não raro com buracos, pedras, rios e morros, o que dificultava o deslocamento. Nem sempre dava tempo de chegar ao destino, e mulheres passavam mal, crianças nasciam no meio do percurso e, infelizmente, muitas mulheres morriam em condições inóspitas, sofrendo com dores e pontadas.

Minha mãe disse que pior que não ter quarentena era que “levavam para o hospital somente em último caso, e muitas morriam assim”. Sua memória sobre quarentena é associada a partos, temores, receios e distâncias. Ela lembra: “A primeira mulher de meu pai morreu em casa. Ela tinha cinco filhos, e no sexto passou mal e morreu, mas salvaram a criança”. Salvar a mãe era importante, tanto quanto salvar a prole, que seriam mãos para cultivar a terra. Filho homem era sempre bem-vindo, já que o costume era que um filho homem cuidasse dos pais e reproduzisse a família numerosa, com uma esposa trabalhadeira e parideira.

Do primeiro parto, principalmente, esperavam que fosse homem; quando eu nasci, minha mãe ficou feliz, mas não sabe se os outros ficaram.

Nem sempre meninas eram bem-vindas. Me contou, dia desses, uma camponesa aqui em Turvo: “Quando nasci, meu pai perguntou se era menino ou menina” e, ao saber que eu era menina, disse: “então, manda de volta para o mesmo buraco de onde ela saiu”. Desde então ela vive com uma “mágoa funda” que lhe deixou a cicatriz que a memória do corpo e da alma não desfaz. Fruto do machismo advindo de uma cultura e educação de desqualificação das mulheres por não serem consideradas provedoras, esse pensamento perdura em muitos lugares.

Há estudos sobre mulheres viúvas – pensão, ressignificação após a viuvez, viúvas da ditadura, etc – mas desconheço que se tenha escrito sobre viúvos, especialmente do meio rural. Era comum que o viúvo logo buscasse outra mulher para a reprodução da vida, os cuidados com os filhos órfãos da mãe, os afazeres domésticos e da produção. Meu nono, viúvo da primeira mulher, casou com a jovem cunhada, minha nona, que viveu para trabalhar, rezar e parir.

Com certeza alguns homens tiveram que aprender na marra a tomar providências na urgência de um parto a caminho, quando as acompanhava. Na educação dos homens, as “coisas de mulheres” passavam ao largo, e os cuidados com os recém-nascidos eram expressamente atribuição expressa das mulheres do campo. Quando um bebê chorava, meu pai, se escapulia rapidinho do quarto e ia dormir em outro lugar. Como já disse, os corpos dos recém-nascidos e dos mortos pertencem às mulheres, assim como os cuidados com os doentes e os velhos. Quantas de nós estamos agora lidando com essa urgência? Com o isolamento, espera-se que tomemos conta dos cuidados com os filhos, os idosos, os doentes.

Foto: arquivo pessoal

Na conversa sobre a quarentena, comparando a que nos obrigamos hoje e a das mulheres quando pariam, surgiram relatos de violências e dores. Minha mãe, Rita, a cuidadora de minha mãe e eu contamo-nos nossas impressões, as de ontem e as de hoje, sempre calçadas nas experiências que vivenciamos. Mulheres como minha mãe que passaram por muitas provações e sabem da dor e das perdas, se solidarizam com as tantas mortes – hoje contabilizamos em torno de trinta mil mortos no Brasil, e minha mãe se angustia. “Que tristeza para tanta gente”, disse ontem, numa dor que parecia consigo, ouvindo o noticiário.

Passados setenta e três dias desde que a pandemia entrou nas nossas vidas, ou na minha mais especificamente, já nos acostumamos a ouvir nos noticiários sobre os óbitos que aumentam numa média de mil diariamente, sobre contágios e estatísticas, sobre a falta de respiradores, sobre enterros coletivos e superlotação de hospitais chegando quase a uma impensável banalização da dor. Também estamos nos acostumando aos noticiários da já insuportável disputa pelo poder por parte do governante verdugo e seus asseclas, num jogo de forças entre os poderes e os discursos com o amontoado de palavrões exacerbando a masculinidade tóxica com a qual move o destino triste desta nação. Atabalhoados, assistimos à reunião ministerial que mais se pareceu com uma seita mafiosa, uma vergonha de dar angústia, um acinte à nação. Não, não merecemos esta desordem, esses monstros a nos afligir no bordejar da pátria que já foi mãe gentil.

Continuo com todas as saudades, embora elas vão mudando o tom dos sentidos. Estou quase me acostumando com coisas urgentes resolvidas pela telinha, o que é insano. Não, não quero me acostumar com isso.

Vou pedir pela terceira vez: Santa Rosália, padroeira de Palermo, devolva nossos desejos ardentes sem medo, nossos afetos em forma de abraços. Repita o milagre e expurgue essa pandemia!

Marlene de Fáveri, Turvo/SC. 31 de maio de 2020.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri