Costumo ouvir de amigas e familiares que, ao chegar na faixa dos 30 a 35 anos, começam a questionar o próprio trabalho. E eu mesma passei por isso, até um pouco mais cedo. Não porque ficou mais difícil ou cansativo, mas porque deixou de fazer sentido. 

Estudos indicam que as mulheres atingem a maturidade emocional por volta dos 32 anos, justamente quando muitas percebem que aquilo que executaram por anos já não combina com quem se tornaram. A rotina deixa de inspirar, o propósito se enfraquece, e cresce a dúvida sobre seguir sustentando trajetórias que parecem servir mais ao sistema do que à quem são. Nesse ponto surge a pergunta “o meu trabalho ainda me representa?”

Ano novo sempre nos traz reflexões, e imagino que muitas de vocês, leitoras, estejam se questionando se estão de fato trabalhando com o que acreditam. Longe de mim colocar essa transição como uma escolha fácil e simples, afinal, as contas não param de chegar enquanto optamos por descobrir nosso propósito, não é mesmo? Mas o que os números mostram é que, apesar das dificuldades, estamos cada vez mais nessa busca.

Uma pesquisa da DataCamp mostra que 52% das mulheres brasileiras consideram fazer uma transição de carreira.

Ou seja, mais da metade das mulheres do país pondera a possibilidade de mudar de profissão. Segundo o estudo realizado pela Maturi, plataforma dedicada ao mercado de trabalho para profissionais com mais de 50 anos, 39% das mulheres gostariam de realizar uma transição de carreira para buscar novos desafios profissionais e 25% para seguir uma paixão, desejo ou interesse antigo.

O estudo do DataCamp aponta a razão que muitas vezes impede essa virada, 15% delas reconhecem o desejo de mudar, mas dizem sentir medo de arriscar. O receio de abandonar a segurança do conhecido para enfrentar a incerteza do novo ainda é uma das principais barreiras para que o desejo se transforme em ação.

A maturidade muda a conversa

Conforme o tempo vai passando, a maturidade vai ganhando espaço e passamos a ter mais lucidez, autocrítica e coragem para reorganizar quais são as prioridades na nossa vida e o que a gente realmente gosta de fazer. Dados apurados pela Maturi mostram que 70% das mulheres entre 43 e 82 anos estão em transição de carreira. O levantamento, que ouviu mais de duas mil pessoas, mostra que mulheres mais velhas não só repensam a própria trajetória, como efetivamente a transformam.

Essa movimentação revela um padrão contrário ao estereótipo de que transições profissionais são exclusivas dos mais jovens. São justamente as mulheres com mais experiência acumulada que estão remodelando suas jornadas.

Elas carregam repertório, autonomia e clareza para reconhecer quando o trabalho já não acompanha quem elas se tornaram.

Quando o trabalho deixa de caber dentro de quem somos, o desconforto não é um fracasso, é um convite. Um aviso de que crescer pode significar, antes de tudo, deixar para trás o que já não acompanha a nossa expansão. As mulheres que estão atravessando essa fase mostram que recomeçar não é uma ruptura, mas uma continuidade mais fiel a quem se é. 

Talvez essa seja a grande descoberta com o passar do tempo: perceber que nunca é tarde para mudar e que o momento certo é menos sobre um período genérico no tempo e mais sobre a nossa própria jornada, que é única e valiosa. Fica a provocação: o que está hoje na sua vida que já cumpriu a função que precisava cumprir?

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  • Júlia-Vergueiro

    Sócia fundadora da Nossa Arena e fundadora do Instituto Nossa Arena. Seu trabalho é voltado para dar visibilidade e opor...

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