Coluna da Princia Beli

Açaí

Postado em 25/01/2019, 15:49

Escutei uma vozinha na medida em que descia o escadório da galeria Jaqueline; ladeada de lojas convencionalmente antinaturais.

Vendia-se de um tudo… Retalhos, fuxicos, pomadas com ervas secas, instrumentos musicais, artesanatos em mdf cru.

Uma ruela de cantos e recantos, meus olhos miravam.

O quê?

Perguntei ao lançar-me ao penúltimo degrau da pequena escadaria com corrimão indelevelmente antigo e pouco cuidado. Havia uma estranha divisão do apoio – aparentemente foi forjado lados. De um para subir, do outro só poderia descer.

O pequeno estava sentado encostado na parede do lado da descida.

Eu, tipicamente manezinha com os pés vestidos por chinelo de dedo, parei ao som meio longínquo.

Eu quero comer açaí. Novamente escutei com mais atenção.

Os olhos esbugalhados, a boca carnuda em pele jambo, na beira da escada, sentado com um cesto pequeno de palha mesclado com azul. Segurava, o infante, um recipiente aberto para sólidos soltos.

Acendeu imediatamente minha curiosidade. Aquela ribalta posta a céu aberto não ornava – criança, chão, declive e mendicância naturalizada.

O filho indígena, porém não herdeiro do trono asfalto, coletava moedas e cédulas.

A cena paralisou meu andar no momento em que baixava minha cabeça para escutá-lo melhor, enquanto a face me indicava que ali havia um pedido de infância deslocada.

Nisso, um homem branco barbudo com ar europeu punha a importância de alguns tostões no baú indígena.

O pedido baixinho, quieto, tal qual passarinho pousado e despenado diante do calor insano, provindo da frieza do mármore daqueles degraus.

O pequeno dedo apontava para a loja de fast food que estampava na faixada o natural fruto furtado, num verão de 40o .

Lucrava, a tenda, em pleno vapor numa sensação desconcertante de 50o, com o açaí do Pará. E uma porta não mais da esperança, mas do particular os separavam.

Ironicamente da palmeira amazônica.

Aprumei meu olhar no menino enquanto ele escolhia o que complementar seu pedido.

Com as pontas dos pés esticados alcançando o cardápio colado no balcão, o dedinho apontava para o leite ninho e para a porção de granola.

Diante do balcão não tinha altura e estava se tornando um conhecedor dos sabores enlatados.

Se Andy Warhol estive ali reinventaria a sua invenção: a pop art seria reproduzida serialmente com a variação de uma só cor – a da escancarada dizimação, versão 2019.

E no futuro do presente do indicativo os fatos seguem como referência do que acontecerá no momento posterior ao discurso.

Expressando uma incerteza, senti mesmo que no ar havia uma ordem executada.

E os originários, na atualidade, em sua ignota condição de desconhecidos, receberam-nos sem conjugação.

Eu. Cidadã brasileira, fiquei com meus botões.

– entenderei
– entenderás
– entenderá
– entenderemos
– entendereis
– e, entenderão ???

Os tambores do coração da irmandade não ecoavam no santuário da mercancia do açaí. Ali, ninguém se mexeu.

Ao invés disso recostaram-se na cadeira com encosto de juta, desconcertados com o invasor que adentrou no espaço privado para pedir um fruto da Amazônia misturado ao guaraná “coincidentemente” amazônico, servido, agora, liquidificado e gelado, em copo plástico.




Príncia Béli, alma de Artista, mente de Gestora em um corpo de mulher. Tem contribuições com a poesia "Habitualidades" na coletânea Cotidiano; micro contos: Carnavalis e Salão de Festa a Vapor no livro Floripa em 100 palavras. Lançou o livro de artista Linda Liz, em 2017 e o Zine Color - Jardim de Curas, em 2018. Escreve contos, poesia como forma de manifestação das (des) ordens humanas em busca da compreensão mais elevadas de nossos feitos ,ou, como simples registro para expandir nossos olhares.
Veja a coluna da Princia Beli