Coluna da Silvana Leal

Invertido Universo

Postado em 20/09/2017, 10:58

Caras leitoras e leitores,

Cá estou de volta às voltas com o número 2 da coluna invertebral para tratar de assuntos bastante vertebrais de nossa sociedade passada e atual.  Vou contar a vocês um pouco sobre o que vem a ser a Teoria Erótica do Toque, que citei na matéria anterior. Esta teoria que proponho na introdução do livro Erotismo Proibido nos Lábios (2001), e que de cara vamos deixar bem claro, não é uma teoria acadêmica, nem tão pouco comprovada cientificamente, se entendida aos moldes convencionais. Mas como ela surge em um contexto nada convencional e bastante libertário, não poderia ser diferente. Trata-se, portanto, de uma teoria que ouso chamar de poética. Sendo, eu, em 1994, uma aluna que acabara de sair da academia e estava totalmente engajada com um projeto de vida como pessoa e como mulher de natureza livre, a teoria foi se delineando a partir da proposição do próprio livro, na qual o título propunha uma inversão de valores, em um paradoxo que trazia à tona a ambigüidade, tanto na palavra proibido, quanto na palavra lábios, e ainda mais na palavra erotismo.

Neste contexto inicio o livro falando:Erotismo Proibido nos Lábios explicita, primeiramente, o que comprime o existir humano. Contesta a condição feminina sob o prisma da condição humana. Busca o clareamento das condições humanas do existir. Não fala de uma sexualidade proibida, fala de um saber sensorial ‘proibido’, de um sentido do vivido, camuflado no cárcere de nossos desejos. Fala ainda de todos os ‘dispositivos heterogêneos’ que nos cerceiam e dos universos familiares aos quais estamos enraizados”. A partir deste ponto indagamos: quantas mulheres na geração de nossas mães e avós passaram a vida sem sequer experimentar o ato que se masturbar? Ou nem sequer tocar no próprio corpo para obter prazer? Mulheres que tinham medo ou vergonha de si mesmas, enquanto corpo. Corpo feminino, tido como lugar de proibição. Não tínhamos somente a vergonha de falar, mas éramos proibidas até mesmo de sentir nossos desejos mais íntimos. Éramos ensinadas apenas a reproduzir. Ser mãe, pura, casta, virgem como Nossa Senhora – a Virgem Maria.  E quantas de nós ainda reproduzimos esta proibição? Quando me refiro ao Erotismo não estou a falar unicamente de sexualidade, mas estou a falar de um princípio de prazer ligado à vida, estar vivo e se sentir vívido.

Quantas de nós mulheres ou mesmo homens percebemos este simples movimento? Seja no ato de se masturbar, no ato amoroso, seja no gosto em viver, estamos pronto para esta entrega verdadeira com a vida? Ou estamos somente passando sem gozo algum por ela? Exercitamos o que gostamos? Transamos com quem realmente queremos? Temos prazer nos nossos atos cotidianos? Nos nossos trabalhos? Na nossa vida como um todo? Quanto nos permitimos ser livre de nós mesmos e de nossas proibições? Será que somos capazes de tomar pulso de nossas próprias escolhas? Ou seremos eternamente vítimas da escolha do outro? Fico por aqui com a certeza de que muitas destas indagações do passado de nossas mães e avós foram superadas por nós, mas quanto ainda temos para superar a nós mesmas para alcançar a verdadeira condição humana, que transcende até mesmo a condição feminina? Um forte abraço a todas e todos que por aqui estão acompanhando a coluna invertebral e até a próxima edição! Curtirei compartilhamentos, sugestões, opiniões, trocas. Grata!

Invertido Universo
Universo felino-feminino
Vão suspenso da história
Heroína do próprio romance
Simbolismo dos dias

Não quero teus velhos arquétipos
Sim, a “Felicidade Clandestina” de Clarice
Dançar entre as barbas de “Orlando”
E deliciar-me com o “Segundo Sexo” de Simone

Enquanto vagueio pela rua
Da “Casa do Incesto”, onde lá
Certamente mora o imaginário
Inviolável de Anais Nin

Não te quero matéria nua-crua
Enjaulada no tempo de teus avós
Quero que masturbes meu sexo
Com a mesma honra com que masturbas o teu

Dama da escuridão, vagando
No branco areão do desejo
Faço de conta que estou a acreditar
Neste teu olhar de falsa amante

Como posso vê-lo? O buraco é negro
Por medo vagueio, sem ao menos tocá-lo
Escapo entre pálpebras de pequenos hábitos
Hálito aliciado embalsamado pelo musgo molhado

*Foto e poema de Silvana leal, extraídos do livro “Erotismo Proibido nos Lábios” em palavras e imagens

 

 

 




Silvana Leal é artista multimeios, desde o início de sua carreira trabalha com a fotografia, a literatura e principalmente a performance como suporte básico de seu trabalho. Publicou os livros “Erotismo Proibido nos Lábios” em palavras e imagens (2001), Todo corpo (2007) pela Travessa dos Editores, Palavra Açúcar (2012) pela Papaterra editora, e o Catálogo O que há de vir? (2012). É diretora do espaço Ateliê Casa das Ideias, em Florianópolis, na qual coordena projetos culturais, desenvolve trabalhos de criação e curadoria para artistas.
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