Até quando vamos fingir que a cultura influencer não é detrimental?

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Imagem: reprodução.
Postado em 17/01/2022, 11:58

Joanna Burigo reflete sobre como a cultura influencer é nociva para mudanças sociais ao acatar o jogo da hegemonia.

Selecionei e copiei abaixo alguns trechos do ótimo texto de Débora Nascimento para a Revista Continente, que se desdobra a partir de um comentário da atriz Alice Braga sobre a exigência recorrente de diretores de casting pelo número de seguidores de um ator ou atriz para considerar contratação para um trabalho de atuação. Em outras palavras, sobre a evidente obrigatoriedade de verificação de popularidade por supervalorização desta em detrimento de coisas como talento e competência profissional.

Braga expôs o que todo mundo sabe, mas ainda não está exatamente articulado, que é: a fama pela via de performance nas redes sociais, sobremaneira no Instagram, hoje é mais relevante para contratação de profissionais do que formação ou treinamento profissional.

O comentário e crítica da Alice Braga são o mesmíssimo comentário e crítica que venho fazendo, na minha coluna Pílulas de discernimento no Portal Catarinas, sobre cultura influencer no contexto do feminismo e outras práxis disruptivas. O que mais vejo são duas perversões que a cultura influencer fez de questões importantes sobre identidade.

Uma gente com nível básico de leitura e nenhum treinamento pedagógico fazendo cosplay de professorinha para passar de grande intelectual de gênero e diversidade, recebendo muito bem, ganhando muitos mimos e levando muita fama, assinando curadoria de livros, dando aulas sobre de diversidade, e explicando gênero nas mídias e DCEs com platitudes oriundas de individualismo. Pura performance de educação, palatável apenas por estarmos tão anestesiades com ativismo performático que já não conseguimos distinguir uma ação de sua simulação.

Outra gente realmente competente e sabida e treinada para questões de identidade tendo que dançar essa dança da fama, escolhendo expressar não o mal-estar que a hegemonia cis hétero branca causa, mas ostentar o quão confortável está em sucumbir, digo, fazer performance de superação dela.

Há na internet já tão arraigada a noção de que feminismo bem-feito é feminismo feito por quem tem seguidores que é muito fácil e rápido esquecer que a tática para conseguir seguidores é diametralmente oposta às estratégias para incomodar o patriarcado.

A feminista influencer é o equivalente da atriz influencer. A feminista influencer não é necessariamente a mais competente ou dedicada ao feminismo, assim como a atriz influencer não é a mais competente ou dedicada à dramaturgia. Nos dois casos a lógica influencer, que é a lógica de se fazer imagem para se fazer rentável, sobrepõe quaisquer outras lógicas.

A lógica de se fazer rentável é boa para a pessoa que está lucrando — e a cultura influencer foi tão bem amarrada pelo capital usando identidade como commodity que se eu faço essa crítica arrisco parecer recalcada por ver minorias vencendo. O caso é que estas pessoas podem até estar vencendo, individualmente e beneficiando seu entorno, e isso é mesmo motivo de alegria e celebração. Mas estão fazendo isso na contramão do discurso que empregam: as meninas do mundo continuam SOFRENDO por conta de continuarem aprendendo que é mais lucrativo desejarem ser, e se organizarem para ser imagens de desejo alheio do que sujeitos do próprio desejo.

E estamos tão reféns dessa pataquada que a Débora termina seu ótimo texto mandando beijo e desejando sucesso para as influencers que criticou. Que, realmente, como sujeitos, não são o alvo da crítica. Não são da minha, não são da dela. Mas estão blindadas por nosso entendimento de que não podemos criticar minorias por jogarem o jogo da hegemonia.

Mas até quando vamos fingir que essa cultura influencer não é detrimental? Até quando vamos fingir não notar que mulheres e outras identidades histórica e sistematicamente marginalizadas estão sendo instrumentalizadas pelo capital, e não subvertendo sua supremacia, que é branca e cis? (Atenção ao bebê na foto.)

Não sei, mas se vou ter que representar algum papel para ser ouvida e considerada na época das redes sociais, definitivamente não será o de gatinha manhosa, nem o de pantera negra, tampouco de rainha do drag didático. Me sigam para mais fogo no patriarcado pelas mãos da bruxa chata.

***

Trechos do texto de Débora Nascimento:

“Como ficou mais do que confirmado no depoimento de Alice Braga, ter uma boa quantidade de seguidores representa, nestes tempos malucos, uma valiosíssima moeda de troca, porque, em tese, sugere que a pessoa “muito seguida” (essa expressão, alguns anos atrás, significava que essa pessoa estaria em apuros) teria uma grande importância na sociedade. Isso se traduz, na prática, em ganhar vantagens e mimos, que podem variar de roupas, cosméticos, ingressos para eventos e lançamentos, eletrônicos, eletrodomésticos, cirurgias plásticas, viagens, carros e “agora” até preencher vagas de emprego que deveriam prezar principalmente pelo talento. Na permuta, o beneficiário dono do perfil vende a sua privacidade e um estilo de vida inalcançável (para quem não recebe patrocínio, daí é subentendido que o seguidor compre os produtos e serviços vendidos pelo influencer para alcançar esse estilo de vida). Sempre com uma imagem e ideia de perfeição, baseadas em padrões estéticos e comportamentais vigentes.”

(…)

“As respostas mostraram que os temas dos posts que afetam diretamente a saúde mental das adolescentes são, nessa ordem: namoro e romances, beleza e intervenções estéticas e corpos das celebridades.

(….)

“Isso aumenta o índice de distúrbios psicológicos nessa fase, gerando ansiedade, estresse, depressão e provocando até suicídio. E isso não é alertado a usuários ou responsáveis dessas garotas. A pesquisa descobriu que, por outro lado, há conteúdos que não causam esse tipo de comportamento danoso à autoimagem de jovens: esportes, religião, atividades políticas ou hobbies (música, artesanato, jardinagem, jogos, TV, filmes), porque enfatizam um senso de coletividade e não individualizam uma imagem de perfeição.”

* O texto acima foi publicado em 31 de dezembro de 2021 em meu perfil de Facebook e, em resposta a um comentário feito por minha amiga-formiga, como ela me chama, Ivy Farias, escrevi o trecho a seguir, que faz sentido adicionar a esta publicação: “eu sempre fico aflita depois de publicar textos assim, sempre acho que tem alguma coisa que não estou vendo, e que estou sendo terrível. Depois lembro que é óbvio que há muito mais coisas que não vejo do que coisas que vejo, e que narrar o patriarcado é terrível. As coisas como elas se apresentam dão nó na gente, e eu não gosto de fingir que está tudo bem.”

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Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
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