Gloria Marie Steinem, jornalista estadunidense e ícone feminista, faleceu ontem, 02 de setembro de 2026, aos 92 anos, em sua casa em Nova York, conforme comunicado hoje em sua conta de Instagram.

Ela nasceu em 25 de março de 1934, em Toledo, Ohio, mas sua carreira decolou em Nova York. Alçou-se à grande fama em 1963, ao ter feito, disfarçada de Coelhinha da Playboy dentro do Playboy Club, uma reportagem investigativa para a extinta revista Show em que denunciava os abusos do “complexo de lazer” de Hugh Heffner (1926-2017). 

Seu artigo jornalístico de 1962 sobre contracepção para a revista Esquire, dirigida ao público masculino, abordava as formas como as mulheres eram obrigadas a escolher entre carreira e casamento, e engendrou um debate que antecipou a segunda onda do feminismo nos Estados Unidos. 

Após realizar um aborto em Londres, em 1957, Gloria Steinem fez desta uma causa central de seu ativismo. Em 1969, cobriu para a revista New York um histórico depoimento público sobre o tema, que ajudou a popularizar o conceito de “liberdade reprodutiva”. Em 1992, co-fundou a Choice USA – hoje União pela Equidade Reprodutiva & de Gênero (Unite for Reproductive & Gender Equity – URGE) – organização dedicada à defesa dos direitos reprodutivos.

Crédito: Site oficial de Gloria Steinem

Fundou o National Women’s Political Caucus em 1971, com cerca de trezentas outras mulheres. A organização multipartidária até hoje recruta, treina e apoia mulheres candidatas a cargos públicos. Em janeiro de 2017, atuou como presidenta honorária e oradora na Marcha das Mulheres em Washington, realizada um dia após a primeira posse de Donald Trump.

Também em 1971, com Brenda Feigen e Dorothy Pitman-Hughes (1938-2022), fundou a Aliança de Ação das Mulheres (Women’s Action Alliance — WAA), organização feminista que atuou até 1997. Em 1972, com Pitman-Hughes e outras, fundou a revista feminista Ms. – que surgiu como uma edição especial da revista New York, mas, visto que as 300 mil cópias do projeto experimental se esgotaram na primeira semana, logo a publicação ficou independente. 

Crédito: Carly Romeo/Site oficial de Gloria Steinem.

A Ms. continua existindo, hoje sob a responsabilidade da Feminist Majority Foundation, com edição impressa trimestral e site atualizado diariamente.

O nome da revista – Ms. – é um excelente uso feminista da língua inglesa, pois oferece às mulheres uma forma de tratamento que, assim como o invariável Mr. para os homens, não revela estado civil: enquanto, em inglês Miss identifica uma mulher solteira e Mrs. uma mulher casada, Ms. nos define como indivíduos, independentemente de nossa relação com um homem.

Gloria Steinem foi casada uma única vez, com o empresário e ativista sul-africano-britânico David Bale, curiosamente pai do ator Christian Bale.

A primeira edição da revista Ms., lançada em 1972 | Crédito: Wikipedia.

Em 2005, com Jane Fonda e Robin Morgan, co-fundou o Centro de Mídia das Mulheres (Women’s Media Center), organização que trabalha para ampliar presença, influência e poder de decisão de mulheres e meninas na mídia, produzindo pesquisas sobre desigualdade e representação, capacitando mulheres para atuar como fontes e porta-vozes, e conectando especialistas a jornalistas. 

Ainda em vida, Gloria recebeu inúmeras honrarias (incluindo as prestigiosas Medalha Presidencial da Liberdade e Medalha Ceres das Nações Unidas), teve quatro biografias escritas e dois documentários feitos sobre ela, concedeu múltiplas entrevistas e discursou em inúmeros eventos.

Foi representada, mencionada e apareceu em dezenas de filmes, peças de teatro e programas de televisão. Publicou 12 livros e deixou um último, ainda inédito, chamado An Unexpected Life (Uma vida inesperada). A obra também foi mencionada em sua conta no Instagram junto com o anúncio de sua passagem. 

Segundo o post, ela passou seus últimos anos escrevendo e recebendo pessoas em sua sala de estar, no compromisso de transformar sua casa em um centro para movimentos de justiça social, na esperança de que seus efeitos se propaguem pelas gerações futuras. Também segundo o post,  “Gloria foi fiel ao seu espírito independente, sempre com curiosidade e um grande senso de humor”, e “em vez de flores, pediu que as pessoas que desejarem homenageá-la façam uma doação à sua Fundação, Gloria’s Foundation“. 

Steinem moveu muito discurso, ativismo e dinheiro em prol da luta das mulheres. Sua vida dedicada ao feminismo fez a própria dizer, para o livro Women of Wisdom (Mulheres de Sabedoria), de Lynn Gilbert, que ter se tornado um símbolo do movimento de mulheres se deu pois “não havia categoria onde encaixá-la”, e também porque “nunca existiu um equivalente masculino dela”, assim a imprensa precisou identificá-la diretamente como feminista.

Isso sempre me inspirou, e até hoje, dependendo de quem me pergunta o que faço, respondo “feminista profissional”. 

Todo feminismo chegou em mim depois de eu ler, em 2003, O Relatório Hite – um Profundo Estudo sobre a Sexualidade Feminina, livro de 1976 que me apresentou para o conceito de pesquisa feminista. A autora é Shere Hite – meu ícone feminista pessoal, que autografou minha cópia em 2013, e faleceu em 09 de setembro de 2020. Me arrependo de não ter feito um obituário para ela, e por isso, talvez, tenha me sentido tão compelida a escrever este para a incomparável Gloria Marie Steinem. 

Viva Gloria! Seu nome será lembrado, seu impacto na história não será esquecido e seu legado continuará a inspirar gerações. O feminismo e o mundo serão para sempre gratos por suas incomensuráveis contribuições para o melhoramento da humanidade. 

Obrigada pelo trabalho belo e transformador que você nos ofereceu, implacavelmente, nos seus bem vividos 92  anos. 

Rest in power. 

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  • Joanna Burigo

    Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC e autora de "Patriarcado Gênero Feminismo" (Editora Zouk, 2022). Formada pela PU...

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