Mares do Desterro é um filme feminista de 2021, dirigido por Sandra Alves. O início é marcado por uma lentidão quase hipnótica. Quase não há falas: o silêncio domina, as paisagens se impõem, os gestos mínimos carregam significados ocultos. É a exata descrição de Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas: “Gente mais calada em si e sozinha, moradores das grandes distâncias”.

E é como se ele nos obrigasse a habitar aquele espaço de isolamento, a sentir o peso da solidão e da opressão que se acumulam em cada olhar e em cada movimento contido. Essa cadência lenta, que pode até incomodar, prepara o espectador para a ruptura que virá, o grito que rasga o silêncio e desestabiliza toda a ordem patriarcal.

A obra começa assim e chega a incomodar, para desaguar num grito que ensurdece o Patriarcado. Literalmente, o Pater familias termina nas águas. No “andar da carruagem”, lembrei-me da conexão que fiz em “Cartas a um homem negro que amei, sobre as proposições do filósofo alemão Ludwig Wittgenstein, centradas na ideia de que os limites da linguagem determinam os limites do pensamento e do mundo. Uma delas é: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. Eu escrevo: “Sobre aquilo de que não se pode falar, é melhor gritar”. E foi exatamente o que a protagonista, Divina, fez.

Quem estabelece o que não se pode dizer, numa sociedade patriarcal, são os homens, aqueles que ditam as leis públicas, as normas jurídicas, os estatutos, os códigos de respeitabilidade. Mares do Desterro, com paisagens fantásticas, de solidões que habitam o mesmo espaço, intriga a espectadora. A solidão é de Divina, de Luzia e Mariano; o pai, Joaquim, ao contrário, nunca está só. 

Como diz Rita Segato em Crítica da colonialidade em oito ensaios: uma antropologia por demanda, o homem, ainda que fisicamente só, jamais age isolado, pois a masculinidade é um mandato coletivo, presente na “esfera mental do agressor”. É a este grupo, aos seus pares, que ele dedica o espetáculo da posse forçada, a exibição de poder sobre o corpo da vítima. 

Já as mulheres isoladas, estão sós e pronto. Desarmadas até mesmo psiquicamente, pois não há por trás delas, ou dentro delas, uma corporação que as fortalece. Na vulnerabilidade, tornam-se presas fáceis.

Por isso a estratégia masculina de isolá-las da família, das amizades e, quando possível, até do mundo.

Não são raros os casos de mulheres sequestradas por seus companheiros, de meninas presas em porões, de outras em cárcere privado.

Que segredo é esse que a família esconde? E Serena, a jovem filha e irmã que desapareceu, sobre quem todos falam e, ao mesmo tempo, não falam? Por que sumiu? O que aconteceu? Intuímos na figura do pai-patrão, do marido autoritário e violento, e da esposa submissa que preserva o homem a qualquer custo: “o meu pecado foi colocar o meu homem na frente dos meus filhos”.

Divina, a irmã gêmea de Serena, é a mais lúcida, a mais raivosa, a mais “ruim” da família, como dizem os pais. É ela quem quebra o silêncio, quem desobedece, quem liberta o irmão do quartinho onde vive como bicho. É a filha ensinando à mãe o que é abuso, o que é errado, o que um pai não deve fazer com a filha.

Aqui não há espaço para amores românticos: a crueza da violência patriarcal se sobressai. O que há é dependência emocional, uma mulher incapaz de reagir, uma filha que não está disposta a guardar segredos de família e que exige justiça.

A voz se ergue com raiva, muita raiva, como a personagem Ceci, do meu livro Ensaio sobre a raiva, que herdou os silêncios e a submissão das mulheres da família e rebelou-se contra eles. A revolta de gerações explodiu nela. 

Assim, também em Mares do Desterro, aquele início calmo, de ondas e areia, irrompe em Divina, que joga na cara do pai o incesto, o motivo da fuga da irmã, a falta de coragem da mãe. E é nesse instante que o filme encontra sua síntese: no grito de Divina.

Um grito que não é apenas voz, mas rasgo, ferida e libertação. Ele rompe os limites da linguagem e inaugura um espaço onde o silêncio não é mais possível. O grito de Divina ecoa além da tela, atravessa a espectadora e se torna memória coletiva, lembrando-nos que o desterro não é silêncio, mas enfrentamento.

O filme não fala apenas de uma família isolada, mas de uma estrutura social que se repete em diferentes lares, cidades e países. O silêncio das mulheres, a cumplicidade forçada, o medo de romper com a ordem patriarcal, tudo isso ecoa em estatísticas de feminicídio, em processos judiciais que desacreditam vítimas, em comunidades onde a violência doméstica é naturalizada. Mares do Desterro denuncia não apenas um pai autoritário, mas um sistema que legitima sua autoridade.

Enfim, quando Divina põe para fora a raiva, a indignação, ela não o faz apenas contra Joaquim, a quem se recusa a chamar de pai, mas também contra juízes que culpabilizam mulheres, contra famílias que se calam, contra o Estado e contra uma sociedade que ainda considera o silêncio feminino uma virtude. 

Desterro é o nome de uma Ilha e, no dicionário, designa o ato de expulsar alguém de sua pátria ou domicílio: exílio,  banimento.

A família foi expulsa da cidade pelo provedor para um lugar isolado. E é uma jovem quem reverte esse banimento. O pai, ao mar; a mãe parte a cavalo; e ela, ah, ela, naquela lonjura, se encontra consigo mesma.

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  • Fabiane-Albuquerque

    Feminista negra, escritora e doutora em sociologia. Autora dos livros Cartas a um homem negro que amei (Editora Malê) e...

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