A 70ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU, a CSW70, ficará registrada como um dos momentos mais tensos e reveladores da diplomacia recente em torno dos direitos das mulheres. Em uma sequência de derrotas políticas, os Estados Unidos fracassaram ao tentar alterar o texto principal previamente acordado entre os países do encontro e viram rejeitada uma proposta paralela de resolução que, ao distorcer deliberadamente marcos históricos, mentia para impor sua própria agenda.

O resultado expôs um isolamento raro e enviou um recado direto da comunidade internacional: não há espaço para retrocessos na linguagem e nos marcos normativos que sustentam décadas de construção coletiva sobre igualdade de gênero.

A tentativa de reescrever o conceito de gênero

Durante as negociações do documento final, no dia 9 de março, conhecido como Agreed Conclusions, a delegação norte-americana apresentou diversas emendas que buscavam modificar pontos centrais da arquitetura conceitual da ONU.

Entre as propostas estavam:

  • substituir o termo “gênero” por “sexo”;
  • restringir menções a direitos sexuais e reprodutivos;
  • questionar conceitos consolidados em políticas internacionais.

As alterações atingiam diretamente consensos estabelecidos e reiterados desde os anos 90, nas Conferências do Cairo (1994) e de Pequim (1995), marcos históricos para a igualdade de gênero no sistema internacional, além de jurisprudências, casos e recomendações de Comitês de Vigilância. 

Rejeição e votação histórica

As emendas foram rejeitadas ao longo das negociações e não prosperaram entre os países-membros. Diante do impasse, o documento final foi levado à votação — algo incomum na história recente da CSW, tradicionalmente baseada em consenso.

O resultado foi contundente: ampla maioria favorável ao texto, com os Estados Unidos como único voto contrário e um pequeno grupo de abstenções.

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Painel da votação das agreed conclusions.

A votação, ocorrida no primeiro dia da CSW70, não apenas garantiu a aprovação do documento como reafirmou o compromisso global com a linguagem baseada em gênero e com os direitos das mulheres em sua dimensão ampla e interseccional.

A escalada: uma resolução paralela

Após a derrota nas emendas, os Estados Unidos avançaram em uma estratégia ainda mais incisiva — e mentirosa. No dia 19 de março de 2026, apresentaram um draft de resolução próprio, em que tentavam novamente forçar suas propostas rejeitadas e transformá-las em um novo texto formal.

Na prática, tratava-se de uma tentativa de contornar o processo multilateral e reintroduzir, por outra via, mudanças já recusadas e que feriam frontalmente normativas da ONU.

O conteúdo do draft trazia uma reinterpretação de marcos internacionais sob uma lógica biologizante e antigênero, e o fazia manipulando textos acordados no passado. Segundo o documento proposto pelo país, “gênero” deveria ser entendido como “homem e mulher”, o que seria supostamente uma reafirmação da Plataforma de Pequim (1995), especialmente em seu anexo 4. No entanto, o texto ao qual os Estados Unidos fazem referência não traz essa definição. 

O Anexo 4 da Plataforma de Pequim diz que “gênero” deveria ser entendido como era habitualmente nos textos das Nações Unidas. Quem disse que entendia “gênero” como sinônimo de homem e mulher foi o Vaticano, em uma reserva anexada a esse texto. 

Ou seja, os Estados Unidos distorceram o que foi acordado pelo próprio sistema internacional com a intenção de retroceder em décadas a luta feminista que rompeu com o essencialismo de gênero com base no sexo e com os próprios tratados das Nações Unidas. Se aprovado, portanto, além de todo o impacto político antigênero, o draft traria informações falsas. O Women’s Rights Caucus, grupo que representa mais de 900 feministas em todo o mundo e que atua no âmbito da CSW, deixou isso explícito em comunicado publicado na quarta-feira, 18 de março, no qual menciona o movimento como uma tentativa dos EUA de “reescrever a história”. 

Nova derrota e isolamento aprofundado

A reação dos países foi imediata. A proposta norte-americana não foi votada, somando mais uma derrota à delegação estadunidense.

Diplomatas e analistas interpretaram o movimento como uma ruptura das práticas históricas da CSW, baseadas na construção coletiva e no diálogo entre Estados.

O Brasil e a Bélgica lideraram a oposição à resolução na Assembleia dos Estados-membros em 19 de março. Os países, frente à empreitada anti-democrática e que contrariaria os próprios procedimentos das Nações Unidas e meses de discussão diplomática acerca das Agreed Conclusions, apresentaram uma “moção para não ação” de modo a bloquear completamente a proposta de resolução. 

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Painel da votação pela não apreciação da proposta dos Estados Unidos.

A tentativa de impor uma resolução alternativa após a rejeição das emendas foi vista como:

  • pressão política sobre o sistema multilateral;
  • tentativa de reconfiguração normativa sem consenso;
  • endurecimento ideológico em temas de direitos humanos;

A resposta majoritária, no entanto, foi firme: não houve apoio suficiente para sustentar a iniciativa e a maioria votou por não aceitar a proposta de resolução. 

Reação internacional e defesa dos marcos históricos

Delegações de diferentes regiões reafirmaram que os avanços construídos ao longo de décadas não seriam reabertos por iniciativas isoladas.

A Conferência de Pequim foi reiteradamente mencionada como um dos pilares que não poderiam ser relativizados, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento do conceito de gênero como ferramenta essencial para a formulação de políticas públicas.

Organizações da sociedade civil também classificaram a proposta como uma tentativa de institucionalizar retrocessos e fragmentar consensos internacionais.

O que foi aprovado apesar das tensões

Mesmo sob forte disputa, o documento final da CSW70 reafirmou compromissos centrais:

  • a igualdade de gênero como princípio estruturante;
  • o enfrentamento à violência contra mulheres e meninas;
  • o acesso à justiça;
  • a importância de políticas baseadas em direitos humanos.

Também houve avanços importantes, como o reconhecimento de grupos historicamente negligenciados nas políticas internacionais.

Desdobramentos políticos

A dupla derrota dos Estados Unidos – e do campo antigênero – produz efeitos que vão além da CSW70 e reposiciona o debate global.

  • Isolamento diplomático: os EUA ficaram sozinhos na oposição ao texto principal e novamente sem apoio na resolução paralela.
  • Reafirmação do conceito de gênero: a rejeição reiterada fortalece a centralidade do conceito nas políticas internacionais.
  • Limites à imposição unilateral: o fracasso da estratégia paralela delimita até onde países podem ir ao tentar contornar processos multilaterais.
  • Intensificação da disputa global: gênero, diversidade e direitos reprodutivos estão no centro de uma disputa política internacional cada vez mais acirrada.

Um marco de confronto e resistência

A CSW70 rompeu uma tradição de consenso e expôs, de forma direta, as tensões que atravessam a agenda global dos direitos das mulheres.

Mais do que derrotar propostas específicas, a comunidade internacional recusou uma tentativa de reconfigurar os próprios fundamentos da política internacional de igualdade com base em informações fraudulentas e que atentam diretamente contra os direitos humanos.

A mensagem é inequívoca: os marcos construídos ao longo de décadas não serão facilmente desmontados. E, desta vez, essa resposta não veio apenas no discurso — veio em voto.

Comitiva Trans Brasileira esteve presente

A Comitiva Trans e Travesti Brasileira presente na CSW70, composta por Gilmara Cunha (Grupo Conexão G), Bruna Benevides (Associação Nacional de Travestis e Transexuais – Antra), Vida Guzzo (Intersexo Brasil), Luana Barbosa e João Apuã (Pajubá Tech) e Victoria Dandara (Council for Global Equality) acompanhou e enfrentou diversas articulações lideradas pelos EUA que buscavam estabelecer este precedente considerado antidemocrático na ONU, contrariando décadas de avanços nos direitos de todas as mulheres. 

Além de posicionamento publicado em carta sobre o episódio, atuaram com incidência direta junto a autoridades brasileiras e internacionais, contribuindo para barrar a proposta e destacar o papel do Estado brasileiro como liderança na defesa de direitos, contra agendas antigênero e excludentes.

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