A mulher de 2026 às vezes parece ser de outra época, ao menos na maneira como se expõe publicamente. Algumas ainda sentem a obrigação de se justificar por não quererem ser mães ou por não poderem sê-lo, no sentido de gerar uma criança. Em pleno século 21, décadas depois do advento da pílula contraceptiva, da luta pelo aborto legal em quaisquer circunstâncias e de campanhas como “meu corpo, minhas regras”, ser ou não mãe seguesendo parte fundamental da nossa identidade. 

É o que indica o número de publicações escritas por mulheres a respeito desse tema. Nem o sucesso do best-seller “O acontecimento”, de Annie Ernaux, que trata do aborto e da pílula anticoncepcional na França dos anos 1960, parece ter ajudado a mudar esse cenário. 

Tenho a sensação de que estamos dando muitos passos para trás. Influenciadoras que vendem a ideia de uma vida feliz como esposas tradicionais (belas, recatadas e do lar, para usar uma frase cara ao poder) ganham cada vez mais seguidoras. Muitas dessas tradwifes, como são conhecidas, são mulheres de bilionários que mostram seu cotidiano “simples”, entre a cozinha, o jardim e a sala de jantar, onde recebem, lindas e arrumadas, os filhos, o marido e os amigos. 

Quem faz o trabalho pesado por trás das câmeras, obviamente, não são elas, mas outras mulheres reais, cujas vidas não são tão glamourosas quanto as dessas donas de casa “fakes”.

Essas mulheres invisíveis têm certamente muito mais a contribuir para a causa feminista do que aquelas que forjam imagens irreais e deploráveis da mãe e da esposa.

Talvez “A mística feminina”, da estadunidense Betty Friedan (1921-2006), publicado originalmente em 1963, precisasse ser relido. A obra traz um retrato assustador e deprimente da vida sem sentido das mulheres de classe média estadunidenses que viviam apenas para o lar. Aliás, quando a autora veio ao Brasil para o lançamento de seu livro, em 1971, diversas notas na imprensa a chamaram de feia, nariguda e neurótica. Hoje, se Friedan estivesse entre nós, não me surpreenderia se ela fosse adjetivada da mesma forma.

Atualmente, ainda ocorrem discussões importantes a respeito desses retrocessos. Um dos nomes de destaque nas redes sociais é o da jornalista e escritora Milly Lacombe, que trata dessas questões com seriedade, promovendo diálogos com pensadoras atuais e também de outras épocas, as quais precisam sempre ser lembradas.

Em tempos de retrocesso, vale sempre destacar a escritora inglesa Virginia Woolf (1882–1941), que, em uma palestra de 1931 intitulada “Profissões de mulheres”, defendeu que o “anjo da casa” deveria ser morto – em alusão a um poema de Coventry Patmore (1823–1896), no qual a heroína, esse anjo, não tem voz própria. Woolf estava ciente de que só poderia ser dona de sua voz se calasse esse anjo que a atormentava, principalmente quando escrevia sobre livros escritos por homens: “Minha querida, você é uma jovem mulher. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja boazinha; seja meiga […]” (tradução de Tomaz Tadeu).

Por falar em anjos, quem passa pela estação central de trem de Zurique (Suíça) é saudado por uma escultura gigante, “O anjo protetor”, da artista francesa Niki Saint Phalle (1930–2002). O anjo tem a forma de uma mulher com formas avantajadas e curvilíneas, tal como as outras Nanas da artista, que assim denominava as suas peças que representavam grandes figuras femininas. Ela dizia que suas Nanas eram grandes “porque os homens o são, porque é preciso que elas o sejam ainda mais para poderem ser suas iguais” (tradução minha).

As Nanas de Niki Saint Phalle são muito coloridas, o que realça as suas formas generosas. Elas claramente celebram a vida enquanto “reivindicam o poder para aqueles que estão à margem da sociedade”, como afirma a estudiosa Lucia Pesapane

Hoje, as mulheres podem ter o rosto e o corpo que quiserem ter ou que a sociedade quer que tenham. A mulher “contemporânea” deve, por exemplo, seguir um padrão que vêm dos séculos passados: ser magérrima.

Contudo, já não precisa de espartilho, as injeções emagrecedoras fazem esse papel, mantendo-a na linha. O “eterno feminino” ressurgiu, então, como um ser novamente frágil, pois esse é o seu papel simbólico junto à sociedade conservadora. 

Enquanto isso, no mundo real, o feminicídio cresce em vários países e muitas mulheres, mesmo assim, insistem em ignorar o legado das feministas de outros tempos, num retrocesso evidente que só posso deplorar. 

Em tempos de guerra e regimes totalitários, nossa voz se torna ainda mais importante, mas para ela ser ouvida precisamos nos defrontar criticamente com o “anjo da casa”. Talvez precisemos seguir o exemplo das Nanas irreverentes e desbravadoras do século 20. 

A propósito de conflitos bélicos, Virginia Woolf afirmava que a guerra poderia ser combatida por meio de uma nova instituição de ensino que oferecesse a seus alunos a arte de não dominar, não mandar, não matar e não acumular terra e capital, e que valorizasse, conforme ela enumerava, a medicina, a matemática, a música, a pintura e a literatura, promovendo o diálogo com todos os povos e todas as culturas. Uma faculdade, em suma, cujo objetivo não seria segregar e especializar, “mas combinar”. Nela, o protagonismo, de acordo com a autora inglesa, seria da mulher. 

Outra perspectiva feminina potente contra a guerra que gostaria de mencionar é a da poeta e prosadora polonesa Anna Świrszczyńska (1909–1984). Em “Eu construía a barricada”, um relato contundente sobre o Levante de Varsóvia, um dos acontecimentos mais assombrosos da Segunda Grande Guerra, quando, em 1944, os poloneses lutaram durante 63 dias para libertar a capital do país do controle nazista, Anna afirma: “a guerra não tem rosto de mulher” (tradução de Piotr Kilanowski). 

Na sua epopéia, a mulher não é a heroína; ela é apenas a testemunha da história:

“Filhinha, eu não fui uma heroína

as barricadas sob o tiroteio, todos construíram

mas eu vi heróis

e sobre isso preciso falar”.

No mês que marca o Dia Internacional das Mulheres é essencial, a meu ver, denunciar os retrocessos , a guerra sendo o seu ápice.

Por fim, os tradutores aqui mencionados possibilitaram que essas mulheres fossem lidas em português. Parcerias como essas, que fortalecem o legado feminista, também merecem ser celebradas este mês. 

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  • Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, ensaísta, escritora e tradutora. Traduziu, entre outros, Edward Le...

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