Em outubro deste ano, a chef de cozinha Paloma Alves de Moura, morreu após passar quase dez horas sangrando em um hospital de Olinda, em Pernambuco. Ela deu entrada com fortes dores no útero e sangramento constante. Encaminhada à maternidade, foi submetida a um Beta HCG, teste de sangue que detecta a possibilidade de gravidez. 

Paloma estava acompanhada de uma amiga, que já havia informado à equipe médica sobre seu diagnóstico de endometriose. Ela precisava ser transferida, mas foi impedida, pois, segundo os médicos do local, era preciso confirmar que ela não estava realmente grávida e que aquilo não se tratava de um aborto. 

Para quem atendeu Paloma naquele dia, sua vida era menos importante do que a de um feto que, se de fato existisse, não estaria mais ali. Para além de ser negligenciada, Paloma foi julgada e condenada por uma suspeita. Fosse um aborto, espontâneo ou provocado, ela teve seu direito a um atendimento ágil e humanizado negado. Sua dor não foi ouvida, seu corpo não foi respeitado, tampouco sua história. O sangue decretou sua sentença: abortista. E, se é abortista, merece morrer.

O caso de Paloma expõe não apenas a contínua violação aos corpos e escolhas das mulheres, mas também o descaso com o que diz respeito à saúde feminina como um todo e a maneira como o repúdio ao aborto, seja ele em qualquer circunstância, está enraizado em nossa sociedade, inclusive na classe médica.

Ninguém que atendeu Paloma se propôs a escutar sobre sua condição ou teve a urgência de salvá-la. Sua vida deixou de importar no momento em que chegou ao hospital. No local onde buscava acolhimento e cuidado, a mataram.

Poucos dias antes de sua morte, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado havia aprovado uma proposta que proíbe o aborto acima de 22 semanas de gestação em quaisquer  hipóteses, incluindo aquelas já permitidas por lei, como gravidezes resultantes de estupro. Já em novembro, a Câmara dos Deputados, por sua vez, aprovou um projeto que dificulta o aborto legal em crianças e adolescentes. As decisões sobre os nossos corpos, mesmo quando violados, não nos pertencem. E nós devemos pagar qualquer que seja o preço, inclusive com nossas vidas.

O caso de Paloma imediatamente me remeteu a um filme que eu havia visto um mês antes do que lhe aconteceu: Belén. Escolhido pela Argentina para representar o país no Oscar, o longa é baseado em uma história real e acompanha Julieta, uma jovem que, assim como Paloma, dá entrada em um hospital com fortes dores e sangramento, mas descobre ali uma gravidez. Imediatamente a polícia é acionada e Julieta é presa acusada de infanticídio. A história, ambientada em 2014, ocorre antes de a Argentina legalizar o aborto sob qualquer circunstância.

A forma grotesca e brutal com que a jovem é tratada pela polícia local foi  apenas a primeira violência que ela sofreu. Julieta, após um julgamento tendencioso e repleto de posicionamentos religiosos, é condenada a oito anos de prisão preventiva, cumprindo a sentença por dois anos e um mês.

Dois anos em que sua história permaneceu esquecida. Dois anos em que a sociedade da pequena Tucumán, cidade onde tudo aconteceu, sentiu-se vingada por colocar uma abortista “no lugar que ela merece”. Foi necessária a indignação de uma advogada e a manifestação de diversos movimentos feministas – incluindo o Ni Una Menos – para que o caso fosse revisado e Julieta fosse inocentada.

O caso de Julieta — que utilizava o pseudônimo Belén como forma de proteger sua identidade — evidencia como as mudanças só acontecem perante a nossa movimentação coletiva, perante a nossa ira. Foi preciso um grupo de mulheres para libertar alguém que foi presa por simplesmente  ousar decidir sobre o próprio corpo. 

Tive a chance de assistir à Belén na Argentina e acompanhei a emoção que dominou a sala de cinema quando o filme acabou. Pude sentir o quanto as mulheres ali presentes se sentiam um pouco parte daquela história e também parte daquela conquista. Parte na liberdade de Belén e na libertação de tantas outras.

Para mim, tal emoção veio junto a um amargor. Em um Brasil tão contrário a qualquer ação que proteja a vida das mulheres e suas escolhas, e tão obstinado em nos punir, Belén dói duplamente. Dói pela história dessa jovem, mas dói ainda mais por saber o quão distante estamos de conquistar qualquer avanço em relação ao aborto. 

Dói por pensar em quantas Palomas perdemos e perderemos, seja por diagnósticos baseados em suposições, seja por abortos reais que acontecem escondidos, silenciosos e clandestinos e que colocam, especialmente aquelas que são mais vulneráveis, sob o risco de perderem a liberdade ou a vida. 

Dói por saber que, enquanto escrevo esse texto, meninas correm o risco de serem forçadas a carregar e parir frutos de abusos. 

Dói porque a luta permanece. Porque a luta precisa permanecer.

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  • Sttela Vasco

    Feminista, paulista e paulistana, sou formada em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, pós-graduada em Cinema pelo Ce...

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