Autora de uma ação de indenização por dano moral contra a professora do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da UDESC, Marlene de Fáveri,  Ana Caroline Campagnolo afirma que sofreu perseguição religiosa por ser conservadora, cristã e antifeminista durante as aulas e as orientações de mestrado em 2013. Além de professora de história no ensino básico de Chapecó, ela mantém o canal Vlogoteca no Youtube – no qual contesta os estudos de feminismo e gênero – e faz palestras sobre doutrinação ideológica em eventos do movimento Escola Sem Partido, apresentando-se como exemplo de vítima de perseguição em sala de aula.

Entenda o caso aqui

Na época do mestrado, Ana Caroline se propôs a estudar os diferentes discursos que envolvem a violência contra a mulher no projeto de pesquisa “Virgindade e Família: mudança de costumes e o papel da mulher percebido através da análise de discursos em Inquéritos Policiais da Comarca de Chapecó (1970-1988)”. Ainda que o seu caminho na ciência fosse pautado por uma perspectiva feminista e de estudos de gênero, na opinião da ex-mestranda o feminismo resume-se à revolução sexual e só causou efeito sobre o aumento da gravidez precoce, divórcio e aborto. “Também cresceu vertiginosamente o número de mães solteiras e mulheres que precisam se sustentar totalmente sozinhas. Já o número de mulheres que fazem trabalhos perigosos, recolhem lixo ou limpam esgotos continua ínfimo em relação ao número de homens nos mesmos empregos”, afirma ela.

A autora do processo relata na ação que mesmo contra a sua crença leu livros indicados pela então orientadora e professora da aula “História e Relações de Gênero”, entre eles “Eunucos Pelo Reino de Deus: Mulheressexualidade e igreja católica”, cujo teor feminista ataca São Tomás de Aquino, ícone da sua fé. Entre os ensinamentos do frade italiano estão a defesa do uso da força nas relações humanas: “faz parte da ordem natural, entre os humanos, que as mulheres sejam submissas aos homens (…) Porque por uma questão de justiça, a razão mais fraca deve submeter-se a mais forte”.

De acordo com sua convicção, as mulheres devem a conquista do voto a homens conservadores que as apoiaram “na arena política”. Ana Caroline é divorciada, porém não entende o rompimento legal de matrimônio como uma conquista. No último vídeo publicado no seu canal, a ex-mestranda conta porque moveu processo contra a ex-orientadora e ensina como elaborar uma ação em caso de perseguição por professores na sala de aula.

Entrevistada por Catarinas, a ex-aluna da UDESC conta sua versão sobre o caso.

A ex-aluna da UDESC concordou em conceder entrevista a Catarinas a entrevista abaixo mediante o compromisso de que não houvesse qualquer edição das suas respostas.

Catarinas: Apesar de se colocar publicamente como antifeminista, sua pesquisa parte de uma perspectiva de gênero com fontes feministas e categorias de análise relacionadas. Por quê?
Ana Caroline:
Porque os Programas de Mestrado das universidades que eu conheço só oferecem estudos da condição da mulher relacionados à categoria de análise de gênero. Era meu interesse estudar a condição feminina, então adequei meu projeto ao que estava disponível e isso só reforça que o processo movido contra a professora é por causa de discriminação religiosa e não por discordância de tema. Isso é tão verdadeiro que na gravação que usei com prova no processo judicial é possível ouvir colegas dizendo que eu deveria procurar outra Universidade ao mesmo tempo em que admitem não conhecer nenhuma outra com categoria de análise alternativa.

Catarinas: Por que escolheu a professora Marlene como orientadora mesmo sabendo que tinham “divergências ideológicas”?
Ana Caroline: 
Meu Projeto de Pesquisa foi aprovado pela banca e foram banca e professora os responsáveis por escolher quem orientaria o trabalho aprovado. Não fui eu que escolhi quem me deveria orientar, foi a equipe da Universidade e a própria Marlene. Essa é outra informação propositadamente mal contada pela mídia.

Catarinas: Em algum momento você chegou a pensar em propor um projeto que contestasse o movimento feminista?
Ana Caroline: 
Não. Eu já estava ciente de que feministas não estão interessadas em questionar seus próprios dogmas. Não preciso de um diploma, título ou universidade para estudar a imensa bibliografia que contesta o feminismo nem era do meu interesse conseguir aval acadêmico para minhas convicções.

Catarinas: Em que momento você decidiu propor ação contra a professora Marlene? A reprovação no mestrado influenciou de alguma forma essa decisão?
Ana Caroline: 
No mesmo dia em que ela me humilhou em sala de aula, liguei para um amigo que cursava direito e ele me orientou sobre como proceder e gravar as humilhações. Eu não a processei antes da Banca Final, porque sabia que se o fizesse seria reprovada por retaliação. As provas que apresentei no processo foram colhidas desde 2013, a reprovação foi em 2016. Tentar fazer essa relação é um subterfúgio muito desonesto para reduzir meu caso a uma vingança. O crime cometido é três anos anterior à reprovação.

Catarinas: Você defende a Escola Sem Partido? Como historiadora, acredita na construção e transmissão da história de forma neutra?
Ana Caroline: 
Já estou farta de relacionarem meu processo ao Programa Escola Sem Partido. Não sou eu quem os defende, foram eles que me defenderam ao oportunizar falar desse caso no Congresso. A mídia insiste em dizer que a professora Marlene está sendo processada por causa da “lei da mordaça”. Isso é de uma ignorância sem fim, pois não há como processar ninguém com base em um PROJETO de lei ainda não aprovado. Só se pode processar valendo-se de leis que já existem. É enfadonho explicar a mesma obviedade tantas vezes. Não sou historiadora, sou professora licenciada em história. Se eu fosse historiadora e tivesse produzido uma obra história poderia colocar nela as minhas própria convicções, mas nenhum professor pode – porque a Constituição já proíbe isso – discriminar, humilhar ou perseguir alunos porque eles não defendem as mesmas pautas. Mais uma vez é preciso dizer que meu processo não é contra o “feminismo” alheio. É um processo por danos morais pessoais, diretos, específicos e dos quais apresentei inúmeras provas.

Catarinas: Pode exemplificar situações ou falas específicas em que teria ocorrido a perseguição religiosa que você alega ter sofrido?
Ana Caroline: 
Anexei uma prova fonográfica, e-mails e documentos como prova. Na prova fonográfica é possível ouvir a professora dizendo que se eu não concordo que “poder usar um vibrador” e “poder estar numa Universidade” são conquistas feministas, eu não deveria estar naquela Universidade. Marlene também diz que minhas convicções cristãs são inconsistentes e ridículas e que ela não gosta de gente ridícula, embora algumas pessoas – meus companheiros de fé, obviamente – gostem. Ela também confirma com sua autoridade em sala de aula quando colegas dizem que eu deveria procurar outra universidade – acreditam que a Universidade tem que ser tão dogmática quanto uma Igreja – e quando afirmam categoricamente que “nunca vamos ver um conservador com bons olhos aqui”. Pode-se citar ainda os e-mails nos quais a professora cobra uma mudança de postura da minha vida pessoal e privada ao anexar links de publicações religiosas e familiares do meu Facebook pessoal – que na época não tinha os 37 mil seguidores que chegaram até mim justamente por causa deste caso. Todas essas provas ficam ainda mais firmes quando a professora me acusa de crime de “racismo”, “sexismo”, “fascismo” e “homofobia” nos autos do processo, sem prova alguma, atestando ainda mais seu preconceito com cristãos e sanha contra mim.

Catarinas: Em e-mail trocado com a professora você diz “estou sinceramente inclinada a demonstrar avanços e mudanças que os movimentos feministas trouxeram à sociedade”. De acordo com sua pesquisa quais avanços o feminismo trouxe à sociedade?
Ana Caroline: 
Não houve pesquisa feminista, posto que a orientadora não conseguiu orientar uma aluna cristã como eu. No entanto, certamente, sabemos que o feminismo mudou muito a sociedade ocidental: desde que a revolução sexual começou o número de gravidez precoce, divórcio e mulheres favoráveis ao aborto aumentou consideravelmente. Também cresceu vertiginosamente o número de mães solteiras e mulheres que precisam se sustentar totalmente sozinhas. Já o número de mulheres que fazem trabalhos perigosos, recolhem lixo ou limpam esgotos continua ínfimo em relação ao número de homens nos mesmos empregos.

Catarinas: Como você entende a luta das mulheres por direitos civis/humanos que resultou em conquistas como o direito ao voto feminino, divórcio, entre outros?
Ana Caroline: 
Em primeiro lugar, não foram conquistas feministas. O movimento feminista se apropria de todas as conquistas femininas ao mesmo tempo em que abandona todos os escândalos alegando que “existem muitos feminismos” e o que escandaliza é sempre “de outro movimento”. O direito ao voto, por exemplo, não foi garantido às mulheres só por esforço próprio e, hoje em dia, esquece-se quem foram os responsáveis por as apoiarem na arena política. Na Inglaterra, a introdução do voto feminino no Parlamento foi obra do primeiro ministro Robert Cecil, um conservador; nos Estados Unidos, a Décima Nona emenda encontrou em Aaron A. Sargent, um republicano, o seu propositor. Enquanto o voto feminino era sugerido pelos homens conservadores em casas democráticas, os movimentos de mulheres queixavam-se em folhetins e matérias jornalísticas de que as mulheres não se engajavam na luta e pouco se importavam com o voto. Ainda poderia citar que foram as igrejas cristãs os primeiros palcos de reuniões de mulheres (o que não é sinônimo de feminismo) em países da Europa e na América do Norte. O primeiro grande livro usado pelas feministas, “Reivindicação dos Direitos da Mulher”, inicia com uma dedicatória ao bispo local e tem um apelo pela moralidade cristã e não pela libertinagem sexual, como faz o movimento feminista atual. Essas informações, muitas vezes, nos são ocultadas em favor de uma versão da história estereotipada, que apresenta o aumento dos direitos femininos na medida em que superam o conservadorismo. Em segundo lugar, divórcio não é uma conquista, ninguém faz festa de divórcio. As pessoas comemoram o casamento (sacramento) e não a separação. Ainda assim, há que se lembrar que Cartas de Divórcio existem desde os tempos de Moisés, milênios antes de Cristo. Os muçulmanos, por exemplo, sempre tiveram divórcio e até “casamento temporário”. Não conheço ninguém que tenha anunciado com felicidade a conquista de um divórcio. As própria autoras feministas, como Kate Millet, admitem que o objetivo do movimento não é o reconhecimento de direitos mas sim a Revolução Sexual.

Atualizado às 8h12 de 12 de abril.

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1 comentário

Maria de Fátima Conceição em 13 de abril de 2017

É importantíssimo e fundamental esclarecer que no Brasil há um grande número de faculdades e universidade cristãs (católicas, presbiterianas, batistas e ainda de outras vertentes cristãs) que possuem sim cursos de pós-graduação (latu-senso e strictu senso), que oferecem bolsas de estudo parciais e totais (integrais), em diversas áreas do conhecimento e das ciências humanas. A PUC (Pontífica Universidade Católica), espalhada em quase todo o país, com uma unidade catarinense em Joinville, é, inclusive, uma das mais respeitadas universidades brasileiras, e também uma das instituições particulares que maior número de bolsas e incentivos oferece. Há inclusive diversas pesquisas sobre gênero, mulheres e condições das mulheres que já foram feitos e estão sendo feitos nessas instituições, com ou sem perspectivas feministas. Assim como há diversas pesquisas feitas em universidades públicas sobre religião, e, feitas por pessoas religiosas, com ou sem perspectivas religiosas, inclusive na área de gênero-feminismos-condição das mulheres. Portanto, factualmente falando, não são verdadeiras as seguintes afirmações: 1- a afirmação de que trabalhos sobre gênero, feminismos e condição das mulheres "só podem" ser feitos em programas de universidades públicas e laicas, posto que também podem ser desenvolvidos nas universidades brasileiras religiosas; 2- a afirmação de que trabalhos sobre gênero, feminismos e condição das mulheres "só podem" ser feitos com perspectivas feministas teóricas e críticas, posto que: podem, sim, perfeitamente, serem desenvolvidos sem estas mesmas perspectivas, e, aliás, até mesmo com perspectivas religiosas, ou conservadoras, ou até mesmo anti-feministas, desde que competente e coerentemente embasadas e referenciadas, em: a) universidades e faculdades públicas e suas diversas linhas de pesquisa que tratam das mulheres (que não se resumem às linhas feministas ou de estudos de gênero), e, b) universidades e faculdades religiosas e cristãs - instituições estas que, talvez, quem sabe, mediante competente e coerente trabalho de pesquisa, poderiam oferecer grande aderência e respaldo aos marcos conceituais anti-feministas e conservadores da aluna Ana Carolina. Estes fatos e circunstâncias fundamentais, facilmente verificáveis e comprováveis, cujo valor na construção do discurso de acusação possui grande peso na compreensão da situação, estão sendo omitidos e negligenciados pela autora do processo, por razões bastante duvidosas. Percebemos que informações que não são verdadeiras do ponto de vista factual, que comprometem a veracidade e verificação de grande parte das acusações e alegações usadas como "provas" neste processo contra Marlene estão sendo usadas, o quê, além de ferir a lei constitucional, fere também o 8o mandamento da Bíblia Sagrada "Não levantar falso testemunho", seja contra quem ou quê for.

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