“Já estou farta de relacionarem meu processo ao Programa Escola Sem Partido”

Postado em 11/04/2017, 17:45

Autora de uma ação de indenização por dano moral contra a professora do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da UDESC, Marlene de Fáveri,  Ana Caroline Campagnolo afirma que sofreu perseguição religiosa por ser conservadora, cristã e antifeminista durante as aulas e as orientações de mestrado em 2013. Além de professora de história no ensino básico de Chapecó, ela mantém o canal Vlogoteca no Youtube – no qual contesta os estudos de feminismo e gênero – e faz palestras sobre doutrinação ideológica em eventos do movimento Escola Sem Partido, apresentando-se como exemplo de vítima de perseguição em sala de aula.

Entenda o caso aqui

Na época do mestrado, Ana Caroline se propôs a estudar os diferentes discursos que envolvem a violência contra a mulher no projeto de pesquisa “Virgindade e Família: mudança de costumes e o papel da mulher percebido através da análise de discursos em Inquéritos Policiais da Comarca de Chapecó (1970-1988)”. Ainda que o seu caminho na ciência fosse pautado por uma perspectiva feminista e de estudos de gênero, na opinião da ex-mestranda o feminismo resume-se à revolução sexual e só causou efeito sobre o aumento da gravidez precoce, divórcio e aborto. “Também cresceu vertiginosamente o número de mães solteiras e mulheres que precisam se sustentar totalmente sozinhas. Já o número de mulheres que fazem trabalhos perigosos, recolhem lixo ou limpam esgotos continua ínfimo em relação ao número de homens nos mesmos empregos”, afirma ela.

A autora do processo relata na ação que mesmo contra a sua crença leu livros indicados pela então orientadora e professora da aula “História e Relações de Gênero”, entre eles “Eunucos Pelo Reino de Deus: Mulheressexualidade e igreja católica”, cujo teor feminista ataca São Tomás de Aquino, ícone da sua fé. Entre os ensinamentos do frade italiano estão a defesa do uso da força nas relações humanas: “faz parte da ordem natural, entre os humanos, que as mulheres sejam submissas aos homens (…) Porque por uma questão de justiça, a razão mais fraca deve submeter-se a mais forte”.

De acordo com sua convicção, as mulheres devem a conquista do voto a homens conservadores que as apoiaram “na arena política”. Ana Caroline é divorciada, porém não entende o rompimento legal de matrimônio como uma conquista. No último vídeo publicado no seu canal, a ex-mestranda conta porque moveu processo contra a ex-orientadora e ensina como elaborar uma ação em caso de perseguição por professores na sala de aula.

Entrevistada por Catarinas, a ex-aluna da UDESC conta sua versão sobre o caso.

A ex-aluna da UDESC concordou em conceder entrevista a Catarinas a entrevista abaixo mediante o compromisso de que não houvesse qualquer edição das suas respostas.

Catarinas: Apesar de se colocar publicamente como antifeminista, sua pesquisa parte de uma perspectiva de gênero com fontes feministas e categorias de análise relacionadas. Por quê?
Ana Caroline:
Porque os Programas de Mestrado das universidades que eu conheço só oferecem estudos da condição da mulher relacionados à categoria de análise de gênero. Era meu interesse estudar a condição feminina, então adequei meu projeto ao que estava disponível e isso só reforça que o processo movido contra a professora é por causa de discriminação religiosa e não por discordância de tema. Isso é tão verdadeiro que na gravação que usei com prova no processo judicial é possível ouvir colegas dizendo que eu deveria procurar outra Universidade ao mesmo tempo em que admitem não conhecer nenhuma outra com categoria de análise alternativa.

Catarinas: Por que escolheu a professora Marlene como orientadora mesmo sabendo que tinham “divergências ideológicas”?
Ana Caroline: 
Meu Projeto de Pesquisa foi aprovado pela banca e foram banca e professora os responsáveis por escolher quem orientaria o trabalho aprovado. Não fui eu que escolhi quem me deveria orientar, foi a equipe da Universidade e a própria Marlene. Essa é outra informação propositadamente mal contada pela mídia.

Catarinas: Em algum momento você chegou a pensar em propor um projeto que contestasse o movimento feminista?
Ana Caroline: 
Não. Eu já estava ciente de que feministas não estão interessadas em questionar seus próprios dogmas. Não preciso de um diploma, título ou universidade para estudar a imensa bibliografia que contesta o feminismo nem era do meu interesse conseguir aval acadêmico para minhas convicções.

Catarinas: Em que momento você decidiu propor ação contra a professora Marlene? A reprovação no mestrado influenciou de alguma forma essa decisão?
Ana Caroline: 
No mesmo dia em que ela me humilhou em sala de aula, liguei para um amigo que cursava direito e ele me orientou sobre como proceder e gravar as humilhações. Eu não a processei antes da Banca Final, porque sabia que se o fizesse seria reprovada por retaliação. As provas que apresentei no processo foram colhidas desde 2013, a reprovação foi em 2016. Tentar fazer essa relação é um subterfúgio muito desonesto para reduzir meu caso a uma vingança. O crime cometido é três anos anterior à reprovação.

Catarinas: Você defende a Escola Sem Partido? Como historiadora, acredita na construção e transmissão da história de forma neutra?
Ana Caroline: 
Já estou farta de relacionarem meu processo ao Programa Escola Sem Partido. Não sou eu quem os defende, foram eles que me defenderam ao oportunizar falar desse caso no Congresso. A mídia insiste em dizer que a professora Marlene está sendo processada por causa da “lei da mordaça”. Isso é de uma ignorância sem fim, pois não há como processar ninguém com base em um PROJETO de lei ainda não aprovado. Só se pode processar valendo-se de leis que já existem. É enfadonho explicar a mesma obviedade tantas vezes. Não sou historiadora, sou professora licenciada em história. Se eu fosse historiadora e tivesse produzido uma obra história poderia colocar nela as minhas própria convicções, mas nenhum professor pode – porque a Constituição já proíbe isso – discriminar, humilhar ou perseguir alunos porque eles não defendem as mesmas pautas. Mais uma vez é preciso dizer que meu processo não é contra o “feminismo” alheio. É um processo por danos morais pessoais, diretos, específicos e dos quais apresentei inúmeras provas.

Catarinas: Pode exemplificar situações ou falas específicas em que teria ocorrido a perseguição religiosa que você alega ter sofrido?
Ana Caroline: 
Anexei uma prova fonográfica, e-mails e documentos como prova. Na prova fonográfica é possível ouvir a professora dizendo que se eu não concordo que “poder usar um vibrador” e “poder estar numa Universidade” são conquistas feministas, eu não deveria estar naquela Universidade. Marlene também diz que minhas convicções cristãs são inconsistentes e ridículas e que ela não gosta de gente ridícula, embora algumas pessoas – meus companheiros de fé, obviamente – gostem. Ela também confirma com sua autoridade em sala de aula quando colegas dizem que eu deveria procurar outra universidade – acreditam que a Universidade tem que ser tão dogmática quanto uma Igreja – e quando afirmam categoricamente que “nunca vamos ver um conservador com bons olhos aqui”. Pode-se citar ainda os e-mails nos quais a professora cobra uma mudança de postura da minha vida pessoal e privada ao anexar links de publicações religiosas e familiares do meu Facebook pessoal – que na época não tinha os 37 mil seguidores que chegaram até mim justamente por causa deste caso. Todas essas provas ficam ainda mais firmes quando a professora me acusa de crime de “racismo”, “sexismo”, “fascismo” e “homofobia” nos autos do processo, sem prova alguma, atestando ainda mais seu preconceito com cristãos e sanha contra mim.

Catarinas: Em e-mail trocado com a professora você diz “estou sinceramente inclinada a demonstrar avanços e mudanças que os movimentos feministas trouxeram à sociedade”. De acordo com sua pesquisa quais avanços o feminismo trouxe à sociedade?
Ana Caroline: 
Não houve pesquisa feminista, posto que a orientadora não conseguiu orientar uma aluna cristã como eu. No entanto, certamente, sabemos que o feminismo mudou muito a sociedade ocidental: desde que a revolução sexual começou o número de gravidez precoce, divórcio e mulheres favoráveis ao aborto aumentou consideravelmente. Também cresceu vertiginosamente o número de mães solteiras e mulheres que precisam se sustentar totalmente sozinhas. Já o número de mulheres que fazem trabalhos perigosos, recolhem lixo ou limpam esgotos continua ínfimo em relação ao número de homens nos mesmos empregos.

Catarinas: Como você entende a luta das mulheres por direitos civis/humanos que resultou em conquistas como o direito ao voto feminino, divórcio, entre outros?
Ana Caroline: 
Em primeiro lugar, não foram conquistas feministas. O movimento feminista se apropria de todas as conquistas femininas ao mesmo tempo em que abandona todos os escândalos alegando que “existem muitos feminismos” e o que escandaliza é sempre “de outro movimento”. O direito ao voto, por exemplo, não foi garantido às mulheres só por esforço próprio e, hoje em dia, esquece-se quem foram os responsáveis por as apoiarem na arena política. Na Inglaterra, a introdução do voto feminino no Parlamento foi obra do primeiro ministro Robert Cecil, um conservador; nos Estados Unidos, a Décima Nona emenda encontrou em Aaron A. Sargent, um republicano, o seu propositor. Enquanto o voto feminino era sugerido pelos homens conservadores em casas democráticas, os movimentos de mulheres queixavam-se em folhetins e matérias jornalísticas de que as mulheres não se engajavam na luta e pouco se importavam com o voto. Ainda poderia citar que foram as igrejas cristãs os primeiros palcos de reuniões de mulheres (o que não é sinônimo de feminismo) em países da Europa e na América do Norte. O primeiro grande livro usado pelas feministas, “Reivindicação dos Direitos da Mulher”, inicia com uma dedicatória ao bispo local e tem um apelo pela moralidade cristã e não pela libertinagem sexual, como faz o movimento feminista atual. Essas informações, muitas vezes, nos são ocultadas em favor de uma versão da história estereotipada, que apresenta o aumento dos direitos femininos na medida em que superam o conservadorismo. Em segundo lugar, divórcio não é uma conquista, ninguém faz festa de divórcio. As pessoas comemoram o casamento (sacramento) e não a separação. Ainda assim, há que se lembrar que Cartas de Divórcio existem desde os tempos de Moisés, milênios antes de Cristo. Os muçulmanos, por exemplo, sempre tiveram divórcio e até “casamento temporário”. Não conheço ninguém que tenha anunciado com felicidade a conquista de um divórcio. As própria autoras feministas, como Kate Millet, admitem que o objetivo do movimento não é o reconhecimento de direitos mas sim a Revolução Sexual.

Atualizado às 8h12 de 12 de abril.